terça-feira, 24 de março de 2009

Li-me


Li-me

Como ontem previ!

Hoje acordei com um sorriso de orelha a orelha, bem sei que também tenho olheiras até ao nariz, afinal levantei-me às 5.30 da manhã, já fiz 600 Km seguidos, mas com uma paragem a meio para receber e dar AQUELE abraço e gastar em segundos os milhões de beijinhos guardados há tantos meses (mais de 3).

É verdade que continuo com o coração apertado, mas também, não é menos verdade que continuo grata à vida, por poder ter feito e sentido tudo isto e ainda ter tempo para...

Finalmente enterro-me no sofá, com uma chávena de café feito em casa a fumegar.... Como disse continuo com o coração apertado, com as olheiras até ao nariz (é verdade) mas também com um sorriso de orelha a orelha.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Ouvir-me!!!!


Porque não escrever o que penso?

Sobre coisas que me vêm à cabeça?

Sobre coisas que me digo a mim mesma para me consolar?

Nem sempre temos próximo de nós quem nós sabemos que nos ouviria e nos consolaria.

E afinal quem melhor que nós mesmos para perceber o que nos vai no coração.

E afinal no coração nem sempre nos vai coisas boas e simpáticas.

E afinal no coração também cabe sofrimento, e nem sempre temos a quem dizer que o coração nos está apertado.

Mas!!!

Sei que amanhã vou sorrir como sempre costumo sorrir, vou achar graça a tudo e a todos e principalmente vou ler-me para me ouvir.

Vou ler o que digo a mim mesma para me consolar quando tenho coisas que me apertam o coração.

Assim falava EU!

«Ainda que eu não queira, na vida não poderei nunca prescindir do sofrimento. O sofrimento é uma realidade que não depende de nós. Torna-se-nos presente, queiramos ou não, e até se faz "encontradiço" connosco quando menos o desejamos. Mas se não podemos evitar o sofrimento, está nas nossas mãos dar-lhe um sentido ou outro, adoptar perante ele uma posição ou outra, sem dúvida muito diferentes uma da outra. Se, ao sofrer, me impacientar e protestar, não consigo nada; só aumento o sofrimento e faço mal a mim mesma. Se ao sofrer, o aceitar, converto a dor em algo positivo, salvadora de mim mesma e dos outros e assim dignificar-me. Vou esforçar-me na tentativa de chegar a compreender que não é possível amar sem sofrer, nem sofrer sem amar»

Será que me consolei?

Amanhã saberei!!!!!!!

sábado, 21 de março de 2009

PAUSA PARA UM CAFÉ (cont)




...

Bem no meio daquele espaço de paredes e tecto de vidros transparentes especiais que deixam ver de dentro para fora mas nunca de fora para dentro, que afinal não era mais que a alma dela, ela viajou pelos caminhos das emoções e dos sentimentos.

-Nunca mais lhe perguntarei «O que tanto procuras...?»

- E porquê?
- Porque sei que encontraste! Tens me dito aos poucos.Talvez, tu ainda não saibas!

Talvez, ela também não lhe saiba explicar, mas ela sabe o que ele procura e principalmente compreende porque procura.

Haverá uma só palavra no dicionário que possa ser usada para explicar?

ESPAÇO
Talvez «espaço» seja a palavra adequada, exactamente no sentido daquela música que fala de "jardins proíbidos", daqueles onde só entra quem a gente quiser.

Quantas vezes também ela suspirou pelo seu espaço? Pelo seu jardim proibido, onde só entrasse quem ela quisesse e principalmente quando e enquanto ela quisesse.

Mas, como tudo, até esta necessidade de espaço, tem o outro lado da moeda. E aquele sentimento de culpa horrível que se tem porque se quer ter um jardim proibido e se acha que estamos a excluir dele pessoas que amamos?
Aí vêm os compromissos passados e presentes que nos enchem as entradas do nosso jardim proíbido.
Aí vem o medo dos compromissos futuros. Se ainda não resolvemos os anteriores vamos arranjar mais?
SOCORRO!!!!! Quero o meu espaço!!!!

