
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Á PROCURA DO TALENTO PERDIDO

domingo, 24 de agosto de 2008
A Matemática da Coisa
Todos temos em tudo de fazer intervalos. Para pensar, para descansar, seja para o que for, e eu, este vosso criado, depois daquela excelente prestação, de resto comentada até no estrangeiro, que é donde vem quase tudo o que é respeitável e respeitado. Depois daquela prestação, dizia eu, a contar o Bolero e a tratar, como devem ser tratadas, todas aquelas excelentes companhias, fui descansar! Que até os deuses descansam, mesmo depois de fazerem asneiras!E dei comigo a lembrar-me de coisas antigas, dos amigos que se deixaram de ver e coisas assim. Veio-me à mente uma história contada por um amigo, que já deixei de ver, e que acabava assim:
«…e, aos gritos de "carne! " possuiu-a quarenta e nove vezes!»
Era um bom contador de histórias, que é uma tradição que se foi, mas que não devia ter ido!
Mas vamos à matemática da coisa.
De facto se se dissesse que o fulano (presumo que tenha sido um fulano qualquer) a tivesse possuído, mesmo sem gritar coisa nenhuma, cinquenta vezes, via-se logo que era impossível.
Era um número muito certo, a convidar que se dissesse, cerca de cinquenta vezes, o que tornava a coisa ainda menos credível. Teriam sido só quarenta? Ou apenas trinta? Ou mesmo a miséria de vinte? E então para que tinham sido os gritos de "carne!"?. Para um estômago assim chegaria então um frango. Ou mesmo só uma canjita.
Se a frase tivesse sido outra: «…e, aos gritos de "carne! " possuiu-a meia centena de vezes!», era ainda pior!
Era como se se dissesse: andou por lá um ror de tempo, que dava para umas cinquenta vezes, mas não se sabe ao certo se só gritou ou se fez mais alguma coisa. Lá se ia o impacto do final da história.
Mas há mais. Há ainda as pequenas variações que fazem toda a diferença (um dia vos falarei da história da borboleta e do tufão). Eu acho que o mais certo era a história do meu amigo ter acabado assim:
«…e, aos gritos de "carne! " possuiu-as quarenta e nove vezes!»
Fazia toda a diferença. Era igualmente improvável mas havia um sentido distributivo. Como nos impostos!
Haveria mais gente a ouvir os gritos de "carne!" e mais gente, provavelmente, a dizer: então moço? É só gritos? Olha que isto não é um jogo de futebol.
O Mandarim
O autor não devia sonhar vir a ser lido em computador como também estava longe de pensar que este vosso criado lhe fizesse uma critica literária. Enganou-se, nas duas coisas.
Antes de tudo, queria dizer-vos que, nesta versão, o choque da tecnologia foi tão grande que o autor já não tem monóculo! Já fez operação ao olho aqui na clínica ao lado e perderam-se alguns interesses. Por exemplo, o que ele dizia quando deixava cair aquela coisada na sopa ou no café. Embora no café fosse mais raro.
Os amigos lá do café até diziam quando estavam mais para a chalaça, "vê se acertas na chávena" e ele na maioria das vezes lá tentava e além da coisa tilintar no pires, por não ter entrado na chávena, ainda respingava para o colete. E era um desvario porque era tudo roupa que ele trazia de Paris e … já nem lavadeiras este pais tinha de jeito, como ele dizia.
Pois a história do Mandarim está muito bem contada mas eu cá não acho que tenha moral nenhuma. De facto a história é simples: a um amanuense qualquer, sem eira nem beira, mas invejoso dos que têm eiras e beirais, apareceu o diabo e disse que tocasse a campainha que ele, por acaso, tinha na mesa de cabeceira, porque era depois-do-almoço e estava a fazer uma sesta. Que se tocasse a campainha morria um mandarim na China e ele, o amanuense, herdava todos os cabedais do chinês que até era muito rico.
Diz-se que o homem ainda hesitou, por umas divagações morais, que matar o coitado do mandarim, que nem sequer conhecia o homem e que se calhar tinha família e era boa gente etc., Cá para mim, de traste que era, devia estar a pensar que o bom era herdar a massita e que o mandarim ficasse vivo. Mas era só para o chinês assistir à maneira devassa como o minhoto (que era minhoto o fulano, embora sem culpa, sem culpa do Minho claro), lhe estoirava as posses reunidas com tanto esforço dos servos (claro), em prostíbulos e vinho verde.
