segunda-feira, 29 de setembro de 2008

João de Figueiredo (28/12/1898 - 02/09/1960) cont.


Na continuação do que escrevi ontem... descobri entre os tais papéis castanhos duas folhinhas que me fizeram rir de verdade, e talvez tenha ficado a perceber de quem herdei este meu sentido de humor, esta minha mania de achar graça a coisas que mais ninguém acha.
Para que melhor se entenda, o que vou escrever, preciso de contar que a sociedade covilhanense (cidade de características industriais) do início do século XX, era uma sociedade fechada. Onde a diferença de classes era, não só notória, como assumida, por todos. Operários por um lado e industriais por outro, a convivência entre elas era impensável ( no lindíssimo livro a Lã e a Neve de Ferreira de Castro, que recomendo, está bem retratada esta sociedade covilhanense). Assim sendo, entre os industriais e outros profissionais do sector dos serviços, a convivência entre as famílias era limitada a círculos de amigos e ocorria nas casas dessas famílias. No entanto para os homens (industriais, técnicos da industria, professores, bancários etc. etc.) havia os grémios e clubes, onde era prática corrente as tertúlias temáticas que se prolongavam pelo serão.
Outra caracaterística, e esta justificada pela localização serrana e do interior desta pequena cidade, todos se conheciam pelo nome de família, para além disso, muitos tinham alcunhas, que todos sabiam mas eram apenas ditas à boca pequena.
Espero não estar a maçar com estas explicações, mas temo que sem estas pequenas dicas só sendo da Covilhã, iriam achar graça a estas quadras do meu avô, que, segundo a minha mãe, num desses serões no Clube o meu avô rabiscou e "gozou" de grande os amigos.
I

Fauna Covilhanense
(todos os nomes em maiúsculas, são nomes de familias covilhanenses, muitas delas ainda de hoje)

1. Uma coisa singular
da minha terra natal:
conta dentro dos seus muros
a fauna de Portugal!

2. E, assim, temos a apontar:
RATOS por todos os lados,
BICHOS de vários tamanhos,
Gordos, pequenos, DELGADOS.

3. Há CAMELOS e RAPOSOS
GRILOS, GATOS e LEITÕES
PINTASSILGOS e PARDAIS,
COELHOS, LEBRES, LEÕES!

4. PINTOS, MELROS e CARRIÇAS,
de BARATAS, farturinha;
POMBOS, CARNEIROS e BOGAS,
e BACALHAU e SARDINHA.

5. Há CANÁRIOS sem gaiola,
e ABELHAS sem ter colmeia;
há BORREGOS e LAGARTOS
e LOBOS sem alcateia.

6. E, assim, com toda a razão,
a minha terra natal
é o pátio da bicharia
no jardim de Portugal!

MAS É OU NÃO VERDADE
QUE HÁ, DE TUDO, CÁ NA CIDADE»


Já em 1921, no dia da representação da Revista à Portuguesa «No País da Guedelha" (guedelha é o nome ainda hoje dado, na gíria da industria de lanifício, às mechas de lã ainda por fiar) estreada a 8 de Dezembro no Ginásio Clube da Covilhã da autoria de Mário Quintela, versos de João de Figueiredo e música do Maestro António Rodrigues Gomes, saiu um opúsculo de propaganda ao evento editado por Júlio Carneiro. Nele estão umas quadras da autoria do meu avô, que revelam bem o seu humor e que visavam o próprio editor; o pintor covilhanense Eduardo Malta, e um jornalista que colaborava no Notícias da Covilhã (todos eles amigos do meu avô).
II
«O Carneiro electrizado
Por nada faz algazarra
Porém ninguém o receia
Berra muito mas não marra!»
«A rapidez com que o Malta
Seus esboços executa
Dá-lhe direito ao anúncio:
retratos à la minuta!»
«Faz o amigo Oliveira
Um jornalista de truz
Eu sempre disse, Espremido
Bota azeite, mas não luz!»
João de Figueiredo

João de Figueiredo (28/12/1898 -02/09/1960)


Todos nós somos resultado de uma vivência.

Todos nós fomos moldados, por uma vida, às vezes justa, outras, não tanto assim.... mas todos nós somos produto de uma história de gerações e gerações, uma história mais ou menos próxima ou remota......

Lembro, agora, que na disciplina de História todos tinhamos que saber as causas próximas e as causas remotas daqueles momentos "ditos" marcantes para a humanidade.......

No fundo também nós somos marcados por causas remotas e causas próximas.

Pois bem!!!!!