Quero um espaço onde possa tirar as máscaras do dia a dia.
Onde possa rir e chorar sem ter de me justificar.
Onde possa fazer amor só porque naquele momento amo.
Onde possa ouvir a música que me apetece mas onde também possa ouvir o silêncio sem ter de explicar porque oiço esta ou aquela música ou porque se está calada.
Onde possa por o sofá amarelo sobre o tapete vermelho, mesmo que seja de um mau gosto aberrante ou então onde apenas haja almofadas no chão para sentar, só porque sim.
Onde faça festas divertidas porque precisamos de amigos.
Onde possa ler o tal livro sem olhar para o relógio.
Onde possa dar pulos, gatinhar ou rebolar sem que olhem para nós com ar de " coitada! endoideceu".
Onde possa espalhar os papéis do trabalho pelo chão sem ter que os apanhar antes de ir embora, porque quando regressarmos estão todos lá onde os deixámos.
Egoista!!!!!!!
Porquê?
Afinal não queremos pôr de parte os outros. Queremos estar lá, junto de quem gostamos, sempre que precisem de nós. Queremos dar o ombro na mesma, queremos rir e chorar com quem faz parte da nossa vida. Queremos estar inseridos no mundo real, no dia a dia.
Apenas queremos «espaço», o nosso espaço, para usarmos quando quisermos e com quem quisermos.
Até porque se os que fazem parte da nossa vida passada, presente e futura nos pedirem para nós compreendermos que também precisam do seu espaço, nós compreendemos e se preciso for, até ajudamos e incentivamos para que o tenham.

No fundo, já que, temos e precisamos de viver a vida com os outros apenas queremos também viver a vida com nós mesmos.

É bom amarmos e sermos amados, mas nesse amor também cabe o amor que sentimos por nós próprios.

quinta-feira, 12 de março de 2009

PAUSA PARA UM CAFÉ


Duas da tarde, tinha acabado de reorganizar a cozinha, onde uma horita antes, entre cantarolices indefinidas e provas directa dos tachos, tinha preparado o almoço para as crias sempre com o espirito ancestral de procriadora.

Deixou-se cair no sofá com um sorriso de quem estava grata à vida e propunha-se iniciar o seu recreio preferido depois de almoço... finalmente o silêncio, que se notava mais depois de finalizada a algazarra de três jovens adultos no auge das carreiras e que lutavam entre si para se contarem uns aos outros as "desgraças" da manhã de trabalho. Eles já tinham saído para completar o dia de obrigações de "semi" adultos.

Uma chávena de café feito em casa a fumegar em cima da mesinha ao lado, na mão, os óculos de ver ao pé e o livro que parecia nunca se conseguir ler até ao fim.

Pega no comando da TV e faz um zapping..... como é possível? Nada de jeito!! Tornou a sorrir de si mesma quando reparou que inconscientemente tinha sintonizado no canal Panda de desenhos animados ( o Cebolinha... há quanto tempo!!! que saudades dos livros que semanalmente lhe era permitido comprar se se portasse bem...O Tio Patinhas, o Zé Carioca, O Professor Pardal, O Bafodeonça, Os Irmãos Metralha...).

Desligou a televisão e procurou um CD. O escolhido foi um de Bossa Nova que lhe tinha sido oferecido pelo filho do meio ( talvez aquele filho que mais sabia sobre o seu gosto musical) e ainda não tinha tido ocasião de o ouvir calmamente.

- Mãe, ouve este CD, sabias que a Bossa Nova resulta do Fox americano misturado com Jazz? A voz dela é um espanto, vais gostar!

- Vamos lá ouvir então! - pensou ela, enquanto se lembrava do que o filho tinha dito e ligava a aparelhagem.

