
Duas da tarde, tinha acabado de reorganizar a cozinha, onde uma horita antes, entre cantarolices indefinidas e provas directa dos tachos, tinha preparado o almoço para as crias sempre com o espirito ancestral de procriadora.
Deixou-se cair no sofá com um sorriso de quem estava grata à vida e propunha-se iniciar o seu recreio preferido depois de almoço... finalmente o silêncio, que se notava mais depois de finalizada a algazarra de três jovens adultos no auge das carreiras e que lutavam entre si para se contarem uns aos outros as "desgraças" da manhã de trabalho. Eles já tinham saído para completar o dia de obrigações de "semi" adultos.
Uma chávena de café feito em casa a fumegar em cima da mesinha ao lado, na mão, os óculos de ver ao pé e o livro que parecia nunca se conseguir ler até ao fim.
Pega no comando da TV e faz um zapping..... como é possível? Nada de jeito!! Tornou a sorrir de si mesma quando reparou que inconscientemente tinha sintonizado no canal Panda de desenhos animados ( o Cebolinha... há quanto tempo!!! que saudades dos livros que semanalmente lhe era permitido comprar se se portasse bem...O Tio Patinhas, o Zé Carioca, O Professor Pardal, O Bafodeonça, Os Irmãos Metralha...).
Desligou a televisão e procurou um CD. O escolhido foi um de Bossa Nova que lhe tinha sido oferecido pelo filho do meio ( talvez aquele filho que mais sabia sobre o seu gosto musical) e ainda não tinha tido ocasião de o ouvir calmamente.
- Mãe, ouve este CD, sabias que a Bossa Nova resulta do Fox americano misturado com Jazz? A voz dela é um espanto, vais gostar!
- Vamos lá ouvir então! - pensou ela, enquanto se lembrava do que o filho tinha dito e ligava a aparelhagem.
Mais uma vez se deixou cair no sofá, chávena na mão e a suspirar de bem estar, continuava agradecida à vida. Agradecida exactamente do quê? de uma vida fácil? Não! Essa não lhe tem sido fácil ... sempre sózinha na luta diária. Então de quê? Principalmente da serenidade! Da serenidade que conseguiu encontrar no meio dos seus sentimentos e que tanto lhe tem ajudado nas situações dificeis, e que lhe ajuda a valorizar sempre os pequenos «sim» da vida e a desvalorizar os grandes «não».
O pensamento voou e ficou a pairar como um planador por cima dos vales profundos e das montanhas altas do coração.
...
Se tivessemos que materializar os sentimentos, os afectos, como representaria ela, por exemplo, o que sentia por "ele"? Mentalmente pegou na folha de papel, nos pincéis e na paleta de cores, sim! porque, no seu amor não cabia a tristeza nem a sobriedade dos tons cinzas do lápis de carvão tinha de ter todas as cores do arco-iris que não eram mais do que a decomposição da luz que ele lhe trazia ao coração, às faces e principalmente aos olhos.
Aos poucos construíu um imenso «Open Space» em que as paredes e o tecto eram vidros:
Olhando para cima entrava o céu. De dia, umas vezes azul decorado com alguns botões de flores de algodão, lembrando o conforto do calor do sol da Primavera, outras vezes, cinzento com figuras estranhas das personagens dos contos de fantasmas, mas lembrando o conforto do calor de uma lareira acesa de Inverno. De noite, às vezes, um painel de luzes cintilantes, lembrando a alegria despreocupada das crianças brincando, outras vezes, uma cascata de pequenas gotas que juntas se transformam em poderosa corrente que atemoriza, por certo, mas também limpa...... O curioso é que fosse o que fosse a ideia de conforto imperava.
Olhando as paredes. Por uma entrava o mar, umas vezes de um azul turquesa sereno outras de um cinzento esverdeado rebentado na praia, poderoso como o deus neptuno.
Na da frente, entrava a visão de um rio que descia veredas ladeadas de salgueiros e canas, aí apenas mudava a velocidade das águas que desciam, de Inverno rápidas, como se estivessem atrasadas para o encontro, de Verão lânguidas como se regressassem do encontro.
Na do lado direito, entrava uma imensa serra, agreste e poderosa, agressivamente protectora como de uma muralha se tratasse que nos defendia de tudo o resto e de todos, que com pudor nos escondia, imutável, fixa, mas de uma beleza que sufocava.
Na do lado esquerdo uma seara em primeiro plano, umas vezes, verde a cheirar a fresco outras doirada pintalgada de papoilas vermelhas, outras, como quem dá tempo ao tempo para crescer, outras ainda, com as espigas cheias de azáfama por se darem aos insectos barulhentos e às aves inquietas. Ladeia a seara um pomar que enche o ar de perfume doce e generoso, e ao lado, um bosque que fervilha de vidas que apenas se supõem e se sentem sem se ver, camufladas pelo o odor de pinho e eucalípto, desinfectante cheirando a saúde.
....
Toca o telefone, lentamente, ela poisa os pincéis mentais ... faz as manobras necessárias para fazer aterrar o planador mental e olha uma ultima vez o «Open Space» do seu amor.... sim! Tudo o que rodea aquele sentimento estava ali, só faltava decorar o espaço por dentro.
O Homem da sua vida estava representado em cada detalhe de toda aquela paisagem que envolvia aquele espaço, o interior daquele lugar seria representado por todas as sensações que ele, o seu amor, lhe provocava, mas tinha de deixar para mais tarde, a realidade teimava em bater-lhe à porta....
- Sim!!! Olá! Meia hora, daqui a meia hora estou aí... Até já.
Poisa o livro que não chegou a abrir, pega a chávena de café para a deixar na cozinha, vai ao quarto para calçar os sapatos e entra na casa de banho para passar a escova pelo cabelo e retocar a maquilhagem.
Olá mundo!!! Acabou o recreio!!!!
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