sábado, 22 de agosto de 2009

O SANGUE DOS SONHOS


A vida tem mais imaginação do que os nossos sonhos

Desmedidos, são sempre maiores que a razão consente e sempre menores do que as mãos são capazes.

Ainda assim, quando grandes sonhos são mortos é muito o sangue que corre,

A vida obriga-nos, tantas vezes e em tantas ocasiões, a sermos o que não somos, a fazermos o que não queremos, a dizermos o que não sentimos que, com tanta mentira, com tanta hipocrisia estudada, acabamos por não saber quem somos.

Quando faço a contabilidade dos dias e oiço o sussurro do desânimo, seja apenas do cansaço e da impotência de afinar pelo que sinto e não vivo, sossego-me encostada às palavras que uma vez li

«Para alcançar o que não se conhece, é preciso passar pelo que não se conhece;

para alcançar o que não se possui, é preciso passar pelo que não se possui;

para alcançar o que não se é, é preciso passar pelo que não se é»

É uma daquelas coisas que só partilhamos com quem sabemos que nos ouve, entende ou concorda

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Em busca de coisas bonitas


Sentada no velho forte a olhar o mar, pensava!

Tão difícil parece a alegria neste mundo! Mas porquê?
Há coisas que nos rodeiam tão bonitas!!!!!!!

Bonita é a casa habitada, o café com leite, a manteiga no pão, o beijo do «até logo».

Bonito é transportar pedras de poder para edificar escadarias de serviço.

Bonito o gato que te adopta como mãe, o aninhar duma criança num colo, a espera pelo filho que ainda não chegou.

Bonito é respirar, ouvir, andar, ver um cego sorrir.

Bonita é a subida que dói, é ousar, relaxar os músculos no alto da montanha, depois de ter trepado até lá cima.

Bonito é saber que existe em nós uma força por descobrir, é ver o espanto das tempestades ao encontrarem-nos refeitos; é escorregar e rir depois da queda.

Bonita a magia da linguagem, a força da imaginação, o homem em Marte, as carícias, o amor que se não consome e é capaz de sofrimento.

Bonita a indignação que pede justiça, o diálogo de verdades, o estreitar das mãos.

Bonita a amizade, as marés da memória, o reconhecer dum rosto através das coisas.

Bonita a carta ou mensagem que chega para dizer

«ESTOU»

quinta-feira, 9 de julho de 2009

À espera de uma verdade....

Observas-te ao espelho
Desabitam-se as tuas feições
Sentes-te no fundo fundo onde nenhum braço chega
Acenas aos amigos, como náufrago a barcos indiferentes
Mas sabes bem que eles têm a sua rota e os seus horários
E aí estás tu, barata de costas, a esprenear, sem apoios
Choras para dentro humidades de gruta
Escondes a amargura em nevoeiros secretos
Não importa a indiferença dos outros
Haverá sempre quem goste e não goste de ti
Essencial é que nunca te desprezes

Diz-se que há duzentos milhões de doentes no mundo
Um dia farás parte desse número
É bom que comeces já a pensar que a doença ilumina o mistério do nosso futuro
Recorda-nos que somos daqui mas que não somos para aqui

A doença humilha-nos, situa-nos na verdade que somos e deixa-nos entregues nas mãos de Deus
Porque é que, tendo saúde teremos de ser altivos e opressores, quando iremos acabar como doentes, que pedem piedade e inspiram compaixão?
Porquê tanto egoísmo e orgulho, quando acabaremos entregues a quem caridosamente nos apoie e ajude?

Então, porque não reconhecemos agora e já cada momento de amor e felicidade?

Será essa recordação e vivência o único suporte da vida!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

On Ne Parle Que De Toi...


Volta e recomeça a escrever...

domingo, 21 de junho de 2009

Alguém disse...




Às vezes lemos as palavras escritas por alguém e ficamos na dúvida se ele nos entrou na alma

«Que estranho destino é o meu que apenas me consente paixões ardentes e me faz esgotar em amores improváveis»

José Manuel Saraiva in "Aos olhos de Deus"

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Velho De Alcântara Mar...


Domingo, 16 Março 2008 às 07:00

Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto "almoços de trabalho", almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.

O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.

Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por "Menina isto" e "Menina aquilo". Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.

Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um "vizinho" do restaurante — ocasionalmente almoça mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da "patroa", sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.

Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse:
-"Então, escolhe lá o que queres almoçar".

Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção, queria ser visto mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei. O seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.
(Miguel Sousa Tavares)

(Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”)


'Este texto fez-me recuar trinta anos e recordar os almoços com a minha filha, numa tasquinha perto da travessa do Oleiro, onde era a escolinha dela. Digo escolinha porque era mesmo pequenina mas orientada por pessoas de coração Enorme, pessoas para quem o ensino não se limitava aos números.
Lembrei-me dessa tasquinha, onde o cenário era idêntico, com excepção da tristeza, essa não andava por ali. Os clientes eram discretos, habituais e silenciosos mas de cara franca e sorriso fácil. Almoçava-se a comida mas também se almoçava com os outros e eram as gargalhadas a propósito de tudo e de nada, provocadas pela alegria de uma criança que nos aproximava e nos tornava íntimos.
Gostava destes almoços, de comidinha caseira sem grandes pretensões mas preparada com muito carinho pela Dª Adriana que a certa altura saía da cozinha, para nos vir perguntar se a comida estava boa, ou se queríamos mais um bocadinho.
Gostava tanto destes almoços, que inventava mil e uma desculpas para fugir aos almoços de coisa alguma, os ditos almoços de trabalho, ou os almoços com colegas de trabalho, que não sendo a mesma coisa, eram semelhantes, falava-se sempre das mesmas coisas, ou seja, de coisa nenhuma…
Ainda hoje, gosto de restaurantes pequeninos ou tasquinhas, onde a comida me é servida com um sorriso franco e luminoso e me faz recordar…'

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Contrato






Quando a Alma negociou com as Novas Tecnologias!!!!!
A câmara entrou com os olhos e o coração com o sentimento
será que foi um negócio de sucesso?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

JUNTOS

Para os meus filhos
Porque para mim serão sempre os meus pequeninos

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Busca Da Felicidade Ou Do Sofrimento...