Arrumava eu..... minto... tentava encaixar mais uma data de coisas na última parteleira do armário mais alto do roupeiro que fica naquela despensa que tem sempre a porta fechada e que quando olhamos para ela suspiramos, só de pensar, que num dia destes temos de dar uma volta naquela papelada toda, quando em saltinhos ridículos nos bicos dos pés, para me equilibrar sobre o banco da cozinha que por sua vez estava em cima de uma cadeira (sou a preguiça em pessoa... todo este estardalhaço só para não ir buscar o escadote) (além disso devo ter qualquer coisa de cabrita, porque adoro empoleirar-me em tudo, subir a árvores, etc. etc.... mas isso ficará para outra história) contava eu..... quando uma caixa me cai na cabeça, uma caixa de camisas "Vitor Emanuel" amarela pelo tempo, que se abriu e espalhou pelo chão montes de recortes de jornal e papeis que terão sido brancos, mas, já nem amarelos conseguiam ser, são mais castanhos......

Enquanto descia aquele monte evereste, ia praguejando todos os impropérios que sabia e mais alguns que inventei na hora, cheguei ao chão e sentei-me no chão para apanhar toda aquela papelada sem me lembrar sequer o que era.

Era uma caixa que a minha avó Candida (avó materna) sempre tinha guardado no ultimo gavetão do seu guarda-vestidos, lembro agora, atada com uma fita de cetim lilás, e que fechava sempre à pressa quando lhe entrávamos no quarto. Claro que na altura, nem pensar entrar no quarto dela sem bater à porta, a pedir licença, e tinhamos que esperar que ela dissesse. - Entra.



Sem quase dar conta, senti as faces molhadas , por umas lágrimas que eram de saudade, de orgulho, de tristeza e principalmente de um sentimento de injustiça, que magoava muito.



Meu Deus! o que eu implorei à minha mãe e aos meus dois tios para me darem aquela caixa quando a minha avó morreu..... em 1989 (com 84 anos), para além de uma imagem de N.Sra de Lurdes que sempre a acompanhava e ainda tenho comigo. Eram as únicas coisas que eu queria ter da avó....

Esta caixa tem manuscritos, peças de teatro e recortes de jornal do principio do século vinte, de poemas e artigos do meu avô materno o "VôJão".



O Vôjão".

Quando morreu tinha eu quase 5 anos. Esteve doente muitos meses ( ou achei eu que eram muitos).
Lembro-me dele, fisicamente, muito magro e sempre muito encolhido (em contraste com a minha avó, uma mulher lindíssima e alta, com uns olhos azuis esverdeados muito meigos mas sempre de porte altivo) ele tinha sempre uma mantinha castanha sobre os ombros e sentava-se no cadeirão da sala de estar, sempre a tentar sintonizar um radio enorme de madeira escura que tinha uns botões enormes que pareciam de marfim, que eu adorava fazer rodar e rodar e que chegava a uma altura só se ouvia o ranger de molas (o que eu gostava de ouvir aquele barulho de molas a ranger!!!!!!) de seguida ouvia sempre : - A menina mais teimosa que conheço - dizia ele baixinho, enquanto me tirava suavemente as mãos dos botões.

Mais tarde lembro-me de a minha mãe me ir buscar ao jardim de infância e irmos para casa dos meus avós à espera que o meu pai nos fosse buscar, aí já ele estava sempre na cama e tossia muito. Tinha sempre uma mesa baixinha perto dele com uma chávena de chá e um pratinho com bolachas maria "coladas com doce" como eu dizia, e que eu queria sempre comer-lhas. Lembro dele chamar a pedir para lhe trazerem outras e a sorrir dizia-me: - Estas já cairam para o chão, mas eu pedi à Patrocínia (a criada) para me arranjar outras e não me apetece comê-las, ajudas-me a comê-las? é que se não, a avó ralha com o avô porque não lhe apeteceu papar e ela acha que estou magrinho...... não era verdade! agora sei que ele tinha medo que eu ficasse doente, por elas estarem perto dele ( ele faleceu de cancro nos pulmões) a 2 de Setembro de 1960.



Conto-vos tudo isto para vos confessar, que quando me deram a caixa eu prometi a mim mesma que um dia divulgaria a pessoa linda, culta e especial que ele era.

Um Homem sensível, capaz de fazer poemas, generoso e que sempre lutou pelas classes mais desfavorecidas apenas por ideais humanistas, não políticos, foi perseguido, porque fez parte da Comissão Organizadora do Sindicato Nacional dos Empregados e Técnicos de Lanifícios, mas também foi perseguido, porque nas horas de perseguição à Igreja, foi um lutador sempre pronto a defender a causa religiosa e os mais desfavorecidos.... Em Dezembro de 1924, como prefácio de livrinho de versos que escreveu para um sarau de Natal realizado nesse ano no então Teatro Covilhanense em favor dos pobres, dizia.:



«A Todos os que sofrem e a quem devo estes versos humildes que escrevi:

-Negros quadros de dor que palpo e vejo

-Ecos de sofrimentos que vivi...»



Não resisto a escrever a sua dedicatória à minha avó (manuscrita) que está neste pequeno caderninho e que diz assim:

À minha querida Cândida

Dediquei- pensando em ti- este livro aos pobrezinhos. Como eles, para quem suplico nestes humildes versos um pouco de pão, também te peço, meu Amor, em cada dia, a doce esmola do teu sorriso e do teu carinho.