Lá tocou a campainha e lá herdou a fortuna. A consciência é que lhe pesou tanto - diz a história - que, para além de tentar devolver à família do falecido o resto que não conseguiu gastar, passou o tempo quase todo a arrepender-se, ou pelo menos a arrepender-se durante os intervalos entre as casas de meninas que frequentava todos os dias. Que as meninas também têm casa e ainda bem, há coisas que se não podem constipar porque fica, por isso, um homem diminuído.
A história está bem contada, como já disse, mas o título é que não devia ser aquele, devia ser em vez de "O Mandarim", "O camelo". E assim já se sabia que não havia moral a tirar, porque de camelo não virão nunca tais prejuízos.
Mas que o autor nos vai entretendo vai. Aproveita as aventuras do estoira-vergas para falar no que tinha feito e no que gostava de fazer. E eram só seios como a neve e colos perfumados. Só Borgonhas e Champanhes. E cetins. E sedas.
Até pôs o pobre do amanuense num jardim em Pequim enrolado com a mulher de um embaixador de Leste ou melhor, de Oeste, porque para a china os russos são do ocidente. E enquanto se refastelavam numa espécie de divã, ela olhava para o tecto onde estavam escritos em chinês os deveres de uma esposa.
Porque o camelo vai à China procurar a viúva do Mandarim para lhe devolver uns dinheiros. Claro que nem encontra a viúva, nem devolve o dinheiro porque senão já tinha razão para se começar a arrepender. Volta a Lisboa e, de tanto arrependimento, resolve não mexer no dinheiro do banco, voltar a trabalhar e voltar para a casa de hóspedes onde o diabo o fora no princípio encontrar.
Esta parte toda a gente conhece bem porque não é história, é um lugar comum (um lugar onde todos já estivemos portanto). No emprego começou a ser tratado abaixo de cão. Que vergasse a mola pois então. Que a fidalguia era de nascença. Que não fosse desgovernado. Que quanto mais alto se sobe de mais alto se tomba.
Enfim, fizeram-lhe a vida tão negra (aqui até eu tenho pena do camelo) que o homem, num brio disse: que se lixe! E voltou à vida de endinheirado, embora triste.
Morreu como viveu: parvo (que quer dizer poucochinho)! E deixou a herança que lhe restou ao Diabo, que dela não precisava, pois tem de graça, aquilo atrás do que corremos a vida inteira.
Acaba a história com a moral que eu já vi por aí escrita em comentários. Mas isso não é importante.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Contos A Pimenta dos ...

adaptação, "Equador" de Miguel Sousa Tavares
A minha sintonia tinha ficado naquela sensação de prazer e ... o sonho e a fantasia levaram-me a imaginar que estava no Equador, numa praia deserta.
“Eu era Ann ... estava sentada a dez passos, exactamente onde Luís Bernardo tinha deixado a roupa e mergulhara nas águas límpidas completamente nu.
Desatei-me a rir, como uma menina que tivesse acabado de fazer uma asneira.
(...)
- Vai-me passar a roupa? – perguntou ele, aguardando a resposta ansiosamente
- Pelo contrário: diga-me, como é que está a água?
- A água? Está óptima, está quente.
(...)
Resolvi pô-lo à prova, fui despindo o que trazia vestido até ficar completamente nua e comecei a caminhar em direcção à água.
Ele olhava-me com os seus olhos grandes e escuros procurando adivinhar o que eu iria fazer de seguida.
Finalmente levantou-se da água e recebeu-me de pé encostando o seu corpo ao meu, senti o meu peito encostado, espalmado contra o seu, as nossas coxas fundirem-se, a minha boca, sôfrega, mergulhar na dele ficando assim como que entranhados um no outro.
Soltei-me e mergulhei na água tépida e ele seguiu-me. Eu queria que ele ficasse louco de desejo e deixei que me alcançasse ali, debaixo de água, rodopiando, colados um ao outro e o mar a acariciar-nos os corpos nus.
Emergimos da água de joelhos na areia, ele puxou-me contra si e voltou a procurar a minha boca que agora tinha uma mistura de sabor de mel e sal, senti a textura da sua língua que percorria a minha sem pudor.
Foi então que me puxou para fora de água me dobrou pela cintura junto á areia molhada e me fez cair de costas no chão.