(Fotografia de Ansel Adams)


O Homem recusa o mundo tal como ele é, sem aceitar o eximir-se a esse mesmo mundo. Efectivamente os homens gostam do mundo e, na sua imensa maioria, não querem abandoná-lo. Longe de quererem esquecê-lo, sofrem, sempre pelo contrário, por não poderem possuí-lo suficientemente. Estranhos cidadãos do mundo que são, exilados na sua própria pátria, excepto nos momentos fulgurantes da plenitude, toda a realidade é para eles imperfeita. Os seus actos escapam-lhes noutros actos, voltam a julgá-los assumindo feições inesperadas, fogem, como a água de Tântalo para um estuário ainda desconhecido. Conhecer o estuário, dominar o curso do rio, possuir enfim a vida como destino, eis a sua verdadeira nostalgia, no ponto mais fechado da sua pátria. Mas essa visão que, ao menos no conhecimento, finalmente os reconciliaria consigo próprios, não pode surgir, se tal acontecer, será num momento fugitivo que é a morte, tudo nela termina.
Para se ser uma vez no mundo, é preciso deixar de ser para sempre.
Neste ponto nasce essa desgraçada inveja que tantos homens sentem da vida dos outros. Apercebendo-se exteriormente dessas existências, emprestam-lhes uma coerência e uma unidade que elas não podem ter na verdade mas que ao observador parecem evidentes. Este não vê mais que a linha mais elevada dessas vidas, sem adquirir consciência do pormenor que as vai minando. Então fazemos arte sobre essas existências. Romanceamo-las de maneira elementar. Cada um, nesse sentido, procura fazer da sua vida uma obra de arte.
Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não, as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade...
(Albert Camus)

domingo, 17 de maio de 2009

tinha 24 anos e era o meu terceiro sonho a ser cumprido

Para o Francisco no dia dos seus 28 anos




Houve um dia em que sonhei
Acordei...
Mas não dormi
Outro dia não sonhei
Acordei...
Mas não vivi
Sonha pois meu filho sonha
Inventa asas à vida
Olha que a terra é medonha
Se é feita à nossa medida
Recria nas mãos calosas
Montes de amor e carinho
Só conheceu bem as rosas
Quem se picou num espinho
Vê como fica tão bem
O cardo ao ramo que o tem
O cardo também é flor
Se é tratado com amor
Não é pois vedado amar
Nem é pecado sonhar
Diz às guerras para pararem
Diz aos homens para se amarem
Convida o cardo a sorrir
E a inventar-se para ti
e ri Francisco ri
Porque o sonho e o amor
Viram em ti uma flor.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Recomeçar


A espreitar a vida detrás das árvores.

Como se de grades de uma prisão se tratasse.

Às vezes parece que tudo nos está fora do alcance

Respirar fundo, dar tempo

Recomeçar mais uma vez!

Li algures que a coragem não está em tentar não cair, está em não ficar no chão.

É isso!!!!

Vou procurar as pedras necessárias para reconstruir outra vez a minha muralha.

Em tempos alguém me chamou ostra.

O curioso é que muitas vezes é quando ainda o conhecimento da vida é pouco o instinto de auto-protecção nos dá mecanismos de defesa. Mais tarde descuidamos essa protecção, porque achamos que já não precisamos e...

Tenho saudades dos tempos em que me sentia protegida pela concha.

Mas na falta da dita concha, levanta-se outra muralha.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Montanha Russa


A minha vida tem sido um constante desafio.
Uma Montanha cheia de vales e picos.
Vou dar-lhe um sentido
Um rumo a meu favor
Vou transformar o LIMÃO em Limonada.
E vou vender os ingressos da minha montanha russa

sábado, 25 de abril de 2009

Há viagens inesquecíveis


Faz hoje 14 anos que fiz a viagem que sempre ficará no meu coração. E para sempre a recordarei neste dia.

Não se apressem a interpertar o que me vai na alma.

Até poderá parecer que é uma recordação triste, mas não! e explico!

17 horas de 25 de Abril de 1995. Entrava eu naquela ambulância que tanto atemorizava. Coimbra - Covilhã, 4 horas de viagem pelas Pedras Lavradas. Coube a mim, para defesa emocional da minha mãe, que seguia no carro do meu irmão, acompanhar a ultima viagem do meu pai.

Apesar de já ter falecido, havia apenas hora e meia, conseguimos ainda trazê-lo numa ambulância, conseguimos evitar o terrível carro preto.

Ali estava o meu alicerce, ainda com os tubos de soro.... numa maca normal.

A minha mãe desfeita já no carro do meu irmão, já não chorava, mas se alguém quisesse conhecer o rosto da saudade, bastava olhar para ela. No do meu irmão, estava estampado a revolta de quem foi para medicina para fazer nascer e agora encarava a morte de quem o gerou.

Estavamos apenas os quatro!

Não me deitava há mais de 24 horas, quando na véspera os médicos do hospital da Covilhã numa ultima tentativa, decidiram a transferência para Coimbra, ninguém me arredou dele, nesse momento nem a existência dos meus filhos me impediu.

O Sr. condutor disse-me baixinho antes de entrar, acha que está bem? sabe que não pode ir a chorar, este transporte não se pode fazer... não precisa vir aqui, pode ir com a família.

Eu respondi:

-Há já algum tempo que não faço uma viagem sózinha com o meu pai e esta será a ultima oportunidade.

Ele olhou para mim e apenas foi capaz de me dizer que se precisasse de alguma coisa que estivesse à vontade. Agora imagino o que ele deve ter pensado da minha resposta.

Entrei e olhei para aquele meu amor de sempre. Eu tinha sido a ultima a falar com ele e a vê-lo vivo, já na fase de total entrega.

Correram a porta da ambulância e agora ali estava só eu e ele.

Ele tinha um sorriso no rosto e uma expressão tão serena que o meu coração se encheu de gratidão por a vida me ter dado a oportunidade de fazer com ele e só nós os dois aquele ultimo passeio.

Pensava, e acho que cheguei a sussurrar-lhe baixinho.

- Vê pai, foi consigo que fiz a minha primeira viagem, Figueira da Foz - Covilhã e tinha eu quinze dias, provavelmente pelo mesmo caminho. Hoje aqui vou a acompanhá-lo na sua ultima. Somos os companheiros de sempre.

Hoje, é apenas essa boa memória, a do companheiraço que ele sempre foi que me povoa o coração.

Tenho muitas saudades mas sinto que agora está sempre aqui.....


