Todos temos em tudo de fazer intervalos. Para pensar, para descansar, seja para o que for, e eu, este vosso criado, depois daquela excelente prestação, de resto comentada até no estrangeiro, que é donde vem quase tudo o que é respeitável e respeitado. Depois daquela prestação, dizia eu, a contar o Bolero e a tratar, como devem ser tratadas, todas aquelas excelentes companhias, fui descansar! Que até os deuses descansam, mesmo depois de fazerem asneiras!E dei comigo a lembrar-me de coisas antigas, dos amigos que se deixaram de ver e coisas assim. Veio-me à mente uma história contada por um amigo, que já deixei de ver, e que acabava assim:
«…e, aos gritos de "carne! " possuiu-a quarenta e nove vezes!»
Era um bom contador de histórias, que é uma tradição que se foi, mas que não devia ter ido!
Mas vamos à matemática da coisa.
De facto se se dissesse que o fulano (presumo que tenha sido um fulano qualquer) a tivesse possuído, mesmo sem gritar coisa nenhuma, cinquenta vezes, via-se logo que era impossível.
Era um número muito certo, a convidar que se dissesse, cerca de cinquenta vezes, o que tornava a coisa ainda menos credível. Teriam sido só quarenta? Ou apenas trinta? Ou mesmo a miséria de vinte? E então para que tinham sido os gritos de "carne!"?. Para um estômago assim chegaria então um frango. Ou mesmo só uma canjita.
Se a frase tivesse sido outra: «…e, aos gritos de "carne! " possuiu-a meia centena de vezes!», era ainda pior!
Era como se se dissesse: andou por lá um ror de tempo, que dava para umas cinquenta vezes, mas não se sabe ao certo se só gritou ou se fez mais alguma coisa. Lá se ia o impacto do final da história.
Mas há mais. Há ainda as pequenas variações que fazem toda a diferença (um dia vos falarei da história da borboleta e do tufão). Eu acho que o mais certo era a história do meu amigo ter acabado assim:
«…e, aos gritos de "carne! " possuiu-as quarenta e nove vezes!»
Fazia toda a diferença. Era igualmente improvável mas havia um sentido distributivo. Como nos impostos!
Haveria mais gente a ouvir os gritos de "carne!" e mais gente, provavelmente, a dizer: então moço? É só gritos? Olha que isto não é um jogo de futebol.
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