Mais uma vez se deixou cair no sofá, chávena na mão e a suspirar de bem estar, continuava agradecida à vida. Agradecida exactamente do quê? de uma vida fácil? Não! Essa não lhe tem sido fácil ... sempre sózinha na luta diária. Então de quê? Principalmente da serenidade! Da serenidade que conseguiu encontrar no meio dos seus sentimentos e que tanto lhe tem ajudado nas situações dificeis, e que lhe ajuda a valorizar sempre os pequenos «sim» da vida e a desvalorizar os grandes «não».

O pensamento voou e ficou a pairar como um planador por cima dos vales profundos e das montanhas altas do coração.

...

Se tivessemos que materializar os sentimentos, os afectos, como representaria ela, por exemplo, o que sentia por "ele"? Mentalmente pegou na folha de papel, nos pincéis e na paleta de cores, sim! porque, no seu amor não cabia a tristeza nem a sobriedade dos tons cinzas do lápis de carvão tinha de ter todas as cores do arco-iris que não eram mais do que a decomposição da luz que ele lhe trazia ao coração, às faces e principalmente aos olhos.

Aos poucos construíu um imenso «Open Space» em que as paredes e o tecto eram vidros:

Olhando para cima entrava o céu. De dia, umas vezes azul decorado com alguns botões de flores de algodão, lembrando o conforto do calor do sol da Primavera, outras vezes, cinzento com figuras estranhas das personagens dos contos de fantasmas, mas lembrando o conforto do calor de uma lareira acesa de Inverno. De noite, às vezes, um painel de luzes cintilantes, lembrando a alegria despreocupada das crianças brincando, outras vezes, uma cascata de pequenas gotas que juntas se transformam em poderosa corrente que atemoriza, por certo, mas também limpa...... O curioso é que fosse o que fosse a ideia de conforto imperava.

Olhando as paredes. Por uma entrava o mar, umas vezes de um azul turquesa sereno outras de um cinzento esverdeado rebentado na praia, poderoso como o deus neptuno.

Na da frente, entrava a visão de um rio que descia veredas ladeadas de salgueiros e canas, aí apenas mudava a velocidade das águas que desciam, de Inverno rápidas, como se estivessem atrasadas para o encontro, de Verão lânguidas como se regressassem do encontro.

Na do lado direito, entrava uma imensa serra, agreste e poderosa, agressivamente protectora como de uma muralha se tratasse que nos defendia de tudo o resto e de todos, que com pudor nos escondia, imutável, fixa, mas de uma beleza que sufocava.

Na do lado esquerdo uma seara em primeiro plano, umas vezes, verde a cheirar a fresco outras doirada pintalgada de papoilas vermelhas, outras, como quem dá tempo ao tempo para crescer, outras ainda, com as espigas cheias de azáfama por se darem aos insectos barulhentos e às aves inquietas. Ladeia a seara um pomar que enche o ar de perfume doce e generoso, e ao lado, um bosque que fervilha de vidas que apenas se supõem e se sentem sem se ver, camufladas pelo o odor de pinho e eucalípto, desinfectante cheirando a saúde.

....

Toca o telefone, lentamente, ela poisa os pincéis mentais ... faz as manobras necessárias para fazer aterrar o planador mental e olha uma ultima vez o «Open Space» do seu amor.... sim! Tudo o que rodea aquele sentimento estava ali, só faltava decorar o espaço por dentro.

O Homem da sua vida estava representado em cada detalhe de toda aquela paisagem que envolvia aquele espaço, o interior daquele lugar seria representado por todas as sensações que ele, o seu amor, lhe provocava, mas tinha de deixar para mais tarde, a realidade teimava em bater-lhe à porta....

- Sim!!! Olá! Meia hora, daqui a meia hora estou aí... Até já.

Poisa o livro que não chegou a abrir, pega a chávena de café para a deixar na cozinha, vai ao quarto para calçar os sapatos e entra na casa de banho para passar a escova pelo cabelo e retocar a maquilhagem.