Teu, sempre, teu

João



Tenho muito para vos contar sobre ele. Foi Presidente da Junta de Freguesia de S.Martinho, uma das maiores freguesias da cidade da Covilhã, fez parte do grupo fundador do Notícias da Covilhã, ainda hoje o Jornal da Cidade da Covilhã e no qual, durante anos foi redactor, função que acumulava com a sua profissão (debuxador de lanifício) agora seria o chamado "designer".

(Agora e aqui penso como a vida é uma roda, também eu sou formada em Comunicação Social e estive ligada à política local, durante oito anos fui vereadora em permanência na Câmara da Covilhã. )

Mas a história vai longa, prometo (se me permitirem ) numa próxima ocasião divulgar alguns dos seus versos.

Beijos "Vôjão" eu sei que os meus amigos também vão gostar muito de ti

domingo, 28 de setembro de 2008

O Ipê Amarelo...


Na guerra pelo “progresso” o Homem não mede esforços nem as consequências dos seus actos. O importante é avançar, mesmo que para isso tenha que destruir os recursos naturais essenciais à sobrevivência e, numa luta desigual, vai avançando. A resposta da Natureza pode tardar mas não falha! Às vezes a resposta é intrigante, outras, desafiadora, só precisamos saber interpretá-la. Silenciosamente, esta árvore, respondeu à destruição e ao desrespeito, insistindo e exigindo o seu espaço para expor a beleza das suas flores e a generosa sombra da sua copa, numa grande demonstração de energia e desejo de viver. Derrubada e transformada em poste de suporte para fios da rede eléctrica!!, o Ipê amarelo não se entregou e, numa reacção maravilhosa, recuperou a força. Revoltou-se contra a condenação injusta que lhe foi imposta, fincou pé e readquiriu vida.
Criou de novo raízes.
Cresceu, cresceu...
E numa explosão colorida pelo sol, esbanjou alegria e beleza à sua volta. Presto aqui homenagem ao Ipê amarelo, (com honras de ‘I’ grande) que nos dá uma grande lição.
É possível a vida, mesmo que nos tirem o chão, quando a vontade de viver é grande, nada nos faz parar, é só preciso resistir e insistir, para continuarmos a existir!...
AHA

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

SE DE REPENTE

SE DE REPENTE

Se de repente
ficasse tudo diferente
e os beijos que guardei
e que nunca te dei
se colassem na tua boca?


Se de repente
ficasse tudo diferente
se apagasse a solidão
se incendiasse a paixão
e a distância fosse pouca?


Se de repente
ficasse tudo diferente
e viesses de mansinho
receber o meu carinho
e voltasses a chamar-me louca?


Se de repente
ficasse tudo diferente
voltasses para me afogar
na ternura desse olhar
e a tua voz saísse rouca?


Se de repente...
mas muito suavemente
acordasses do meu lado
como se fosse passado?


Mas de repente acordei
Foi um sonho que sonhei...

Ana

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Insónia




















Saudade ataca de noite
Num estranho ritual
Não há bem que em mim se acoite
Que me faça tanto mal
Deita-se na minha cama
E é como estar no limbo
Sinto-lhe o calor da chama
E a pressão do carimbo
É a montra à minha frente
Com o vidro a separar
Vejo tudo claramente
Sem lhe poder tocar
Conforta-me a almofada
Que comigo se encontra
E me diz que a madrugada
Vai partir o vidro à montra

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A Dº Augusta

Dª Augusta, enquanto Paula lhe arranjava arranjava os pés, lá ia contando que tivera que ir com o seu marido ao ortópedista porque a tal entorse no pescoço não o deixava trabalhar há uma semana.

Paula, sempre com os olhos fixos nos pés da senhora, só dizia:-Coitadito!!!


Manicure e estéticista,bonita e vistosa ,Paula quando entra no café do bairro e os maridos sérios das outras, também senhoras sérias, rodam a cabeça num ângulo de 95º

As mulheres sérias dos maridos sérios, roÍdas de inveja ,há muito que comentam por entre dentes em grupo de duas ou mais : -O marido deve ser "corno e cego". Olha-me para aquela blusa de licra que lhe marca as banhas (que por acaso ela até
nem tem), e a saia quando se baixa vê-se -lhe o rabo ...valia mais nem ter saia ,aquilo parece mais um cinto...

Mas, um dia destes, Paula, a tal espampanante e vistosa, no seu salão de beleza arranjou as unhas e tirou os pelos a uma das tais senhoras sérias que nesse dia tinha um jantar de amigas, também sérias, já se vê...

Paula, por casualidade,nesse dia foi jantar com o marido, o tal corno e cego, e para seu espanto !!! ...não é que a senhora séria, sim,aquela que tinha estado a arranjar as unhas, entre beijos,beijinhos e abraços estava a jantar com o marido sério da outra senhora séria, a Dª Augusta !!!!!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A Qué Mirar A Qué Permanecer...