quarta-feira, 22 de abril de 2009

Conto de ninguém


O dia amanheceu ensolarado, um típico dia de Primavera.
Ao longo do dia as nuvens começaram a juntar-se. Mais tarde, o cinza chumbo pintou o céu e já ao cair da noite chegou aquela brisa morna e abafada que antecede as trovoadas do "quase" Maio, logo de seguida, aquele cheiro doce a terra molhada.
O apelo de olhar a tempestade era-lhe irresistível.
Colou a cara às vidraças da janela, mas não lhe chegava. Abriu a janela e ficou ali com o pensamento a vaguear.
A trovoada de Primavera, agora estava mesmo em cima, e uns a seguir aos outros, os relâmpagos e respectivos trovões, faziam estremecer os vidros da janela a sorrir pensou:
- Ainda bem que não sou uma gaulesa da aldeia do Astérix, senão, acharia que o céu me iria cair na cabeça!!!!
Porque seria que o que tanto intimidava a maioria dos seres vivos lhe provocava aquela serenidade? Talvez, porque apesar de tudo, estava protegida no conforto da sua casa? A sua tia Maria Júlia disse-lhe um dia que nunca se tinha deixado orientalizar, apesar de ter vivido os seus últimos 40 anos num país oriental, mas que tinha aprendido com o povo oriental a não se amargurar com o que não dependia dela ou que ela não podia resolver.
As trovoadas não dependem de nós nem as conseguimos dominar, todos os seres vivos se limitam a procurar abrigo quando ela chega e ficam quietos à espera que ela passe, mais ou menos tranquilos, conforme a sua capacidade de saber que passa ou de se sentirem protegidos.
Procurar abrigo é instintivo, mas quantas vezes nos deliciamos, por exemplo, num banho de mar e de repente vem uma onda que nos enrola e atira contra a areia da praia, deixando-nos desorientados? Que fazemos? Tentamos levantar-nos e procuramos um ponto de orientação
Também assim são as tempestades da vida, as vagas da vida e o cheiro da saudade. E vamos deixar de viver? Não vamos sair nunca dos abrigos? Vamos deixar de sonhar? De ter ilusões e ideais?
Lembrou-se de Quixote
Ridículo aquele Quixote, aos olhos da sociedade.
Sim! Sim!
Mas quantas olham a feia Aldonza de Lorenzo, enciumadas, porque nunca foram a Dulcinea del Toboso, de ninguém, nem mesmo de um alucinado Quixote.
Quantos Chanso Pança se rojam aos pés de Quixotes lunáticos só porque a sua mediocridade não lhes dá a capacidade de largarem o burro e passarem para um cavalo, até mesmo que este seja uma pileca?
Além disso que mal haverá vestir de vez em quando a armadura do Quixote e ir por aí combater gigantes? São apenas velas de um moinho movidas a ventos? Talvez. O vento não se vê mas existe e ainda bem, porque se para uns quando enfola as velas e as fazem rodar e assim moerem o trigo que alimenta; para outros são gigantes que bradam contra ideais e motiva a bravura para os combaterem. Se para uns apenas o usam para dizer amo-te, a outros aquece-lhes a alma porque lho disse.
Não! Não iria nunca achar-se ridícula porque às vezes se permitia ser Quixote, conseguir encontrar o belo no meio do feio, descobrir a coragem para lutar contra gigantes e até de ouvir o vento dizer-lhe “amo-te”, mesmo que depois tivesse que assumir que o feio é feio, os gigantes são velas de moinhos e o vento não fala.
De repente tudo ficou quieto, começaram-se a ouvir os pios de passaritos que cantam à noite e apareceram umas estrelinhas aqui outras acolá tímidas mas cintilantes. Fechou a janela e foi-se aninhar no seu espaço vazio. Vazio, mas era o dela. Vazio, mas cheio de sentimentos e emoções que lhe decoravam a alma e essa não estava vazia!!!!! Achava que finalmente conseguia ficar serena perante o que não dependia dela ou não podia controlar.

A Eterna Companhia...



Era uma vez um homem que não gostava nada da sua sombra e era tão infeliz com os seus próprios passos que resolveu deixá-los para trás. Disse a si mesmo:
- Vou simplesmente fugir deles.
Então, levantou-se e começou a correr!
Mas toda a vez que dava um passo, a sombra seguia-o sem nenhum esforço. Voltou a dizer para si mesmo:
- Preciso correr mais depressa.
Então, correu, correu…
Correu cada vez mais rápido, até cair morto.
Se tivesse simplesmente procurado a sombra de uma árvore, ter-se-ia livrado da sua sombra. Mas ele não pensou nisso.

São poucos os que têm a ideia de simplesmente se sentarem à sombra de uma árvore. Preferem correr de si mesmos, por puro medo de se depararem com a própria sombra e de contemplar os lados menos agradáveis.
Loucos!...
Não percebem que quem corre da sua sombra nunca atinge a tranquilidade.

sábado, 11 de abril de 2009

Lembrando Amélia

Cata-d'obô
«Há um mês durante um serão com uma amiga de S.Tomé, e a propósito das dificuldades do país no âmbito da saúde, a conversa direccionou-se para o recurso ao uso de plantas medicionais para a cura dos «males do corpo e da alma» dos habitantes, com a ajuda da mestria dos terapeutas tradicionais (stlijons) e seus inúmeros conhecimentos ancetrais sobre estas plantas.
Lembrei-me de alguém que recontou a Lenda da Lagoa Amélia»
Tabernaemontana stenosypfon - Cata-d'obô
Colheita: Lagoa Amélia (S.Tomé e Príncipe)
Partes da planta utilizadas: Casca
Uso Tradicional: 1. Hipertensão arterial. 2. Protecção contra feitiçaria. 3. Tratamento de estados febris e de "calor por dentro"
Método de preparação e administração:
1. Como hipotensor pode macerar-se a casca em água ou preparar-se uma infusão, bebendo-se um copo por dia.
2. A casca colocada a macerar numa bebida alcoólica, bebendo-se para dar protecção contra feiticeiros.
3. Para tratamento de febres e de "calor por dentro" pode dar-se a beber uma preparação com a casca misturada com folha de pau-três (Allophyllus afriacanus) maceradas em água fria.
Corologia: Endémica de STP, distribuindo-se amplamente nas florestas de pluvisilvas de S.Tomé e Príncipe entre os 1000 e os 1800m de altitude.
Pesquisa bibliográfica:
Tal como a lenda da Lagoa Amélia...
Apenas foram encontradas referências relativas a espécies aparentadas, visto que se trata de uma espécie endémica, ainda não estudada.....

terça-feira, 24 de março de 2009

Li-me


Li-me

Como ontem previ!

Hoje acordei com um sorriso de orelha a orelha, bem sei que também tenho olheiras até ao nariz, afinal levantei-me às 5.30 da manhã, já fiz 600 Km seguidos, mas com uma paragem a meio para receber e dar AQUELE abraço e gastar em segundos os milhões de beijinhos guardados há tantos meses (mais de 3).

É verdade que continuo com o coração apertado, mas também, não é menos verdade que continuo grata à vida, por poder ter feito e sentido tudo isto e ainda ter tempo para...

Finalmente enterro-me no sofá, com uma chávena de café feito em casa a fumegar.... Como disse continuo com o coração apertado, com as olheiras até ao nariz (é verdade) mas também com um sorriso de orelha a orelha.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ouvir-me!!!!


Porque não escrever o que penso?

Sobre coisas que me vêm à cabeça?

Sobre coisas que me digo a mim mesma para me consolar?

Nem sempre temos próximo de nós quem nós sabemos que nos ouviria e nos consolaria.

E afinal quem melhor que nós mesmos para perceber o que nos vai no coração.

E afinal no coração nem sempre nos vai coisas boas e simpáticas.

E afinal no coração também cabe sofrimento, e nem sempre temos a quem dizer que o coração nos está apertado.

Mas!!!

Sei que amanhã vou sorrir como sempre costumo sorrir, vou achar graça a tudo e a todos e principalmente vou ler-me para me ouvir.

Vou ler o que digo a mim mesma para me consolar quando tenho coisas que me apertam o coração.

Assim falava EU!

«Ainda que eu não queira, na vida não poderei nunca prescindir do sofrimento. O sofrimento é uma realidade que não depende de nós. Torna-se-nos presente, queiramos ou não, e até se faz "encontradiço" connosco quando menos o desejamos. Mas se não podemos evitar o sofrimento, está nas nossas mãos dar-lhe um sentido ou outro, adoptar perante ele uma posição ou outra, sem dúvida muito diferentes uma da outra. Se, ao sofrer, me impacientar e protestar, não consigo nada; só aumento o sofrimento e faço mal a mim mesma. Se ao sofrer, o aceitar, converto a dor em algo positivo, salvadora de mim mesma e dos outros e assim dignificar-me. Vou esforçar-me na tentativa de chegar a compreender que não é possível amar sem sofrer, nem sofrer sem amar»

Será que me consolei?