Olá mundo!!! Acabou o recreio!!!!


Cont

sábado, 7 de março de 2009

A Ostra


Cont...


- Que lata! Então vais perguntar ao empregado se têm ostras?
- Qual foi o mal? podia ter sorte e haver. Acredita que desta vez não ia deixar que outro a comesse! ainda não me disseste porquê!!! ainda por cima, porquê ele!
- Tá! Estava a evitar que tornasses a essa conversa, mas estou a ver que não me safo.
Não te vou dizer porquê, porque não sei dizer-te, principalmente "porquê ele", mas algum porquê haverá... um porquê que dura 28 anos tem de ser um porquê muito forte, não achas? E tu já te perguntaste a ti mesmo o que aconteceu? O teu problema é ter sido ele? Ou é o facto de eu não ter ido atrás de ti?
- Ostra, outra vez!!!!
- Não! Vou tentar explicar-te ou melhor lembrar-te os factos. Como disseste, sou uma ostra no teu imaginário, mas estás a esquecer-te dos factos, deixa lá o imaginário.
- Ele dizia-te como ficas bonita quando falas a sério?
- Dizia! Mas, por norma, não gostava de ouvir o que eu lhe dizia quando lhe falava a sério!
No fim desse famoso verão do passeio de mota, vieste para a faculdade. Para mim eras o meu namorado, na altura era piroso pedir namoro e era ridículo ser pedida em namoro, mas quando no dia dos teus anos, Agosto, 18 não é?
- Ainda te lembras?
- Claro! Mas continuando... estávamos de férias na praia... eu numa casa alugada à época e tu no Grande Hotel da Figueira. A tua mãe, foi de propósito à nossa casa convidar o meu irmão e a mim para irmos jantar com vocês ao hotel no dia do teus anos. Lembro-me da cara de cumplicidade da tua mãe quando disse à minha que tu fazias questão de convidar o meu irmão, o que era natural! eram amigos de infância, mas também de me convidar e que não podiamos deixar de ir porque éramos os únicos convidados que ele queria na festa dos seus 18 anos e que tinha insistido muito para ela pedir para eu ir. A tua mãe tinha ido pessoalmente e de propósito a minha casa para me convidar, desde esse dia, à boca pequena, claro! para as nossas familias passámos a namorar, e mais, com a benção! Afinal as familias eram amigas de longa data.
- Pois foi, o meu pai, quando lhes disse que queria que só fossem vocês à festa dos meus 18 anos, piscou-me o olho e disse-me que ainda na véspera tinha dito à minha mãe que tu estavas uma linda rapariga.
- Parecemos uns velhos, a lembrar tempos! Mas como dizia! Para mim passaste a ser o meu namorado oficialmente, por isso, não entendi como foi possível que por teres ido para a Faculdade, durante meses, de Setembro até ao natal, ter sido só o teu silêncio que reinou. Verdade? Agora sou eu que te pergunto, era assim que guardavas tesouros?