Esmagavam-se os nossos corpos como animais no cio, entregues pelo mar à areia da praia, para que consumíssemos o desejo.
Ele deslizou as mãos pelos meus peitos, e eu senti o prazer do contacto dos seus dedos a aflorarem os bicos duros de excitação.
A minha mão procurou o seu sexo, segurando-o com força, deslocando-o na minha barriga e, arqueando-me ligeiramente abri as pernas e encaminhei-o para dentro de mim.
A entrega completou-se, começou por entrar em mim, primeiro devagar, como quem quer conhecer, encontrou-me molhada de algo mais que não fosse o mar, e, com um suspiro quase inaudível, entrou fundo, tão fundo que sentimos a terra girar sobre as nossas cabeças e o chão de areia a tremer como o meu corpo.”
Não queria acordar deste sonho mas só morrendo ficaria para sempre mergulhada na minha fantasia ...
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Out Of África...
A noite passada sonhei que estava dentro deste filme e andei por aquelas paragens à procura...
Não sei de quê, não cheguei a descobrir.
Acordei entretanto sem ter encontrado, possivelmente andava à procura dele, para o avisar de que não deveria voar naquele dia, eu queria um final feliz...
"O amor entre jovens é uma coisa impiedosa! Nessa idade, bebemos de sede, ou para nos embriagarmos, só mais tarde nos ocupamos com a individualidade do nosso vinho..."
Este filme, realizado por Sydney Pollack é baseado na obra de carácter biográfico de Karen Blixten [1885-1962] escritora dinamarquesa, e é um filme lindíssimo!
Robert Redford e Meryl Streep protagonizam esta história de amor e perda de forma magistral!
Deixo aqui um "cheirinho" para os que já viram e gostaram, recordarem, para os que não viram, verem!
AHA
Nux@'s post
terça-feira, 19 de agosto de 2008
O Segredo da amizade
O Principezinho de Antoine de Saint-Exupéry
“-Quem és tu? - Perguntou a principezinho - És bem linda…
- Sou uma raposa - disse a raposa.-Vem brincar comigo - disse o principezinho - Estou tão triste…
-Não posso brincar contigo - disse a raposa - Ainda ninguém me cativou.
…
- O que quer dizer «cativar»?
…
- É uma coisa muito esquecida - disse a raposa - Significa «criar laços…».
- Criar laços?
- Começo a compreender - disse o principezinho - Há uma flor… creio que ela me cativou…
… se me cativares a minha vida ficará como que iluminada pelo sol. Conhecerei um ruído de passos que será diferente de todos os outros. Os outros passos fazem-me meter debaixo da terra. Os teus, chamar-me-ão para fora da toca como uma música. E além disso, olha! Vês, além, os campos de trigo? Não me alimento de pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me dizem nada. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado! O trigo, que é dourado, far-me-á lembrar de ti. E amarei o som do vento no trigo…
- O que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
Foi assim que o principezinho cativou a raposa. E quando chegou a hora da partida:
- Ah! - disse a raposa… Vou chorar.
- É certo - disse a raposa.
- Mas vais chorar! - disse o principezinho.
- Vou - disse a raposa.
- Então não ganhas nada com isso!
- Ganho - disse a raposa - por causa da cor do trigo.
Depois acrescentou:
E voltou para junto da raposa:
- Adeus, disse…
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho de modo a poder recordar-se.
- É o tempo que perdeste com a tua rosa que torna a tua rosa tão importante.
Os homens esqueceram esta verdade - disse a raposa - Mas tu não deves esquecer-te.
Tornaste-te para sempre responsável por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa…- Sou o responsável pela minha rosa…
- repetiu o principezinho, para se recordar.”
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Sete Gomos...

"Na extensa planície africana, a vida é muito dolorosa e cruel. Mas é ali que mais valor a vida tem!..."
“...Naranja qui num créce, é tigelina...”
Era assim que o “Zenite Relógio” (nome dado pela mãe, por achar coisa importante, que só branco tinha), cá p’ra mim ele era mais “Rolex de Ouro” mas isso ela não sabia.
Como ia dizendo, era assim que o meu amigo justificava o tamanho das laranjas que, nesse ano nasceram mirradinhas, tão mirradinhas, que até dava dó só de olhar p’ra elas.