Amanhã saberei!!!!!!!

sábado, 21 de março de 2009

PAUSA PARA UM CAFÉ (cont)




...

Bem no meio daquele espaço de paredes e tecto de vidros transparentes especiais que deixam ver de dentro para fora mas nunca de fora para dentro, que afinal não era mais que a alma dela, ela viajou pelos caminhos das emoções e dos sentimentos.

-Nunca mais lhe perguntarei «O que tanto procuras...?»

- E porquê?
- Porque sei que encontraste! Tens me dito aos poucos.Talvez, tu ainda não saibas!

Talvez, ela também não lhe saiba explicar, mas ela sabe o que ele procura e principalmente compreende porque procura.

Haverá uma só palavra no dicionário que possa ser usada para explicar?

ESPAÇO
Talvez «espaço» seja a palavra adequada, exactamente no sentido daquela música que fala de "jardins proíbidos", daqueles onde só entra quem a gente quiser.

Quantas vezes também ela suspirou pelo seu espaço? Pelo seu jardim proibido, onde só entrasse quem ela quisesse e principalmente quando e enquanto ela quisesse.

Mas, como tudo, até esta necessidade de espaço, tem o outro lado da moeda. E aquele sentimento de culpa horrível que se tem porque se quer ter um jardim proibido e se acha que estamos a excluir dele pessoas que amamos?
Aí vêm os compromissos passados e presentes que nos enchem as entradas do nosso jardim proíbido.
Aí vem o medo dos compromissos futuros. Se ainda não resolvemos os anteriores vamos arranjar mais?
SOCORRO!!!!! Quero o meu espaço!!!!

Quero um espaço onde possa tirar as máscaras do dia a dia.
Onde possa rir e chorar sem ter de me justificar.
Onde possa fazer amor só porque naquele momento amo.
Onde possa ouvir a música que me apetece mas onde também possa ouvir o silêncio sem ter de explicar porque oiço esta ou aquela música ou porque se está calada.
Onde possa por o sofá amarelo sobre o tapete vermelho, mesmo que seja de um mau gosto aberrante ou então onde apenas haja almofadas no chão para sentar, só porque sim.
Onde faça festas divertidas porque precisamos de amigos.
Onde possa ler o tal livro sem olhar para o relógio.
Onde possa dar pulos, gatinhar ou rebolar sem que olhem para nós com ar de " coitada! endoideceu".
Onde possa espalhar os papéis do trabalho pelo chão sem ter que os apanhar antes de ir embora, porque quando regressarmos estão todos lá onde os deixámos.
Egoista!!!!!!!
Porquê?
Afinal não queremos pôr de parte os outros. Queremos estar lá, junto de quem gostamos, sempre que precisem de nós. Queremos dar o ombro na mesma, queremos rir e chorar com quem faz parte da nossa vida. Queremos estar inseridos no mundo real, no dia a dia.
Apenas queremos «espaço», o nosso espaço, para usarmos quando quisermos e com quem quisermos.
Até porque se os que fazem parte da nossa vida passada, presente e futura nos pedirem para nós compreendermos que também precisam do seu espaço, nós compreendemos e se preciso for, até ajudamos e incentivamos para que o tenham.

No fundo, já que, temos e precisamos de viver a vida com os outros apenas queremos também viver a vida com nós mesmos.

É bom amarmos e sermos amados, mas nesse amor também cabe o amor que sentimos por nós próprios.

quinta-feira, 12 de março de 2009

PAUSA PARA UM CAFÉ


Duas da tarde, tinha acabado de reorganizar a cozinha, onde uma horita antes, entre cantarolices indefinidas e provas directa dos tachos, tinha preparado o almoço para as crias sempre com o espirito ancestral de procriadora.

Deixou-se cair no sofá com um sorriso de quem estava grata à vida e propunha-se iniciar o seu recreio preferido depois de almoço... finalmente o silêncio, que se notava mais depois de finalizada a algazarra de três jovens adultos no auge das carreiras e que lutavam entre si para se contarem uns aos outros as "desgraças" da manhã de trabalho. Eles já tinham saído para completar o dia de obrigações de "semi" adultos.

Uma chávena de café feito em casa a fumegar em cima da mesinha ao lado, na mão, os óculos de ver ao pé e o livro que parecia nunca se conseguir ler até ao fim.

Pega no comando da TV e faz um zapping..... como é possível? Nada de jeito!! Tornou a sorrir de si mesma quando reparou que inconscientemente tinha sintonizado no canal Panda de desenhos animados ( o Cebolinha... há quanto tempo!!! que saudades dos livros que semanalmente lhe era permitido comprar se se portasse bem...O Tio Patinhas, o Zé Carioca, O Professor Pardal, O Bafodeonça, Os Irmãos Metralha...).

Desligou a televisão e procurou um CD. O escolhido foi um de Bossa Nova que lhe tinha sido oferecido pelo filho do meio ( talvez aquele filho que mais sabia sobre o seu gosto musical) e ainda não tinha tido ocasião de o ouvir calmamente.

- Mãe, ouve este CD, sabias que a Bossa Nova resulta do Fox americano misturado com Jazz? A voz dela é um espanto, vais gostar!

- Vamos lá ouvir então! - pensou ela, enquanto se lembrava do que o filho tinha dito e ligava a aparelhagem.

Mais uma vez se deixou cair no sofá, chávena na mão e a suspirar de bem estar, continuava agradecida à vida. Agradecida exactamente do quê? de uma vida fácil? Não! Essa não lhe tem sido fácil ... sempre sózinha na luta diária. Então de quê? Principalmente da serenidade! Da serenidade que conseguiu encontrar no meio dos seus sentimentos e que tanto lhe tem ajudado nas situações dificeis, e que lhe ajuda a valorizar sempre os pequenos «sim» da vida e a desvalorizar os grandes «não».

O pensamento voou e ficou a pairar como um planador por cima dos vales profundos e das montanhas altas do coração.

...

Se tivessemos que materializar os sentimentos, os afectos, como representaria ela, por exemplo, o que sentia por "ele"? Mentalmente pegou na folha de papel, nos pincéis e na paleta de cores, sim! porque, no seu amor não cabia a tristeza nem a sobriedade dos tons cinzas do lápis de carvão tinha de ter todas as cores do arco-iris que não eram mais do que a decomposição da luz que ele lhe trazia ao coração, às faces e principalmente aos olhos.

Aos poucos construíu um imenso «Open Space» em que as paredes e o tecto eram vidros:

Olhando para cima entrava o céu. De dia, umas vezes azul decorado com alguns botões de flores de algodão, lembrando o conforto do calor do sol da Primavera, outras vezes, cinzento com figuras estranhas das personagens dos contos de fantasmas, mas lembrando o conforto do calor de uma lareira acesa de Inverno. De noite, às vezes, um painel de luzes cintilantes, lembrando a alegria despreocupada das crianças brincando, outras vezes, uma cascata de pequenas gotas que juntas se transformam em poderosa corrente que atemoriza, por certo, mas também limpa...... O curioso é que fosse o que fosse a ideia de conforto imperava.