- Mas tu também nunca me disseste mais nada, sempre que estava com o teu irmão esperava que ele trouxesse algum recado teu e sempre que ia de fim de semana passava vezes sem conta à tua porta e no café onde toda a malta se encontrava, na esperança de te ver. Uma vez a tua amiga São, lembraste dela? disse-me que lhe tinhas dito que nos fins de semana não punhas os pés no café porque não querias correr o risco de te encontrares comigo.
- Não me lembro se disse isso, mas é natural, se em alguma coisa fui coerente durante a minha vida foi o facto de nunca disputar homens, não o fiz contigo, não o fiz com ele que é o pai dos meus filhos e não o faço agora. Disputa-se o que nos pertence mas pessoas não pertecem a ninguém além de si mesmas. Para haver uma relação são precisas duas pessoas e duas pessoas a quererem.
Nesse Outubro entrei para o Liceu vinda do colégio e como sempre, miúda nova no pedaço fazia sucesso, nem era preciso ser uma estampa, e ele e o irmão tinham chegado de outra cidade para frequentar o Instituto Politécnico, outra novidade que também fez sucesso.
- E não podias ter-me contado? imaginas o que senti quando nas férias do natal me disseram que o namoravas?
- Imagino. Para a tua mãe ter ligado à minha a dizer que estavas muito triste porque eu tinha outro namorado, imagino a fita que fizeste e como menino de mamã que eras puseste a familia em alvoroço de certeza!!!
- Imaginas o que senti quando me disseram que tinhas casado? Nem queria acreditar! Assim de repente, casada!
- Assim de repente? eu namorei-o quase três anos.
- Mas tu só tinhas 18 quando casaste, nunca pus a hipotése de não ser comigo, faltavam só mais dois anos para acabar o curso de medicina, eu ia ter contigo.
- Mas tu nunca me disseste. Moral da história, nunca ignores a mágoa e a humilhação que um silêncio pode provocar. Ninguém consegue saber o que pensamos se não o dizemos, são grandes os riscos que se correm quando deixamos que interpretem os nossos silêncios, sabes? Até podem ser silêncios de meditação, de preparação do futuro, mas silêncio não explicado humilha, magoa e principalmente é mais desumano do que um não, não dá espaço ao outro para fazer o luto desse não, porque deixa sempre algo em aberto.
Pois é lindo, como se diz, quem foi ao ar perdeu o lugar e tu deixaste ocupar o lugar, pacificamente, ele apenas se limitou a existir, nada mais!
Tenho de ir, já passa das três e ainda levo algum tempo a chegar. Espero não apanhar trânsito.
- Vejo-te outra vez?
- Se me procurares.
- Tens um jantar comigo prometido ou achas que me ia esquecer? até porque esse teu discurso todo tem resposta.
- Se eu quiser ouvir!!!!