“Zenite Relógio” era um menino de cinco anos, inteligente, sensível, aprendia tudo sozinho, começava a descobrir o mundo e para ele tudo tinha uma explicação, mesmo o tamanho das laranjas, era um descobridor das coisas...
Para mim, na idade dele, o mundo era do tamanho do meu quintal, os sonhos também...
Mais tarde, percebi que aquele tempo em que tudo faz sentido, tudo é grande e para sempre, se esgota rapidamente.
E como era grande o meu quintal!...
Para ele, o mundo era a perder de vista, como a planície africana onde vivia, hoje ainda vive, deve ter percebido que, apesar de muitas vezes difícil e cruel é ali que a vida faz mais sentido.
Com ele voltei a descobrir a ternura das coisas, descobri que a vida sem ternura não é lá grande coisa e é na saudade que continuo criança, às vezes sou feliz, às vezes não...
Hoje, quando como “tigelinas” lembro-me sempre dele, mastigo cada gomo devagar, lambuzo-me de prazer e até me esqueço que são laranjas mirradinhas...
Neste mundo virtual, seremos os sete gomos duma laranja, que se quer grande, doce e sumarenta e que cada gomo nos delicie, nos lambuze e essencialmente nos dê muito prazer mastigar...
E se não for laranja, seja “tigelina”, desde que sumarenta e doce...
AHA
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
História de um Bolero
(isto é de um dicionário antigo, pus aqui só para parecer bem)
Mas vamos ao que interessa. Não houve baile nenhum, nem vai haver. Houve uma ida à praia, que contaremos todos mais tarde e uma ida a casa da Maria da Lua, que mora junto ao pôr-do-sol, à direita da ponte, no sentido de quem vai.
Aí é que dançaram a Solitude e outras e aí se bebeu o João Pires, (que de pires não tem nada, eu sei!).
Solitude
Pois é. As meninas chegaram ainda o sol se iria aquecer por umas horas. À entrada da povoação, toda amuralhada bem ao estilo das guerras com os mouros, há um terreiro, em terra branca, batida. Aí é que nos foram encontrar. À Solitude nos volteios do Toreador e a mim, vermelho de esforço do rufar no tambor, e do João Pires que fiquei de guardar. O sapateado forte e constante era a Solitude, no apontar do queixo, acima dos mortais.
E eu lá ia, conforme podia. Na coreografia da Beatriz competia-me o tambor e o vinho, mas creio que fui mais vinho que tambor.
À Beatriz competia a organização, que é, por assim dizer, um: ou fazes assim, ou vais pró João Pires (coisa boa, como já tive ocasião de vos dizer). A Beatriz usava dois chapéus. Um, que tinha enquanto ordenava ou dizia, de um branco ameaçador sobre os olhos. O outro, por cima de um sorriso aberto, cheio de coisas por dizer, que usava quase sempre.
Entrou agora no terreiro. No terreiro de terra branca, em trajo “de luces”, branco também. Empunhava uma gargalhada e uma espada brilhante. No ar a melodia cresceu, não o Toreador, mas qualquer coisa em francês em ritmo flamengo que dizia “Eh moi D. Quijote, seigneur de la Mancha …”.
E ela, com a graça a que nos habituou, dançava num toureio com lampejos de espada, enquanto as velas de um moinho estalavam por detrás, a compasso.
A Solitude, com um copo na mão, dizia qualquer coisa à Maria da Lua. Fora-se a Cármen ficava a Solitude.
Angie
Eu próprio, de resto, tinha já perdido os artefactos com que até ali zurzia a pele do animal, no arremedo do tamboreio.
À medida que a melodia foi adoçando fomos descendo, em suavidades de brisa, até ao terreiro. A Angie fez perder-se a última nota, que desceu lenta até ao mar, até ao pôr-do-sol junto à ponte, à direita de quem vai.
A mim até o hálito a vinho se me foi! O que não deixou de ser a tempo pois tinha dado conta de umas duas garrafas. Ou três. Mas a última pareceu-me mais pequena.
Fernanda
A Rosário tratou de tudo. Generosa como é, emprestou um bolero.
Estávamos quase todos e ainda íamos em cantorias e dancerias, que isto de dancerias também existe. Uma sala, por exemplo e de fugida, pode ter quatro cantos, são as cantorias da sala. E quatro danças também, desde que se não misturem as notas (não, não são essas, são as da música!), nem os pés dos dançarinos se atem, em nó que se não desate.
