
Todos nós somos resultado de uma vivência.
Todos nós fomos moldados, por uma vida, às vezes justa, outras, não tanto assim.... mas todos nós somos produto de uma história de gerações e gerações, uma história mais ou menos próxima ou remota......
Lembro, agora, que na disciplina de História todos tinhamos que saber as causas próximas e as causas remotas daqueles momentos "ditos" marcantes para a humanidade.......
No fundo também nós somos marcados por causas remotas e causas próximas.
Pois bem!!!!!
Arrumava eu..... minto... tentava encaixar mais uma data de coisas na última parteleira do armário mais alto do roupeiro que fica naquela despensa que tem sempre a porta fechada e que quando olhamos para ela suspiramos, só de pensar, que num dia destes temos de dar uma volta naquela papelada toda, quando em saltinhos ridículos nos bicos dos pés, para me equilibrar sobre o banco da cozinha que por sua vez estava em cima de uma cadeira (sou a preguiça em pessoa... todo este estardalhaço só para não ir buscar o escadote) (além disso devo ter qualquer coisa de cabrita, porque adoro empoleirar-me em tudo, subir a árvores, etc. etc.... mas isso ficará para outra história) contava eu..... quando uma caixa me cai na cabeça, uma caixa de camisas "Vitor Emanuel" amarela pelo tempo, que se abriu e espalhou pelo chão montes de recortes de jornal e papeis que terão sido brancos, mas, já nem amarelos conseguiam ser, são mais castanhos......
Enquanto descia aquele monte evereste, ia praguejando todos os impropérios que sabia e mais alguns que inventei na hora, cheguei ao chão e sentei-me no chão para apanhar toda aquela papelada sem me lembrar sequer o que era.
Era uma caixa que a minha avó Candida (avó materna) sempre tinha guardado no ultimo gavetão do seu guarda-vestidos, lembro agora, atada com uma fita de cetim lilás, e que fechava sempre à pressa quando lhe entrávamos no quarto. Claro que na altura, nem pensar entrar no quarto dela sem bater à porta, a pedir licença, e tinhamos que esperar que ela dissesse. - Entra.
Sem quase dar conta, senti as faces molhadas , por umas lágrimas que eram de saudade, de orgulho, de tristeza e principalmente de um sentimento de injustiça, que magoava muito.
Meu Deus! o que eu implorei à minha mãe e aos meus dois tios para me darem aquela caixa quando a minha avó morreu..... em 1989 (com 84 anos), para além de uma imagem de N.Sra de Lurdes que sempre a acompanhava e ainda tenho comigo. Eram as únicas coisas que eu queria ter da avó....
Esta caixa tem manuscritos, peças de teatro e recortes de jornal do principio do século vinte, de poemas e artigos do meu avô materno o "VôJão".
O Vôjão".
Quando morreu tinha eu quase 5 anos. Esteve doente muitos meses ( ou achei eu que eram muitos).
Lembro-me dele, fisicamente, muito magro e sempre muito encolhido (em contraste com a minha avó, uma mulher lindíssima e alta, com uns olhos azuis esverdeados muito meigos mas sempre de porte altivo) ele tinha sempre uma mantinha castanha sobre os ombros e sentava-se no cadeirão da sala de estar, sempre a tentar sintonizar um radio enorme de madeira escura que tinha uns botões enormes que pareciam de marfim, que eu adorava fazer rodar e rodar e que chegava a uma altura só se ouvia o ranger de molas (o que eu gostava de ouvir aquele barulho de molas a ranger!!!!!!) de seguida ouvia sempre : - A menina mais teimosa que conheço - dizia ele baixinho, enquanto me tirava suavemente as mãos dos botões.
Mais tarde lembro-me de a minha mãe me ir buscar ao jardim de infância e irmos para casa dos meus avós à espera que o meu pai nos fosse buscar, aí já ele estava sempre na cama e tossia muito. Tinha sempre uma mesa baixinha perto dele com uma chávena de chá e um pratinho com bolachas maria "coladas com doce" como eu dizia, e que eu queria sempre comer-lhas. Lembro dele chamar a pedir para lhe trazerem outras e a sorrir dizia-me: - Estas já cairam para o chão, mas eu pedi à Patrocínia (a criada) para me arranjar outras e não me apetece comê-las, ajudas-me a comê-las? é que se não, a avó ralha com o avô porque não lhe apeteceu papar e ela acha que estou magrinho...... não era verdade! agora sei que ele tinha medo que eu ficasse doente, por elas estarem perto dele ( ele faleceu de cancro nos pulmões) a 2 de Setembro de 1960.
Conto-vos tudo isto para vos confessar, que quando me deram a caixa eu prometi a mim mesma que um dia divulgaria a pessoa linda, culta e especial que ele era.
Um Homem sensível, capaz de fazer poemas, generoso e que sempre lutou pelas classes mais desfavorecidas apenas por ideais humanistas, não políticos, foi perseguido, porque fez parte da Comissão Organizadora do Sindicato Nacional dos Empregados e Técnicos de Lanifícios, mas também foi perseguido, porque nas horas de perseguição à Igreja, foi um lutador sempre pronto a defender a causa religiosa e os mais desfavorecidos.... Em Dezembro de 1924, como prefácio de livrinho de versos que escreveu para um sarau de Natal realizado nesse ano no então Teatro Covilhanense em favor dos pobres, dizia.:
«A Todos os que sofrem e a quem devo estes versos humildes que escrevi:
-Negros quadros de dor que palpo e vejo
-Ecos de sofrimentos que vivi...»
Não resisto a escrever a sua dedicatória à minha avó (manuscrita) que está neste pequeno caderninho e que diz assim:
À minha querida Cândida
Dediquei- pensando em ti- este livro aos pobrezinhos. Como eles, para quem suplico nestes humildes versos um pouco de pão, também te peço, meu Amor, em cada dia, a doce esmola do teu sorriso e do teu carinho.
Teu, sempre, teu
João
Tenho muito para vos contar sobre ele. Foi Presidente da Junta de Freguesia de S.Martinho, uma das maiores freguesias da cidade da Covilhã, fez parte do grupo fundador do Notícias da Covilhã, ainda hoje o Jornal da Cidade da Covilhã e no qual, durante anos foi redactor, função que acumulava com a sua profissão (debuxador de lanifício) agora seria o chamado "designer".
(Agora e aqui penso como a vida é uma roda, também eu sou formada em Comunicação Social e estive ligada à política local, durante oito anos fui vereadora em permanência na Câmara da Covilhã. )
Mas a história vai longa, prometo (se me permitirem ) numa próxima ocasião divulgar alguns dos seus versos.
Beijos "Vôjão" eu sei que os meus amigos também vão gostar muito de ti