Olhando as paredes. Por uma entrava o mar, umas vezes de um azul turquesa sereno outras de um cinzento esverdeado rebentado na praia, poderoso como o deus neptuno.

Na da frente, entrava a visão de um rio que descia veredas ladeadas de salgueiros e canas, aí apenas mudava a velocidade das águas que desciam, de Inverno rápidas, como se estivessem atrasadas para o encontro, de Verão lânguidas como se regressassem do encontro.

Na do lado direito, entrava uma imensa serra, agreste e poderosa, agressivamente protectora como de uma muralha se tratasse que nos defendia de tudo o resto e de todos, que com pudor nos escondia, imutável, fixa, mas de uma beleza que sufocava.

Na do lado esquerdo uma seara em primeiro plano, umas vezes, verde a cheirar a fresco outras doirada pintalgada de papoilas vermelhas, outras, como quem dá tempo ao tempo para crescer, outras ainda, com as espigas cheias de azáfama por se darem aos insectos barulhentos e às aves inquietas. Ladeia a seara um pomar que enche o ar de perfume doce e generoso, e ao lado, um bosque que fervilha de vidas que apenas se supõem e se sentem sem se ver, camufladas pelo o odor de pinho e eucalípto, desinfectante cheirando a saúde.

....

Toca o telefone, lentamente, ela poisa os pincéis mentais ... faz as manobras necessárias para fazer aterrar o planador mental e olha uma ultima vez o «Open Space» do seu amor.... sim! Tudo o que rodea aquele sentimento estava ali, só faltava decorar o espaço por dentro.

O Homem da sua vida estava representado em cada detalhe de toda aquela paisagem que envolvia aquele espaço, o interior daquele lugar seria representado por todas as sensações que ele, o seu amor, lhe provocava, mas tinha de deixar para mais tarde, a realidade teimava em bater-lhe à porta....

- Sim!!! Olá! Meia hora, daqui a meia hora estou aí... Até já.

Poisa o livro que não chegou a abrir, pega a chávena de café para a deixar na cozinha, vai ao quarto para calçar os sapatos e entra na casa de banho para passar a escova pelo cabelo e retocar a maquilhagem.

Olá mundo!!! Acabou o recreio!!!!


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sábado, 7 de março de 2009

A Ostra


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- Que lata! Então vais perguntar ao empregado se têm ostras?
- Qual foi o mal? podia ter sorte e haver. Acredita que desta vez não ia deixar que outro a comesse! ainda não me disseste porquê!!! ainda por cima, porquê ele!
- Tá! Estava a evitar que tornasses a essa conversa, mas estou a ver que não me safo.
Não te vou dizer porquê, porque não sei dizer-te, principalmente "porquê ele", mas algum porquê haverá... um porquê que dura 28 anos tem de ser um porquê muito forte, não achas? E tu já te perguntaste a ti mesmo o que aconteceu? O teu problema é ter sido ele? Ou é o facto de eu não ter ido atrás de ti?
- Ostra, outra vez!!!!
- Não! Vou tentar explicar-te ou melhor lembrar-te os factos. Como disseste, sou uma ostra no teu imaginário, mas estás a esquecer-te dos factos, deixa lá o imaginário.
- Ele dizia-te como ficas bonita quando falas a sério?
- Dizia! Mas, por norma, não gostava de ouvir o que eu lhe dizia quando lhe falava a sério!
No fim desse famoso verão do passeio de mota, vieste para a faculdade. Para mim eras o meu namorado, na altura era piroso pedir namoro e era ridículo ser pedida em namoro, mas quando no dia dos teus anos, Agosto, 18 não é?
- Ainda te lembras?
- Claro! Mas continuando... estávamos de férias na praia... eu numa casa alugada à época e tu no Grande Hotel da Figueira. A tua mãe, foi de propósito à nossa casa convidar o meu irmão e a mim para irmos jantar com vocês ao hotel no dia do teus anos. Lembro-me da cara de cumplicidade da tua mãe quando disse à minha que tu fazias questão de convidar o meu irmão, o que era natural! eram amigos de infância, mas também de me convidar e que não podiamos deixar de ir porque éramos os únicos convidados que ele queria na festa dos seus 18 anos e que tinha insistido muito para ela pedir para eu ir. A tua mãe tinha ido pessoalmente e de propósito a minha casa para me convidar, desde esse dia, à boca pequena, claro! para as nossas familias passámos a namorar, e mais, com a benção! Afinal as familias eram amigas de longa data.
- Pois foi, o meu pai, quando lhes disse que queria que só fossem vocês à festa dos meus 18 anos, piscou-me o olho e disse-me que ainda na véspera tinha dito à minha mãe que tu estavas uma linda rapariga.
- Parecemos uns velhos, a lembrar tempos! Mas como dizia! Para mim passaste a ser o meu namorado oficialmente, por isso, não entendi como foi possível que por teres ido para a Faculdade, durante meses, de Setembro até ao natal, ter sido só o teu silêncio que reinou. Verdade? Agora sou eu que te pergunto, era assim que guardavas tesouros?
- Mas tu também nunca me disseste mais nada, sempre que estava com o teu irmão esperava que ele trouxesse algum recado teu e sempre que ia de fim de semana passava vezes sem conta à tua porta e no café onde toda a malta se encontrava, na esperança de te ver. Uma vez a tua amiga São, lembraste dela? disse-me que lhe tinhas dito que nos fins de semana não punhas os pés no café porque não querias correr o risco de te encontrares comigo.
- Não me lembro se disse isso, mas é natural, se em alguma coisa fui coerente durante a minha vida foi o facto de nunca disputar homens, não o fiz contigo, não o fiz com ele que é o pai dos meus filhos e não o faço agora. Disputa-se o que nos pertence mas pessoas não pertecem a ninguém além de si mesmas. Para haver uma relação são precisas duas pessoas e duas pessoas a quererem.
Nesse Outubro entrei para o Liceu vinda do colégio e como sempre, miúda nova no pedaço fazia sucesso, nem era preciso ser uma estampa, e ele e o irmão tinham chegado de outra cidade para frequentar o Instituto Politécnico, outra novidade que também fez sucesso.
- E não podias ter-me contado? imaginas o que senti quando nas férias do natal me disseram que o namoravas?
- Imagino. Para a tua mãe ter ligado à minha a dizer que estavas muito triste porque eu tinha outro namorado, imagino a fita que fizeste e como menino de mamã que eras puseste a familia em alvoroço de certeza!!!
- Imaginas o que senti quando me disseram que tinhas casado? Nem queria acreditar! Assim de repente, casada!
- Assim de repente? eu namorei-o quase três anos.
- Mas tu só tinhas 18 quando casaste, nunca pus a hipotése de não ser comigo, faltavam só mais dois anos para acabar o curso de medicina, eu ia ter contigo.
- Mas tu nunca me disseste. Moral da história, nunca ignores a mágoa e a humilhação que um silêncio pode provocar. Ninguém consegue saber o que pensamos se não o dizemos, são grandes os riscos que se correm quando deixamos que interpretem os nossos silêncios, sabes? Até podem ser silêncios de meditação, de preparação do futuro, mas silêncio não explicado humilha, magoa e principalmente é mais desumano do que um não, não dá espaço ao outro para fazer o luto desse não, porque deixa sempre algo em aberto.
Pois é lindo, como se diz, quem foi ao ar perdeu o lugar e tu deixaste ocupar o lugar, pacificamente, ele apenas se limitou a existir, nada mais!
Tenho de ir, já passa das três e ainda levo algum tempo a chegar. Espero não apanhar trânsito.
- Vejo-te outra vez?
- Se me procurares.
- Tens um jantar comigo prometido ou achas que me ia esquecer? até porque esse teu discurso todo tem resposta.
- Se eu quiser ouvir!!!!