- OSTRA!!!!!!!!!!
- Beijo

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Ostra


Cont...


A conversa decorreu animada entre os dois, e desta vez da frente para trás. Ela estava admirada com o que ele sabia do seu percurso de vida, mas afinal, visto à distância era fácilmente explicável assim ser, tinha sido ele a sair da terra e o mais natural seria sempre que ele se encontrasse com alguém da terra perguntasse pelas recordações, pelos amigos e tinham tantos amigos de infância e de liceu em comum.
Chegou a hora de almoçar
- Como é? Onde almoçamos? Almoças comigo não?
- Estava apenas a contar em tomar só um café contigo antes de almoço, não avisei os meus amigos que não almoçava em casa com eles, apesar de isso não ser nenhum problema, mas tenho uma reunião marcada para as três e meia.
- Telefona a avisá-los e almoçamos por aqui perto. Tenho mais um capacete na mota, vens comigo demoramos menos tempo a chegar do que se formos de carro, às três estamos despachados.
- De mota? Nem morta!!! No meio deste trânsito?
- Não acredito! Ainda tens medo de andar de mota? A única vez que consegui convencer-te a dares um passeio de mota comigo fiquei todo marcado na cintura com os beliscos que me deste e tive de parar várias vezes, sempre que fazia uma curva tu inclinavas-te para o lado contrário.
- Pois! E ainda por cima fiquei de castigo, porque o meu querido irmão, para gozar comigo, sim! porque tu fizeste questão de contar a todos que eu tinha medo de andar de mota, resolveu contar aos meus pais que eu tinha medo de andar de mota e que te tinha esgadanhado todo. A minha mãe não achou graça nenhuma nem de eu ter andado de mota e muito menos de ter sido contigo. Tens muita fome?
- Não, porquê?
- Então proponho que comamos uma tosta ou qualquer coisa do género aqui mesmo, está a saber-me bem estar perto do mar com este solinho.
- Continuas a gostar do mar exactamente na proporção inversa do teu gosto em andar de mota está visto. Desde que me prometas que um dia destes vens jantar comigo, aceito.
A propósito do célebre passeio de mota, a conversa virou-se outra vez para os 15 anos dela (18 dele).
- Numa das vezes que parei para te pedir que não inclinasses o corpo para o lado contrário da curva estavas tão assustada que pensei que ias chorar, mas não! saltaste da mota e aos gritos disseste que se eu tornasse a andar com velocidade exigias que eu parasse e levavas tu a mota. Tu que morrias de medo de andar de mota!!! impunhas ser tu a levá-la! quando me pus a rir, ficaste tão furiosa, ameaçaste que regressavas a pé... estávamos no meio da serra lembras? tu viraste-me as costas e puseste-te a andar estrada fora, tive de correr atrás de ti e quando te agarrei para te acalmar tentei dar-te um beijo, ainda hoje me dá vontade de rir quando me lembro da tua cara de zangada e do empurrão que me deste, mas o melhor foi quando me disseste que só não me davas um estalo porque não batias em homens mas que se não te levasse imediatamente para baixo te esquecias que era homem e que me davas mesmo.
- Lembro, exactamente porque não tive prazer em andar de mota me custou tanto o castigo, por norma quando era castigada pelas asneiras que fazia mas que me tinham dado prazer em fazer, pensava sempre "perdoo o mal que me fazes pelo bem que me sabes" e mais, é segredo, mas estava mesmo com vontade de chorar, mas como em mim tudo é ao contrário, achava que "mulher nunca chora" e acredita que se tivesses insistido em me agarrar e beijar levavas mesmo.
- Ostra!!
Ele ia abrir outra vez as gavetas das memórias arquivadas dela e o mal não era abri-las era a desarrumação, era o tornar a baralhar.
- Não, não vou deixar! - pensou ela - Ainda tenho tanto para arquivar quanto mais desarrumar o que está arrumado, não! bem ou mal, para mim o teu processo está fechado e arquivado, tenho outros por arrumar, tenho outras histórias por resolver.
Ela levantou o braço e chamou o empregado
- Vamos saber o que podemos comer por aqui?



Cont.