Deixo aqui uma pequenina homenagem ao poeta Ángel González. Um poeta desconhecido para mim até ao dia em que um amigo se lembrou de me enviar vários poemas dele, poemas lidos pelo próprio poeta. Assim que comecei a ouvir as suas palavras, senti-me de imediato envolvida nelas, pela voz, pela força da mensagem, pela sensualidade, pelo amor e liberdade que elas transportavam. Para alguns, este, é um poeta do pessimismo, para mim, é um poeta do Amor e da Liberdade, um poeta que apela a um mundo mais justo e solidário. A sua morte, não teria tido para mim um significado tão grande, como teve, não fosse o facto de ela ter ocorrido poucos dias depois de ter conhecido a sua poesia. Deixou-me uma sensação de vazio este poeta recém-descoberto mas deixou-me também a certeza de que, nunca é tarde para descobrir pessoas em vida, mesmo que a vida dessas pessoas se tenha tornado tão curta após o momento da descoberta.
Fica aqui também o meu muito obrigada ao meu amigo Félix Menkar - http://neosofias.blogspot.com/ -
também ele poeta, por me ter permitido conhecer as palavras de Ángel González.

AHA

A qué mirar, a qué permanecer
Seguros de que todo es asi
Seguirá siendo...
Jamás pudo ser de outra forma
Compacto y duro
Este perfecto en su cadência
Mundo!...
Preferible es no ver
Meter las manos en un oscuro panorama
Y no saber qué es esto que aferramos
En un puro afán de incertidumbre, de mentira
Porque la verdad duele!...
Y lo único que te agradezco ya, es que me engañes
Una vez más
Te quiero mucho!...

(Ángel González)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Contra os espinhos da violência


A vida merece uma rosa


Eram sete horas da noite, ela entrou pela porta da esquadra do seu bairro e dirigiu-se ao balcão.
Estava de tal modo perturbada que se lhe tapassem a boca rebentaria.
Era um agente novo, principalmente bem educado e calmo que estava do outro lado.
Na sala estavam outras pessoas, cada um com seus problemas para resolver, mas ela nem reparou.
- Venho participar uma agressão, disse ela – tenho sido vítima de agressão psicológica por parte do meu marido e hoje foi física.
O agente perguntou, quando foi isso, ela respondeu, foi agora!
Depois deste episódio tudo se transformou na sua vida, nunca mais nada seria igual. Uma coisa ela sabia, não voltaria a estar de livre vontade de baixo do mesmo tecto com aquele que há 23 anos atrás tinha escolhido para partilhar a vida inteira.

Moral da história: viva a liberdade de escolha, um dia tens, no outro não tens nada, mas a vida continua e de tristezas está o inferno cheio, um viva à vida e ao amor que descobrimos que os outros, incondicionalmente tem por nós.