- OSTRA!!!!!!!!!!
- Beijo

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Ostra


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A conversa decorreu animada entre os dois, e desta vez da frente para trás. Ela estava admirada com o que ele sabia do seu percurso de vida, mas afinal, visto à distância era fácilmente explicável assim ser, tinha sido ele a sair da terra e o mais natural seria sempre que ele se encontrasse com alguém da terra perguntasse pelas recordações, pelos amigos e tinham tantos amigos de infância e de liceu em comum.
Chegou a hora de almoçar
- Como é? Onde almoçamos? Almoças comigo não?
- Estava apenas a contar em tomar só um café contigo antes de almoço, não avisei os meus amigos que não almoçava em casa com eles, apesar de isso não ser nenhum problema, mas tenho uma reunião marcada para as três e meia.
- Telefona a avisá-los e almoçamos por aqui perto. Tenho mais um capacete na mota, vens comigo demoramos menos tempo a chegar do que se formos de carro, às três estamos despachados.
- De mota? Nem morta!!! No meio deste trânsito?
- Não acredito! Ainda tens medo de andar de mota? A única vez que consegui convencer-te a dares um passeio de mota comigo fiquei todo marcado na cintura com os beliscos que me deste e tive de parar várias vezes, sempre que fazia uma curva tu inclinavas-te para o lado contrário.
- Pois! E ainda por cima fiquei de castigo, porque o meu querido irmão, para gozar comigo, sim! porque tu fizeste questão de contar a todos que eu tinha medo de andar de mota, resolveu contar aos meus pais que eu tinha medo de andar de mota e que te tinha esgadanhado todo. A minha mãe não achou graça nenhuma nem de eu ter andado de mota e muito menos de ter sido contigo. Tens muita fome?
- Não, porquê?
- Então proponho que comamos uma tosta ou qualquer coisa do género aqui mesmo, está a saber-me bem estar perto do mar com este solinho.
- Continuas a gostar do mar exactamente na proporção inversa do teu gosto em andar de mota está visto. Desde que me prometas que um dia destes vens jantar comigo, aceito.
A propósito do célebre passeio de mota, a conversa virou-se outra vez para os 15 anos dela (18 dele).
- Numa das vezes que parei para te pedir que não inclinasses o corpo para o lado contrário da curva estavas tão assustada que pensei que ias chorar, mas não! saltaste da mota e aos gritos disseste que se eu tornasse a andar com velocidade exigias que eu parasse e levavas tu a mota. Tu que morrias de medo de andar de mota!!! impunhas ser tu a levá-la! quando me pus a rir, ficaste tão furiosa, ameaçaste que regressavas a pé... estávamos no meio da serra lembras? tu viraste-me as costas e puseste-te a andar estrada fora, tive de correr atrás de ti e quando te agarrei para te acalmar tentei dar-te um beijo, ainda hoje me dá vontade de rir quando me lembro da tua cara de zangada e do empurrão que me deste, mas o melhor foi quando me disseste que só não me davas um estalo porque não batias em homens mas que se não te levasse imediatamente para baixo te esquecias que era homem e que me davas mesmo.
- Lembro, exactamente porque não tive prazer em andar de mota me custou tanto o castigo, por norma quando era castigada pelas asneiras que fazia mas que me tinham dado prazer em fazer, pensava sempre "perdoo o mal que me fazes pelo bem que me sabes" e mais, é segredo, mas estava mesmo com vontade de chorar, mas como em mim tudo é ao contrário, achava que "mulher nunca chora" e acredita que se tivesses insistido em me agarrar e beijar levavas mesmo.
- Ostra!!
Ele ia abrir outra vez as gavetas das memórias arquivadas dela e o mal não era abri-las era a desarrumação, era o tornar a baralhar.
- Não, não vou deixar! - pensou ela - Ainda tenho tanto para arquivar quanto mais desarrumar o que está arrumado, não! bem ou mal, para mim o teu processo está fechado e arquivado, tenho outros por arrumar, tenho outras histórias por resolver.
Ela levantou o braço e chamou o empregado
- Vamos saber o que podemos comer por aqui?



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A Ostra


Encontraram-se numa esplanada de um bar de praia, numa sexta-feira, num fim de manhã, quase hora de almoço, num dia ensolarado de inverno.
Ela já lá estava com um café à frente, cabeça para trás, para receber o calor do sol, de olhos fechados e cabeça vazia, por opção.... não lhe apetecia pensar? ou não sabia o que pensar?
Perto e de repente soou um ronco de mota potente a estacionar, motas nunca a deixaram confortável (vá se lá saber porquê). O som fê-la abrir os olhos, era vermelha e o tamanho correspondia ao ronco.
Escondida por detrás dos óculos escuros, com a mesma sensação que o gato escondido com o rabo de fora devia ter, ficou a olhar a mota enquanto o dono saia dela.
Lentamente com ar de quem procurava ele levantou o descanso da mota com o pé e ainda com o capacete olhou para ela.
Caminhou em direcção a ela, com a insegurança de quem não tinha a certeza, e só quando chegou tirou o capacete.
Ela tirou os óculos e ficou a olhar para aquela pessoa que lhe tinha acabado de tapar o sol.
Ele abriu os braços e quase entre dentes disse-lhe:
- Se dúvidas tivesse, esses olhos são inesquecíveis!
Pegou na mão dela e levantando-a abraçou-a. Como um filme em câmara lenta, ficaram ali a balançarem-se com o capacete a fazer de pêndulo. Ela nada podia dizer porque ele repetia-lhe ao ouvido, vezes sem conta, como de um lamento se tratasse:
- Ostra! A minha ostra!!! Ostrinha!!!!!
Quando finalmente ele parou de lhe chamar ostra, ela afastou-o carinhosamente e olhando-o nos olhos riu e disse:
- OSTRA? Ainda bem que não te lembrei uma foca!!!!!!!
- Só tu ostrinha! Continuas com as tuas saídas estratégicas. É bom sinal, afinal ainda te reconheço nesse sentido de humor e nesses olhos que falam sempre mais que a tua boca, afinal ainda aí está tudo.
Entre gargalhadas, como miúdos de escola, sentaram-se, ele explicou:
- Durante todos estes anos, no meu imaginário tu foste a minha ostra...
- Ostra?????
- Sim! Os teus olhos eram o mar e tu uma concha com uma pérola linda dentro dela, assim que te tocava fechavas-te como uma ostra! Lembras? parece que te estou a ouvir, quando te abraçava e tu me dizias - Olha quem lá vem! é mentira! era só para tirares o braço! e depois rias que nem uma tonta. Eras o meu tesouro, que guardei, para nada! porque veio um bruto de um pirata que mo roubou! porquê? porque não te fechaste como fazias comigo? porque deixaste que ele .... se soubesses como me senti quando me disseram que tinhas casado... mas hoje vais dizer-me porquê? Depois só te tornei a ver no casamento do teu irmão, tu já com dois filhos pequenos e a única vez que trocámos o olhar havia uma tristeza nos teus olhos, que só me apeteceu perguntar-te ali mesmo porquê!!!!! tu nem me falaste... eu já não gostava dele mas passei a odiá-lo ... O estúpido em vez de ter feito uma joia com a pérola que me roubou, tinha escavacado a minha concha e ainda olhava para mim de lado com ar de vitória.
Ele tinha-lhe pegado na mão e esperava uma resposta que ela não tinha de momento
- Ok! Hora de saída estratégica - Pensou ela!!!!
- Bom dia também para ti! Olá! Como estás! Estás com bom aspecto. Que tens feito? Como se diz isto em linguagem de ostra?
Seguiram-se mais uma série de gargalhadas, ele chamou o empregado e pediu uma bica....

