2ª-feira 16 de Setembro 2019
Na sala de espera da urgência Oncológica do Hospital São Francisco Xavier - Lisboa
Desde as 9.30 h da manhã que acompanho a minha amiga, minha irmã de coração, aquela irmã de sangue que nunca tive.
Tempos houve que ela era uma força da natureza. A forte da família e dos amigos, a quem todos recorriamos nas horas de aflição.
Médica de formação, amiga de coração.
Agora tem a face desfigurada de quem sofre física e emocionalmente.
Dá profundos e sentidos suspiros, para conseguir melhor respirar dá ais baixinhos, para além dos vómitos que de quando em quando lhe fazem sair os olhos das órbitas.
São 14.39 h da tarde, ainda não há veredito «fica internada? não fica?», se eu já não tenho posição nestas malditas cadeiras, imagino ela, que olha para mim de 10 em 10 minuto e diz baixinho:
- Quero ir para casa deitar-me
Desesperada levanto-me, entro pela urgência adentro e procuro uma enfermeira ou, com sorte, talvez a médica que está de serviço.
«Tem de esperar! ah! isso não sei! Pois compreendo, o resultado das análises já chegou mas a médica ainda as pode ver! Tem de esperar lá fora...... respostas mais ou menos em tom simpático outras nem tanto. Mas ninguém me disse: a doente quererá deitar-se? quererá uma cadeira mais confortável? São já estas horas, ela precisa de comer alguma coisa? nada...... »
Claro que a estas horas da tarde eu já lhe tinha perguntado várias vezes se queria comer alguma coisa, como resposta tive sempre..... estou tão mal disposta queria ir para casa. Tinha uma maçã na carteira que aos poucos conseguiu e acabou por ir comendo.
16.25 h
Peço-lhe paciência e faço-lhe uma festa na testa. Verifico o nível da máquina de oxigénio portátil e vejo que está a ficar sem bateria. Empurro-lhe a cadeira de rodas para junto de uma tomada eléctrica, para lhe carregar a bateria, do "bobi" como carinhosamente ela chama ao aparelhómetro. Ajeito-a na cadeira e ela com um sorriso triste, muito triste, olha-me nos olhos e diz-me baixinho:
- Desculpa amiga!
Eu pergunto-lhe o que é que ela acha que lhe tenho de desculpar?
Ela responde-me:
- Eu sei que tenho outras pessoas que também se dispunham a ajudar-me e a acompanhar-me, a minha filha, as minhas irmãs, algumas amigas, mas eu sinto-me bem contigo.... Desculpa o meu egoismo, estás a deixar a tua vida para estares aqui comigo.
Apeteceu-me chorar mas segurei as lágrimas, não era hora de fraquejar e deixar as emoções vencerem.
Sorri-lhe e só conseguir dizer-lhe:
-Obrigada eu Di...... por me deixares sentir este sentimento tão ameno que é a verdadeira amizade. Desculpa me tu a mim, por não conseguir salvar a tua vida como tu salvaste a minha e a da minha filhota, a tua afilhada.
...
Há quase 44 anos quando ela me acompanhou no meu primeiro parto apesar de já ser médica foi na qualidade de amiga. Tinha eu 19 anos feitos havia pouco tempo, acabou por ser ela a salvar-me a vida durante um parto terrível, parto em que entrei em coma e a minha médica assistente entrou em pânico.... foi ela que me estendeu a mão sem me deixar ir.....
DESCULPA POR NÃO PODER FAZER MAIS NADA ALÉM DE TE CONFORTAR NESTES MOMENTOS TÃO DÍFICEIS PARA TI MINHA AMIGA DE SEMPRE
DESCULPA!!!!!
sexta-feira, 20 de setembro de 2019
Subscrever:
Mensagens (Atom)