Uma história de vida

Quando se diz ou se escreve, mente-se! Mesmo sem querer, mesmo sendo gente séria, mente-se sempre!
E não há mal nisso, antes pelo contrário, compete-nos ver as coisas e dizê-las como melhor nos aprouver. Ficamos todos mais felizes e o criador menos envergonhado.
Eu, por exemplo, se é que posso ser de alguma coisa exemplo, feito Sancho, minto-vos pouco porque sou um espírito simples. Mas feito Quixote, invento tudo, é tudo mentira e eu gosto muito mais!
Quando sou eu próprio é que a coisa não corre tão bem: minto, mas fico cheio de problemas de consciência. E às vezes até vou logo a seguir pôr as coisas no são. Como agora.
É que fiquei a remoer nesta história de ter chamado Beatriz à outra ou Outra à Beatriz, conforme se quiser. E, como são pessoas diferentes, pode dar-se o caso de ficarem as duas ofendidas e eu, que ainda ando por aqui, ter de esclarecer as coisas, que é coisa que não quero.
Voltando à mentira, estão já a ver por aqui que, quando queremos corrigir as coisas, metemos os pés pelas mãos e damos connosco a pensar que mais valia ter deixado tudo como estava.
Portanto, pronto! A Outra, que me parece que até mora aí para Oeiras, passa a ser a Beatriz, mesmo não sendo!
Aliás, agora que estou a olhar melhor para a Beatriz, que depois dos cumprimentos do costume foi a cantarolar para a beira-mar, penso que apanhar conchas, até nem me importava nada que ela fosse a outra de agora, pois qualidades não lhe faltam.
Até o perfume que trouxe nos põe a pensar nas noites da Ana, nas mil e uma claro, que a Ana não tem noites, tem só madrugadas porque para ela, o sol só nasce, e nunca se põe.
Depois de servir o Champanhe à Beatriz, que foi logo, num correr, para o pé do mar e não nos ligou nenhuma, a Ana que fez de anfitriã e nos apresentou, mesmo sem conhecer a Beatriz, perguntou-me: e tu? Quando falas de ti?
Apeteceu-me dizer, nunca! Mas não se dizem assim as coisas e lá respondi que a nossa vida é a daqueles com quem nos cruzamos na vida. E fui pensando que até não estava mal pensado e … mais valia deixar as coisas como estavam.
Mas vou contar a história de um amigo, para não serem só histórias de amigas e a Rosário não me vir atazanar no éter a dizer que tive o abecedário. Que aliás não tive. Por exemplo não tive nenhuma amiga em que o nome começasse por c com cedilha.
A Ana, fingiu que não ouviu esta história dos nomes e encorajou – Conta.
E eu contei.
Naquele tempo, na altura da Ana e da Beatriz, algumas coisas estavam por um clic, como diz a nossa Ana. Havia a guerra a anunciar as independências em África e os jovens de então, com menos televisão mas com boa música, lá iam lendo umas coisas e tomando o seu partido, naquilo que estava para acontecer.
O António Augusto, teria nessa altura uns vinte e pouco. Magro e aloirado era conhecido pelos amigos por conseguir convencer Maomé a comer toucinho.
Para além da capacidade de argumentação, tinha o entusiasmo daqueles que sabem misturar a razão e o coração. Já casado e com uma filha, a casa dele servia de ponto de encontro, naquela época conturbada.
Na altura, para além da Universidade onde ia, às vezes, dava aulas a adultos. Decidiu ficar, para a construção de um país novinho em folha e lembro-me que, já perto da independência, estava envolvido num programa de alfabetização de adultos.
Falava pelas noites, num tal Freinet, pedagogo francês que lhe enchia as medidas e nós íamos ouvindo e aprendendo, aquilo que iríamos esquecer mais tarde, como toda a gente.
Em resumo, e para a época, estava como se dizia na linha da frente. Nas convicções e no tempo que dava de si, naqueles entusiasmos do país novinho em folha.
Calhou que numa esquina do tempo e da escola, em que também dava aulas, conheceu uma colega, bonita, inteligente, com uns olhos pretos imensos e um marido que conhecia a revolução toda e os que a estavam a fazer também.
Ainda andaram uns meses num desassossego. O António saía e entrava em casa consoante a consciência lhe pesava mais ou menos e lá iam fazendo das suas, e um belo par também, que eu lembro-me.
Toda a gente sabia, ou desconfiava, ou tinha a certeza, ou não tinha a certeza mas é como se tivesse. O certo é que um dia foram os dois chamados à escola e estavam à espera deles representantes de professores e de alunos. Era o mau exemplo, a conduta imprópria e se calhar o marido, que até era importante, embora bom rapaz.
Tanto quanto sei, ele preparou toda a argumentação nos segundos que demorou a sentar-se. Ela, provavelmente, já a sabia de casa.
A professora, depois dos entretantos, foi a primeira a falar e à frente de um António Augusto basbaque, fez aquilo que na altura se chamava uma autocrítica. Que reconhecia os erros, que não voltava a cair no pecado, ou de gatas não me lembro. Ele não disse nada, ou quase nada, porque na altura veio-lhe o coração e devia ter-lhe vindo a razão.
Ela, que tinha feito a autocrítica, ficou por assim mesmo. Ele iria no mês seguinte para uma cidade do Norte, onde não havia universidade na altura, mas agora já há!
Atarantado, lá foi arrumando ideias. O que deve ter sido difícil. Que quando o coração dói a cabeça também não ajuda nada.
Resolveu ir-se embora, que é uma coisa que se pode fazer quando se está no princípio, e ele estava, no princípio da vida.
Mas não foi assim tão fácil. Vejam que tinha de ir a casa e, sem mais, dizer à legítima que se iam embora e porquê! Estou a imaginar o que teria sido. Que eu bem te avisei sobre aquela delambida. E agora? Com uma filha de leite por esse mundo, sem nada garantido…
Como descalçou a bota não sei (e que ela estava apertada, estava). Sei que num fim de semana atravessou uma fronteira de carro, que depois tinha de atravessar outra no dia seguinte, que só atravessou uns três meses depois, que houve dias em que comeu só milho cozido e que … depois de umas aventuras apareceram em Lisboa, por um Abril, os três, que estive lá no aeroporto.
Em conversa, um dia destes, falámos desses tempos. Com o entusiasmo de sempre lá foi desfiando as pequenas histórias, e as outras, que parecendo pequenas são as histórias da vida. Aquelas que nos foram fazendo aquilo que agora somos.
Importante é que está bem, consigo e com a vida, que o presenteou com uma história que até dá para contar.

MUDASTE A NOSSA HISTÓRIA

Com os teu pedacinho de gente
Fizeste esta pessoa diferente
com muito mais coração
A ilusão foi-se embora
A revolta saiu para fora
Mas deu-me garras de leão

Pelos sonhos que apaguei
Por as noites que não dormi
E as preocupações que embalei
Por tudo o que vivi
E o que deixei de viver
Tenho que te agradecer

Por as alegrias que me deste
Por tudo o que já fizeste
E teres mudado a nossa história
Por todo o valor que tens
Hoje dou-te os parabéns
Por teres conseguido a vitória

Ana


Para a Rosário,mãe leoa.