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segunda-feira, 2 de março de 2009

Amélia S. Tomé (IV)


Francisco aprendeu as primeiras letras com o feitor, na cartilha maternal. Onde as sílabas tinham cores diferentes, para se saber que as palavras, que podem fazer chorar ou fazer rir, são somas de nadas que não dizem nada – as sílabas.

Não aprendia depressa nem devagar, aprendia assim-assim. Enquanto num canto, Amélia não perdia nada e já sabia de cor “batem leve levemente, como quem chama por mim…”, e vinham-lhe as lágrimas aos olhos, enquanto Francisco ia transpirando ferrugento “mas às crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor?”.

Só não sabia o que era a neve e o Francisco ainda não tinha perguntado ao feitor, mesmo quando pela décima vez se ia enganando “Fui ver. A leve caía do azul-cinzento do céu…”. Neve Francisco! Neve, emendava o feitor.

Neve pai. E o Francisco não perguntava da neve!

Uma vez perguntou ao Francisco, nas brincadeiras do quintal, sabes o que é a neve? Qual neve? A do batem leve. Não sei, mas não há em S. Tomé!
Perguntou ao feitor. Tio o que é a neve? E o feitor perdia os olhos no mar, a neve …a neve …
Ficou a saber que não havia em S. Tomé. Talvez houvesse longe, onde o céu abraça o mar. Onde se perdiam os olhos do feitor.

Depois veio a escola, na Cidade. E todas as manhãs ela e o Francisco num cavalo e o homem que trabalhava na pedra das calçadas, sempre calado, noutro. Que não havia assim perigo nenhum.

Tinha Amélia treze anos quando a senhora mandou que fosse só o Francisco. Depois dela saber da mãe e do lenço vermelho-sangue.

Francisco já ia sozinho à escola. Umas vezes de verdade, outras de mentira, nas tropelias da idade e de filho de feitor, com as filhas tenras da sanzala…

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Vida

Muitas vezes perguntamos a nós mesmos o que é a vida, e preocupa-nos o saber para que é a vida.
Porque é muito triste estar numa sala de espera sem esperar nada. Viver porque se tem vida, mas sem fazer nada na vida, sem esperar nada da vida, sem dar um sentido à vida.
Uma vida inútil é uma morte prematura.
Quero viver de tal maneira que, quando morrer, não tenha vergonha de ter vivido, antes pelo contrário, que me sinta satisfeita de ter vivido e de ter vivido como vivi.
A vida não é prazer, a vida não é comodidade, a vida não é diversão, a vida não é turismo, a vida não é dinheiro, a vida não é conforto. A vida tem tudo isso, mas a vida não é isso.
A vida também não é dor, a vida não é lágrimas e pranto, a vida não é sofrimento e amargura, a vida não é problemas e angústicas. A vida tem tudo isso, mas a vida também não é exactamente isso.
A vida é cumprir, dar-se, ter uma missão, contribuir para o bem estar nosso e dos outros.
Isto é viver.
Não sei se consegui, pintainhos, mas foi sempre isto que tentei dizer-vos, sempre que ralhava com vôces e sempre que vos beijava e mimava.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Eu não sou de ninguém



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Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser
Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;
Nos olhos de água clara há-de trazer
As fúlgidas pupilas dos videntes

Há-de ser seiva no botão repleto,
Voz no murmúrio do pequeno insecto,
Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...

Há-de ser Outro e Outro num momento!
Força viva, brutal, em movimento,
Astro arrastando catadupas de astros!


Florbela Espanca


sábado, 24 de janeiro de 2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

carta a um passado


Tantos Anos!!!!! E de repente notícias tuas
Tinha de te responder



- - - - (que interessa o nome?)
Li, vi e ouvi
O que posso responder ao fim de tantos anos?
Certamente o mais sensato seria dizer que tens razão e não dizer mais nada...
Mas, quando a meio da música, que me enviaste, senti os olhos a ficarem meios enevoados, parei e recuei no tempo. Curiosamente de uma forma egoísta, pensei só em mim.
Concluí:
1º Nunca tive a noção exacta de como na altura era bonita como dizes, sempre me achei vulgar e até para o gordinho e meio feiosa
2º Até aos meus 30 anos, carreguei uma culpa inexplicável, difícil de outro alguém a entender e sempre achei que era infeliz porque tinha “posto o pé na poça” e tinha de pagar por isso
3º O ---- ----- (também não interessa o nome), que conheceste, gostava de mim e talvez ainda goste, mas da forma mais doentia e egoísta que alguém pode amar. Ele sabia que eu era demais para ele e com medo de me perder não só me diminuía publicamente quando podia, mas também, tentou sempre fazer com que eu pensasse que eu não merecia mais
4º Este mau sentimento foi perfeitamente abafado e suportável pelas minhas três maternidades que me preencheram e continuam a preencher todo o desamor que sentia por mim mesma (na altura)
5º Azar dos Távoras (o tal ---- -----), apesar de tudo, e sei que perfeita não sou, mas, Deus dotou-me de alguma inteligência
6º A partir do momento em que achei que merecia mais, fui construindo aos poucos as bases do meu futuro onde apenas eu e os meus filhos cabíamos, tinha descoberto à minha custa que não podia depender de forma nenhuma (emocional, sentimental, financeiramente. etc.etc.) de outro ou outros
7º Então subi a minha escada degrau a degrau, silenciosamente e sem deixar que dessem conta, para que não me atrapalhassem os planos que desenhei para mim mesma
8º Agora já para o “maduro”, encontrei a serenidade, a solidez mental, a noção dos meus defeitos mas também das minhas qualidades
9º Isso faz com que..... Goste muito de mim mesma...... Não me amargure com o passado, porque não o posso alterar, do passado, apenas me lembro das coisas boas e tenho saudades que me fazem sorrir.... Preocupo-me com o futuro q.b., melhor, tento preparar o futuro...... MAS ESPECIALMENTE quero viver e vivo o "Agora" da forma melhor que puder e sempre a tentar não magoar ninguém, porque sei o que é ser muito magoada.
10º Adoro rir, sorrir, desafinar no duche, fazer festinhas no gato, no cão........ Dar beijinhos a tudo e todos, como quando me conheceste
11ºAdoro e tenho orgulho de ser mulher
12º Tínhamos tudo para termos sido felizes!!!!! Tens a certeza? Eu não!!!
13º Que gostavas muito de mim!!!! Na altura não soubeste dizer-me
14º Que gostava de ti???? Acho que sim, talvez como a “cinderela” da música do Carlos Paião (aliás, médico como tu…. Será defeito dos médicos lembrar as primeiras namoradas ao fim de quase 40 anos?)
15º Hoje sei que gosto tanto de ti como quando tinha 14 anos