A Ostra


Encontraram-se numa esplanada de um bar de praia, numa sexta-feira, num fim de manhã, quase hora de almoço, num dia ensolarado de inverno.
Ela já lá estava com um café à frente, cabeça para trás, para receber o calor do sol, de olhos fechados e cabeça vazia, por opção.... não lhe apetecia pensar? ou não sabia o que pensar?
Perto e de repente soou um ronco de mota potente a estacionar, motas nunca a deixaram confortável (vá se lá saber porquê). O som fê-la abrir os olhos, era vermelha e o tamanho correspondia ao ronco.
Escondida por detrás dos óculos escuros, com a mesma sensação que o gato escondido com o rabo de fora devia ter, ficou a olhar a mota enquanto o dono saia dela.
Lentamente com ar de quem procurava ele levantou o descanso da mota com o pé e ainda com o capacete olhou para ela.
Caminhou em direcção a ela, com a insegurança de quem não tinha a certeza, e só quando chegou tirou o capacete.
Ela tirou os óculos e ficou a olhar para aquela pessoa que lhe tinha acabado de tapar o sol.
Ele abriu os braços e quase entre dentes disse-lhe:
- Se dúvidas tivesse, esses olhos são inesquecíveis!
Pegou na mão dela e levantando-a abraçou-a. Como um filme em câmara lenta, ficaram ali a balançarem-se com o capacete a fazer de pêndulo. Ela nada podia dizer porque ele repetia-lhe ao ouvido, vezes sem conta, como de um lamento se tratasse:
- Ostra! A minha ostra!!! Ostrinha!!!!!
Quando finalmente ele parou de lhe chamar ostra, ela afastou-o carinhosamente e olhando-o nos olhos riu e disse:
- OSTRA? Ainda bem que não te lembrei uma foca!!!!!!!
- Só tu ostrinha! Continuas com as tuas saídas estratégicas. É bom sinal, afinal ainda te reconheço nesse sentido de humor e nesses olhos que falam sempre mais que a tua boca, afinal ainda aí está tudo.
Entre gargalhadas, como miúdos de escola, sentaram-se, ele explicou:
- Durante todos estes anos, no meu imaginário tu foste a minha ostra...
- Ostra?????
- Sim! Os teus olhos eram o mar e tu uma concha com uma pérola linda dentro dela, assim que te tocava fechavas-te como uma ostra! Lembras? parece que te estou a ouvir, quando te abraçava e tu me dizias - Olha quem lá vem! é mentira! era só para tirares o braço! e depois rias que nem uma tonta. Eras o meu tesouro, que guardei, para nada! porque veio um bruto de um pirata que mo roubou! porquê? porque não te fechaste como fazias comigo? porque deixaste que ele .... se soubesses como me senti quando me disseram que tinhas casado... mas hoje vais dizer-me porquê? Depois só te tornei a ver no casamento do teu irmão, tu já com dois filhos pequenos e a única vez que trocámos o olhar havia uma tristeza nos teus olhos, que só me apeteceu perguntar-te ali mesmo porquê!!!!! tu nem me falaste... eu já não gostava dele mas passei a odiá-lo ... O estúpido em vez de ter feito uma joia com a pérola que me roubou, tinha escavacado a minha concha e ainda olhava para mim de lado com ar de vitória.
Ele tinha-lhe pegado na mão e esperava uma resposta que ela não tinha de momento
- Ok! Hora de saída estratégica - Pensou ela!!!!
- Bom dia também para ti! Olá! Como estás! Estás com bom aspecto. Que tens feito? Como se diz isto em linguagem de ostra?
Seguiram-se mais uma série de gargalhadas, ele chamou o empregado e pediu uma bica....

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segunda-feira, 2 de março de 2009

Amélia S. Tomé (IV)


Francisco aprendeu as primeiras letras com o feitor, na cartilha maternal. Onde as sílabas tinham cores diferentes, para se saber que as palavras, que podem fazer chorar ou fazer rir, são somas de nadas que não dizem nada – as sílabas.

Não aprendia depressa nem devagar, aprendia assim-assim. Enquanto num canto, Amélia não perdia nada e já sabia de cor “batem leve levemente, como quem chama por mim…”, e vinham-lhe as lágrimas aos olhos, enquanto Francisco ia transpirando ferrugento “mas às crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor?”.

Só não sabia o que era a neve e o Francisco ainda não tinha perguntado ao feitor, mesmo quando pela décima vez se ia enganando “Fui ver. A leve caía do azul-cinzento do céu…”. Neve Francisco! Neve, emendava o feitor.

Neve pai. E o Francisco não perguntava da neve!

Uma vez perguntou ao Francisco, nas brincadeiras do quintal, sabes o que é a neve? Qual neve? A do batem leve. Não sei, mas não há em S. Tomé!
Perguntou ao feitor. Tio o que é a neve? E o feitor perdia os olhos no mar, a neve …a neve …
Ficou a saber que não havia em S. Tomé. Talvez houvesse longe, onde o céu abraça o mar. Onde se perdiam os olhos do feitor.

Depois veio a escola, na Cidade. E todas as manhãs ela e o Francisco num cavalo e o homem que trabalhava na pedra das calçadas, sempre calado, noutro. Que não havia assim perigo nenhum.

Tinha Amélia treze anos quando a senhora mandou que fosse só o Francisco. Depois dela saber da mãe e do lenço vermelho-sangue.

Francisco já ia sozinho à escola. Umas vezes de verdade, outras de mentira, nas tropelias da idade e de filho de feitor, com as filhas tenras da sanzala…