Estávamos nós ainda em dancerias e o silêncio foi descendo com o sol. Éramos, a Solitude, a Beatriz, a Angie, a Maria da Lua e este vosso criado. Beberricava-se do João Pires e íamos comendo uns papos de anjo que a Maria da Lua trouxe do pôr-do-sol. Lembro-me que a Angie, que é muito directa embora muito doce também, se virou para mim, apontou com o dedo e disse com um riso leve – tens papo de anjo! Eu olhei para a barriga que já vai despontando, quanto a mim do vinhito, e agradeci meio corado de prazer, pois então. Não é todos os dias que me chamam anjo!
Tens papo de anjo no bigode, repetiu a Angie. Logo vi! E virei-me para descorar, mas não pedi desculpa, que os anjos não têm costas.
E a Fernanda dançou até muito depois do sol se pôr.
Como atrás contei, as amigas demonstraram o seu contentamento. Não que ela disso precisasse, mas o certo é que o sorriso, de brilhante, contagiou toda a gente.
A Ana nunca mais se viu, ou se estava não reparei.
Acabava o bolero das quatro notas, que como se sabe, acaba de rompante, como se se rasgasse a partitura (até aproveitei e dei mais uma paulada final no bombo), quando como por encantamento surgiu a Ana. Olhos escuros, olhos morenos também, com um jeito de, não te perdoo nem que rastejes, mas que escondem lá no fundo uma doçura sem fim.
A farpela era toda oriente, tudo sedas e véus num esvoaçar que punha um homem tonto.Eu e o João Pires, que continuava guardado bem guardadinho, em vez de nos calarmos fomos logo num desaforo – 2001 Odisseia no Espaço!
A Beatriz, que também é muito diplomata, disse de corrida, és a Sherazade das 1001 noites, eles estão a brincar contigo. Principalmente ia contando a sua própria história, a história de Sherazade. A Sherazade que o rei ia poupando da morte, para poder ouvir na noite seguinte outra história e outra e outra…
As histórias que a Ana contava tinham vida mal saíam dos seus lábios. As palavras vinham do fundo do tempo e aquele tom sempre igual, era como se fosse dito ao ouvido de cada um, ou que cada um ouvisse uma história diferente. Mais afeita a si e à sua própria história. Que todos temos uma.
E era a história de Simbad o marinheiro e era o Oriente em lendas e aquela melopeia da voz da Ana em tons graves, que faziam lembrar os tempos em que todos tínhamos ainda pouco tempo.
A última coisa de que me lembro foi da Angie. Dormia com um sorriso de menino e saíam-lhe estrelas pela ponta dos dedos…
Romeiro
Li em tempos um escrito em que se perguntava a um Romeiro “Romeiro, Romeiro, quem és tu?” e ele respondia “ninguém!” apontando para um retrato seu, doutros tempos e noutros atavios. Quem perguntava era esposa, de papel passado, pensando que o legítimo se tinha já finado, lá por Alcácer Quibir.
Mas não tinha. E ela viu-se assim com dois maridos e dois problemas.
Como se deve aprender sempre com a vida e com o que se lê (os mais atentos sabem que não é para levar em conta, mas os outros não), eu aprendi duas coisas com o que vos contei ainda agora. Primeiro que há sempre uma outra forma de ver o mundo - afinal dois maridos pode não ser um problema, até pode ser um agrado, pois pecado sei eu que não é. Segundo - não se deve perguntar a um Romeiro quem é ele, a não ser que se saiba já, ou que não se queira saber e se pergunte só por perguntar.
, não sejam invejosos nem tenham medo, que eu trato-as bem), quando se ouviu um bater ritmado de um cajado. Não era bem o compasso de um coxo era mais um bater no chão, como as pancadas que se ouvem no teatro, as pancadas de Moliére, dirão os mais entendidos.Com o barulho e o descanso, as minhas amigas lá foram despertando. Despertando e desapertando que o calor daquela noite de lua cheia e o barulho da água ali mesmo ao pé, convidavam a um banho retemperador do corpo, da alma e do resto. Do resto não, que só temos corpo e alma, se resto houver é corpo também.
Era o Romeiro.