AO MEU FILHO


Leva o mundo na sacola

O menino da escola

Autocolantes,

Barbantes, Dois peões, Muitos botões, Caricas...

E outras nicas

Livros são poucos

E rotos.

E lá vai todo contente

Pensando que já é gente.

À tarde quando regressa

Despe o casaco à pressa

E vai jogar ao abafa

E ganha o verde garrafa

Se vê a noite cair

Porque o sol vai a fugir

Foge p'ra casa também

Senta-se ao colo da mãe

E pede para lhe contar

Uma história d'encantar

Quero a do patinho feio!

Pede cheio de receio

E nos olhos rasos d'água

Advinha-se a mágoa

Que vai no seu coração

Porque o pato brincalhão

Foi cair na injustiça

Que lhe armou a cobiça

E ali naquele regaço

Adormece de cansaço

Porém o tempo passou

Tudo com ele levou

Autocolantes

Barbantes

Dois peões

Muitos botões

Caricas e outras nicas

Lembras tu com saudade

E diante da verdade

De não poderes voltar

Descuidado a brincar

Aceita o meu conselho

Oh! meu menino já velho

Vê a gaivota voar

O Céu, a Terra e os Mares

Tudo são espaços teus

Por onde andares

Cuida-te filho

Que foste um presente de Deus




Para a Ana Coragem

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Palavras...


Enroscada no sofá, ela tentava escrever mas as palavras acotovelavam-se em conflito e todas queriam saltar para o papel ao mesmo tempo. Todas se achavam importantes. Umas, achando que eram mais importantes do que outras. A razão, altiva como sempre, não dava lugar ao coração e este, que até então tinha sido completamente subjugado por ela, achou que estava na hora de se impor e lutar para que a doçura das suas palavras anulasse por completo a frieza das palavras que a razão impunha! Sem conseguir meter ordem nas emoções, pousou a mão sobre o papel, encostou-se e tentou organizar os pensamentos.
Na penumbra da sala, o silêncio era pesado. Sem dar por isso, o dia dera lugar à noite e ela ali, estática, só conseguia pensar nas conversas partilhadas, no desejo que explodia entre uma frase e outra, num passado que não sendo longínquo lhe parecia ter sido há “séculos,” num tempo em que os dias eram quentes e de riso e as noites aguardadas com pressa, com a pressa de quem não podia esperar mais...
Sentiu-se tocada pela magia desse tempo e as palavras começaram a surgir harmoniosamente sem conflitos, numa envolvência perfeita.
E dando forma a uma boca ausente beijaram-na com doçura.
Sorrindo, começou a escrever...
AHA

A MENINA QUE MUDOU A HISTÓRIA



Quando olhamos o Mar imenso temos que aprender a procurar as pequenas pedrinhas que o habitam-disseste-lhe, um dia.
- Não as descures porque é saltitando de pedrinha em pedrinha que tu o poderás atravessar, sem sucumbir.
Ahh, como ela sabia do que estavas a falar...
Sorriu. Voltou atrás no tempo, àquele tempo em que tinha tanto tempo para sonhar, mas que não tinha tempo para imaginar que um dia, e estava a ser agora esse dia,um ser tão pequenino lhe iria ensinar as coisas maiores que agora sabe.
Há verdades tão verdades que parecem mentira e, ela não queria acreditar, nem aceitar, que aquela era agora a sua verdade, que aquela criança era a sua. Não! Não era aquele o bebé que pedira, que sonhara, que idealizara... só podia ser um pesadelo, e certamente iria acordar e o seu bebé ainda estava na sua barriga.
Foi nesse dia, ou talvez nos dias seguintes, que ela aprendeu a olhar o Mar e as pequenas pedrinhas que o habitam. Foi nesses dias que chorou a morte daquela filha que não nasceu e que teve que aprender a cuidar e a amar (sim a amar, porque não era esta criança que ela já amava), esta outra filha que não sonhara. Foi nesse dia que a sua história mudou. Começou um novo livro e destruiu o primeiro.
E, olhando esse mar,que via pela janela daquela enfermaria de hospital, tantas vezes, sentada ao lado da cama da sua menina, ela jurou a si mesma que havia de provar àqueles médicos que estavam enganados e, que nenhum deles tinha o direito de prever o futuro daquela criança. Como poderiam eles dizer-lhes que a sua menina nunca iria andar? Que direito tinham eles de dizer que a sua menina nunca iria aprender a ler? Foi olhando as pedrinhas que habitavam esse Mar que ela jurou que iria ensinar sua menina a andar e ajuda-la a ser doutora.
E, foi saltando de pedrinha em pedrinha sem sucumbir, que ela, passados 22 anos, junto ao Mar, assistia à queima das fitas da sua menina, à procura de outra pedrinha para poisar a emoção.
Passados tantos anos, ainda tem dentro dela, pedaços envolventes dos dias, meses anos que carregou a dor ao colo e que, por vezes, quase a afogavam em sensações reais… Tão dentro dela… mas continua a procurar as pedrinhas que no Mar habitam.
Há sempre um lugar onde a alma perde aquele tom preto e branco e ganha cor, vida, voz… E é nesse lugar que ela às vezes se fecha por um bocadinho, para imaginar a outra história que não escreveu, para sonhar, imaginar, compreender e tentar entender porque razão falta um herói nesta história, porque razão ele abandonou a história tão no princípio…
Sabes agora porque sorriu ela quando lhe falaste nessas pedrinhas? É que ela ainda tem tatuadas no coração as marcas de tantas,t antas pedrinhas desse Mar. Tantas quantas as cicatrizes de cirurgias que a sua menina tem nas costas, nas pernas e nos pés. Tantas quantos os dias,os meses, os anos que passaram naquele quarto de hospital e em tantos outros , carregando o tempo aos ombros...