E FINALMENTE sei que sou uma mulher de 52 anos “BOA”, BONITA, INTELIGENTE mas que não preciso de o publicitar, basta-me ser só eu a saber!!!!

Assim sendo!!!!!!!
Meu primeiro amor
Vamos às Maurícias um dia destes e vamos dançar juntos a música que me mandaste, porque não?
Beijo desta tua tonta primeira paixão (tonta mas queridita)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

OS TEUS ANOS



OS TEUS ANOS
Era o dia dos teus anos
Tinhas nos lábios sorrisos longos
Advinhavam-se os planos
Dos teus sonhos.
Veio então o bolo e as velas
Para que tu as apagasses
Fechei a luz das janelas
Para que as iluminasses
Acendeste-as encantado.
E não te deixei soprar
Que os anos do meu amado
São todos para atear
Olhaste então para mim
E eu li nos olhos teus
Que me dizias que sim
Que os teus anos eram meus

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O caminho do vento


Pois.
É o mesmo vento que virou a barca e que levou raso o chão.
Que partiu o carvalho mas só afagou a erva.
É o vento que levantou a saia a uma mulher, e a outra, e a outra... Que as fez rir e não fez mais nada.
Que deixou suspenso um murmúrio: quiz dizer tudo mas não disse nada
É o vento sem norte e sem sorte.
Que começa aqui e nunca chega a lado nenhum. Teima em passar. Ou não fosse vento.
E não é um só.
São ventos.
Quando o sabemos, já não é o mesmo!
Quando é uma brisa - aquele alívio em dias de calor - já foi um vórtice.
E vai ser uma espera para a vela no mar...
Só nos diz, em sussurro, aquilo que queremos ouvir.Quando queremos que repita - não diz nada!
Só se dá bem no espaço.
Faz das nuvens algodão, acolhe a águia e a gaivota,mas não se agarra.
Esfuma-se em ar!
Isto para concluir que a voz que disse "amo-te" no conto de Tchekov, não era a voz do vento. Era de um russo sujo e a soprar a vodka.
O vento, esse conheço eu bem.
Nunca diz nada a ninguém.
NG - 12/07/2004

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Retrospectiva


Este ano que passou foi um ano apaixonante para mim, senti finalmente que a minha liberdade não era só no papel, eu era mesmo dona dos meus sentidos, sentimentos, acções e que me podia apaixonar, chorar, fazer o pino que ninguém tinha mesmo nada a ver com isso.

Apaixonei-me, senti que o meu coração estava vivo e desenterrado da escuridão da prisão em que vivia.

Apaixonei-me, senti vibrar todo o meu ser quando um sinal era emitido e descobri que o meu coração estava mais vivo e palpitante que um tambor.

Apaixonei-me e ... sofri quando percebi que o que me fazia vibrar eras tu e não podias ser, bolas, onde te foste meter coração ...

Ai sim, encontrei um coração que também palpitava como o meu, que também se entregava como eu, foi aí que eu percebi que o meu estava apaixonado e que precisava de um colete de forças para o segurar, o teu não sei, nunca me disseste o que lhe fizeste!

Com alguma dificuldade lá encontrei um colete e o segurei para não cair ,mas ele palpita sempre que te falo e palpitou mais hoje que te tive perto de mim. Bolas como estás cada vez mais bonito e charmoso! Mas não sofro, já não, pois os corações não tem dono que não sejamos nós próprios, são pássaros livres e assim devem permanecer.

O meu tem asas que já lhas vi, são brancas como as dos anjos e ele aí está pronto para voar, cada batedela no voo faz outros como ele, olhar, tantos eles são os que já perceberam que são livres para voar e amar.

Quando me cruzo com corações aprisionados vejo logo nos seus olhos. São olhares tristes de quem nem sonha em voar!

O POEMA QUE NÃO LESTE

Porque
o mundo não se afogou
com as lágrimas que derramei
nem a poesia morreu
quando degolei o poema
Agora
escondo-me entre as letras
antes de qualquer ponto final
num refugio desprendido
para assim poder ser
o apêndice do poema degolado
Porque
do poema que não leste
ficaram tatuadas na minha mão
letras de sangue
com elas pintei os lábios
Agora
escondida entre as palavras
com as rimas desenho sorrisos
e com o ponto final faço recticências

Ana (Dez.08)

domingo, 4 de janeiro de 2009

OLHO O NOSSO MAR

OLHO O NOSSO MAR

Olho a nossa praia, olho profundamente, continuo a olhar e sinto que tudo foi um pouco mais forte do que aquilo que não disse.

Na imensidão, no longo mar, o céu afunilou,salpicando a lua e desenhando na água a mensagem que deixei para ti.
E agora junto ao mar,aqui estou ...confio-lhe os meus segredos transformados em sonhos.
E são os meus sonhos que me tornam aquilo que sou…


De todo o lado ou de lado nenhum, fico sem ficar, escrevo sem escrever, penso sem pensar e vou indo sem ir porque nunca hei-de chegar...

Vou… Apenas fica a saudade do que não vivi
Não sou daqui, apenas celebro a passagem que é breve, essa que a tua consciência ainda não absorveu.

Sabes,passeamos no tempo e o que resta é tão pouco, os sabores apenas sustentam fatias de permanência.

Sinto-me entardecer no ladeamento dos sentidos,e hoje ao olhar este mar sei que mexeste no destino ,me mudaste a sorte,mas o mar azul ainda toma a minha alma e ainda continua a guardar os meus segredos.

E as ondas ao rebentarem será que sentem?
E que importa sentir se o sentir já não faz sentido!
Olha, eu já me esqueci de dizer essas coisas, porque não adianta sentir sem fazer sentido...

Sei que um dia quando me despedir do sol e do vento levarei os meus segredos,aqueles que falam de ti e que um dia desenhei neste mesmo mar.A sorte é que quem já morreu não sabe dizer o que ficou como segredo, esses segredos pertencem aos deuses e ao mar que os sabe tão bem guardar...

E agora depois da hora se ter tornado outra hora ,vou voltar para casa e deixar que as ondas deste mar rebolem nos segredos que lhe confiei...

Ana