Os galos na testa não foram um drama. Em menos de um ai e umas pedras de gelo, do alguidar que estava a refrescar o João (já temos alguma intimidade, como se vê…) e estava pronto para outra. Pronto pronto não, porque entretanto as minhas amigas já estavam mais ou menos tapadas e não havia razões para eu voltar a contar candeeiros com a cabeça. Penso que terá dito até que era a melhor parte, questão duvidosa porque das minhas amigas, nenhuma se queixou e a ele, não estavam a ligar grande coisa.
A Ana até já se tinha embrulhado num xaile branco e por aqui se vê!A modos que ele seria a minha consciência e eu, que daqui vos escrevo, seria assim como o Sancho Pança da história do cavaleiro: pobre, honrado, bom rapaz, amigo de um bom copo e pouco mais.
Sem mais delongas disse o que queria. Contar um conto!
Eu fiquei a pensar no que se tinha ele metido, querendo ser tão esperto, que depois das mil e uma noites da Ana, não havia conto, nem desconto, que valesse o tempo de o ouvir.Que o conto não era dele mas de um grande mestre da literatura, já morto claro, que os bons estão sempre mortos, também é costume, sim senhor e que o conto se chamava só assim – brincadeira.
Nadenka era pouco mais que adolescente. Pelos dezasseis anos, o cabelo escuro, em caracóis, descia-lhe junto às fontes e emoldurava um rosto trigueiro que a neve salpicava por vezes de prata. Eu, da cidade, andava pelos vinte e estava de férias.
Conheci-a no parque, onde dávamos passeios de manhã e ao final da tarde, de braço dado. Ela perguntava, num enleio de moça e eu lá ia contando sobre o mundo, sobre a cidade, sobre o que sabia e sobre o que não sabia também.Naquela manhã de um Dezembro cortante, estávamos no cimo do monte junto ao declive onde os mais corajosos, poucos, se aventuravam a descer, num trenó vermelho ali ao lado, por um precipício de gelo e bruma até à planície ao fundo.
Num repente, virei-me para Nadenka e pedi: desça comigo no trenó, só uma vez, vai ver que gosta, prometo. Ela olhava para o abismo, pálida, aterrorizada, media a distância entre as galochas pequeninas e a planície ao longe e com uma voz fraca recusou.Perante a insistência e o rosto insinuante que encostei ao dela, sentou-se trémula no trenó, como se fosse, por certeza, a última coisa que faria viva.
Aconcheguei-a a mim e começámos a descer. O trenó foi ganhando velocidade, numa vertigem. O vento uivava-nos à face, os patins gemiam num esforço derradeiro, parecia que o próprio demónio nos levava nas garras pelo monte abaixo, senti o corpo hirto encostar-se ao meu e todo o desespero de Nadenka a cair, cair, cair, para um abismo sem retorno.
Enquanto subíamos a encosta, pelo caminho mais longo, Nadenka olhava, perscrutando-me com os olhos escuros, ainda infantis e eu, despreocupado, acendi um cigarro, fitando atentamente a minha luva. Por várias vezes lhe surpreendi o olhar e por outras tantas lhe mostrei a minha indiferença. Teria sido o vento? Teria sido ele? Teria sido o vento? Lia-lhe nos olhos a dúvida.
Demos mais um passeio pelo parque e despedi-me, por entre os silêncios que gritavam: teria sido o vento? Teria sido ele?
Cheguei a casa e esperava-me um bilhete. “Se quiser descer no trenó amanhã, passe por minha casa. Nadenka”.O dia seguinte foi uma repetição do anterior. O mesmo pavor, a mesma tortura numa descida vertiginosa e no cume do desvario um sussurro: Amo-te Nadenka!
Daí em diante todos os dias desci pelo precipício com ela. Estava viciada naquele “amo-te”, do vento, meu, de quem fosse. Precisava dele, queria ouvi-lo não importava de quem!
Imaginei o pavor, o vórtice, o uivo, as unhas de criança cravadas no almofadado vermelha e finalmente a planície e a paragem. Olhou para trás ainda mal saía e ficou um momento parada. Em desespero interpelava o vento!
Passaram anos, estou mais velho e Nadenka já casou com o curador lá da terra. Tem três filhos e terá sido um casamento acordado pelas famílias. É feliz ao que parece, ou no que é possível, mas nunca esqueceu aquele “Amo-te Nadenka” da adolescência. !
Quanto a mim, que agora recordo, nunca percebi porque fiz aquilo. Foi apenas uma brincadeira!