Hoje quando recorda o futuro que poderia ter tido, feito de recordações do passado imaginado, olha para a sua menina ... e sabe que a outra filha que não nasceu jamais lhe teria dado as alegrias que esta filha já lhe deu. Ainda chora a filha robusta e saudável que sonhou, mas jamais a trocaria por aquele quilo e oitocentos de gente que nasceu deficiente e que hoje lhe diz:
-Obrigada,mãe, por teres acreditado em mim e por me teres ensinado a olhar as pedrinhas que habitam no Mar. E, é com um sorriso a saltar dos olhos que ela lhe responde sempre:
- Obrigada, filha por teres nascido diferente!

sábado, 6 de setembro de 2008

Zorba


“Sou fraco, efémera criatura feita de barro e sonho. No entanto, sinto todo o poder do universo girando dentro de mim…"
(Nikos Kazantzakis)


Era quase noite, em grupo, saímos do Cinema Monumental, apesar de tarde, ainda dava p’ra irmos tomar um café à ‘Paulistana’, um café que hoje já não existe, aliás como tantos outros infelizmente, nem mesmo o cinema existe mais. Nesse espaço, figura mais um centro comercial igual a tantos outros. A propósito, o cinema do meu bairro também já não existe. ‘Hollywood Residence’ é o nome sugestivo do novo complexo comercial. A temática cinéfila escolhida para baptizar este empreendimento, que integra quatro “salas” - caixotes, digo eu - de cinema, é o que resta da memória do lugar. O velho cinema morreu. Depois de uma lenta agonia.
Entrámos ruidosamente no café, - tínhamos entre quinze e dezassete anos - o clima era de festa, o que acabáramos de ver e ouvir não nos saía da cabeça e forçava os pés p’ra dança. Ocupámos duas mesas, juntámo-las e aí ficámos durante algum tempo a discutir o filme. Uns tinham gostado, outros saíram incomodados, tinham achado o personagem patético demais.
Patético!...
Volvidos estes anos chego à conclusão de que patéticos seríamos todos, se não disfarçássemos…
Alexis Zorba não disfarçava, não sabia, era uma força da natureza! Ignorante no sentido de não intelectual mas sábio do amor e da vida, ele vivi-a como uma dádiva, com a ternura de quem lhe presta homenagem mas também com voracidade e exuberância em relação a tudo o que deseja. Leva-nos a questionar a maneira como vivemos, um dia após o outro, sem sabermos saborear cada minuto que nos é dado viver.
- Gostaria de morrer como ele, ao sentir que o fim se aproximava ainda teve coragem para ir à janela com uma vontade louca de ver e sentir a beleza da manhã -
O filme começa com a chegada de Basil, um jovem e tímido escritor inglês, que chega à ilha de Creta, na Grécia, a fim de tomar conta de uma mina que herdou do pai, uma mina abandonada que apesar de todos os esforços, não consegue recuperar. Na ilha, ele conhece Zorba, homem rude mas de uma enorme sensibilidade, ele tem estampada no rosto a alegria duma criança e a coragem de tudo querer, como só as crianças sabem ter. Depressa se prontifica a ajudá-lo. Começa aqui uma enorme amizade que se transforma numa lição de vida para o jovem escritor que, a pouco e pouco passa de observador do mundo a participante.
E é precisamente aqui que reside a grande força do filme. O pragmatismo emocional de Zorba que vive com a necessidade e a coragem de quem quer aproveitar ao máximo tudo o que a vida lhe dá, desde a mais simples das amizades, passando por uma refeição ou a luta pelo amor de uma mulher e o comportamento de Basil, que vive e vê tudo de um ponto de vista racional.
Não vou contar as cenas do filme. Os que viram, recordar-se-ão delas e os que não viram, vejam, vale a pena, (existe em DVD) mas vejam com o coração…
Pretendi apenas e só, deixar aqui o meu olhar sobre o filme, Zorba tocou-me o coração, fez-me reflectir e exerceu sobre mim a vontade de me conhecer melhor e tentar melhorar em muitos aspectos - não sei se consegui, eu era muito jovem quando vi este filme - Realço ainda a banda sonora de Mikis Theodorakis, inesquecível! Tal como a cena final, na praia, talvez a mais comovente, onde assistimos à dança entre os dois homens, um hino à amizade verdadeira e desinteressada. Podemos ver o tímido escritor deixar de recalcar as emoções e pedir a Zorba que o ensine a dançar e ri, ri como nunca o fizera em toda a sua vida.
Recordo ainda a paisagem árida e as mulheres. Viúvas para sempre, as mulheres vestidas de negro, carregavam o medo no olhar, um olhar duro mas de uma grande doçura. Irene Papas, encarna uma delas e fá-lo magistralmente, uma figura trágica e forte, de olhar duro e corpo de desejo reprimido, que ela não reprimia e por isso mesmo foi morta.
Zorba, é um cântico à liberdade humana. É a sabedoria, presente nas almas mais simples. Aqui, percebemos como podemos ser vulneráveis e ao mesmo tempo fortes perante as adversidades da vida, um exercício de tolerância entre as pessoas e a ironia de viver e estar sujeito a qualquer coisa. Admirável e bela é também a fotografia a preto e branco, uma estética muito própria e fascinante!
AHA