Despido o fato de serapilheira abriste os braços, que ficaram do tamanho do terreiro, da praia e do pôr-do-sol. Tinhas fraccionado para completar. Embalavas o teu porquê, ou era ele que te embalava a ti, não sei nem isso importa. Unindo todas as partes que, de tão diferentes inexplicavelmente se encaixavam, tinhas pintado um quadro!
À Fernanda, com o Bolero, bem à ‘Les uns et les Autres’, competiu estruturar o conto e mantê-lo em movimento mas nele puseste os teus cinco sentidos: o odor inebriante do mar e do terreiro, a visão magnífica do pôr-do-sol, o sabor do vinho misturado com os doces, o som da música que nos elevava e o toque suave das sedas dos fatos dos xailes e dos lenços.
Tentei entender os meus sentimentos e consegui identificar dois, o ciúme da beleza de cada um dos elementos do teu quadro e a certeza de que sabia o que pensavas a cada pincelada. Afinal a nossa cumplicidade acabava de me pagar o bilhete. Estava ali de pleno direito.
Tu sorriste com aquele sorriso meio crítico, meio charmoso a dizer-me que reparasse melhor, olhasse melhor.
Solitude (por ela própria)
Asas de cristal de rocha da memória...
Cansada de esperar, espreguicei-me na areia e deixei-me abraçar pelo sol que ainda quente me beijava e adormeci.
Mas não, não estava, devo ter sonhado.
De novo o barulho, desta vez mais próximo e qual não é o meu espanto, vejo surgir das dunas um grupo de pessoas numa algazarra em compasso de tambor, vinham do terreiro.
- Olha! Afinal a Rosário também vem, é ela que traz o tambor e numa batida forte e sincopada conduz o grupo.
Mulher forte e decidida esta Rosário, que generosamente se afasta para dar passagem a quem quer correr para a praia e correm todos, o Nelson, que entretanto tinha despido a serapilheira e vestia agora uma túnica branca, corria atrás desenfreadamente, estava lindo, de branco vestido, cabelos ao vento, parecia um príncipe, exalava um perfume almiscarado, forte e intenso mas doce e envolvente e ria, ria muito, porque se riria tanto?...
E voaram para o mar, soltos e corpos desavindos…
A Rosário chegou e sentou-se junto de mim sorrindo, piscou-me o olho, que é como quem diz:
-Deixa-os brincar…
A Maria da Lua também se chegou e tirando o véu que lhe cobria o rosto, deixou que finalmente lhe descobríssemos o sorriso, misterioso, um misto de alegria e tristeza, que procurava disfarçar em largas gargalhadas a propósito e a despropósito.
A Beatriz, elegante como só ela, inspirada no movimento do vento que soprava docemente, em pose, propôs uma dança mas como ninguém lhe ligou nenhuma, dançou ela mesmo à beira mar, descalça, vestida de túnica de seda, numa dança sublime e foi Isadora que nós vimos e foi Chopin que nós ouvimos…
Já o Sol se despedia, pintando o horizonte de vermelho e a Angie, debruçada sobre a água, continuava à procura, não sei bem de quê, soube depois, quando chegou perto de nós, vinha de algas vestida e de conchas enfeitada, é um misto de hippie e cinderela esta Angie.
A Ana e a Fernanda sentadas junto ao Nelson que entretanto adormeceu de cansaço, conversam, e é a voz da Ana que se ouve no silêncio que a noite impõe, são histórias que ela desfia, histórias no mundo da sua fantasia que ela veste de realidade, histórias que a Fernanda escuta com o seu olhar de menina encantada a embalarem-lhe a noite numa indolência que ela aconchega a si, parece querer prolongar a noite e os sonhos que se desprendem das histórias.
O Nelson dorme, envolto também ele em sonhos, sonhos de pele morna e intenção quente…
A noite ia crescendo paulatinamente e era a Lua que agora nos fazia companhia e num piscar de olhos apercebo-me que todo o horizonte se pintou de branco, branco prata cor do luar, levanto-me, dou um passo em frente, sinto o arrepio do mar invadir-me o corpo, invento-me no silêncio duma praia só p’ra mim onde não faltam violinos e entro na anarquia do mar que me afaga com a leveza de uma carícia e a violência da pertença, como um beijo que inventei, ousada, ondulo no sexo da água em que me torno…
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