"A loucura é uma força da natureza, ao passo que a estupidez é uma debilidade da natureza sem contrapartidas..." (Italo Calvino)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Conto 2 - Beatriz

A Ana é uma companhia excelente. Sabe quando falar e quando calar, coisa que não acontece comigo que só sei que devo falar. O que certamente não é certo.
Quando viu que o champanhe me estava a dar para o sentimento lá me foi entretendo e não parou enquanto não me viu com menos sede. Mas estava calor de facto, portanto perdoe-se-lhe porque tinha razão e como já vos disse, aquelas bolhazinhas do champanhe no nariz só nos podem pôr bem-dispostos.
Costas com costas, já sentados, lá nos fomos deixando ir até que o silêncio se fez de um ligeiro marulhar do mar, que convidava a divagar.
A Beatriz andava em História, aluna brilhante, acabou as distinções todas em Coimbra onde muito mais tarde eu viria a viver.
Filha de uma família dada à Igreja, pertencia a uma associação cristã qualquer e dividia o tempo entre a Universidade, o ballet e uma espécie de namoro comigo.
Dela recordo principalmente duas coisas: o olhar verde e determinado e a pergunta que me fazia às vezes "mas afinal o que é que queres tu da vida?". Eu lá ficava pensativo. Ainda não sabia que todos queremos simplesmente ser felizes, embora a gente se esqueça disso. Amiúde!
Na altura, eu usava as habituais "jeans" e, agora que me lembro, sempre camisas azul-claro, intemporais de tão puídas. Consertava-me tudo um ar de menino perdido, que a Ana viria a herdar pouco tempo depois.
Não foi nada sério, parece-me, mas o que é certo é que me lembro daqueles olhos verdes que ainda mal sabiam a mulher. E ficou-me dela um certo sentido de consciência - "o que é que queres tu da vida?".
Deixei de a ver quando foi para Coimbra acabar o curso.
Um dia, já por 76, estava eu em África e reparei, na rua, numas calças em camuflado, botas de tropa a sério, uma metralhadora, e, por cima, um cabelo loiro que não veria água há um tempo. Tudo encimado por uns olhos verdes, determinados, sérios. Era a Beatriz!Estivera na guerrilha desde 73, tinha estado no desfile da independência e eu tinha estado nas bancadas do estádio a assistir.
Retribuiu dois beijos, e seguiu. O que soube dela foi por amigos comuns.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Dia 2

















Início de Dezembro, fazia frio.....

Era quase meia noite, ainda não tinha havido um minuto de silêncio entre nós, conversávamos como se estivessemos juntos há cinco minutos e afinal já lá iam duas horas.Tinhamos falado de tudo um pouco, como velhos amigos e afinal era só a segunda vez que nos encontrávamos.
Meia a rir, meia a sério, com aquele meu jeito de quem vai dizer coisa importante, disse-lhe
- Estou com uma dor de corno que não me aguento!
- Nunca tinha ouvido uma mulher a admitir esse sentimento- disse-me a olhar-me nos olhos, meio admirado, meio a sorrir.
- Porque não havia de o admitir se é verdade? Ele foi o homem da minha vida, dei-lhe tudo o tinha para dar e ao fim de quase trinta anos troca-me!!!!
- O que é ser o homem ou mulher da vida de alguém? Pergunta ele, com a pose de quem ia iniciar um debate temático, recostando-se no sofá como quem espera que a resposta seja um " não sei"
Mas eu sabia!
- É aquele que nos faz passar o risco, que por ele esquecemos os nossos limites sejam eles quais forem......
Olhou o bar do hotel onde estávamos e reparou que já só restávamos nós. Até as pessoas que tinham vindo comigo, para tomarmos um café, já se tinham despedido há algum tempo.
- Vão querer fechar o bar já reparou que já só estamos nós?
- Pois é! não dei conta! amanhã é dia de trabalho, também tenho de ir, não demos conta do tempo passar.
- Mas ficou um tema interessante pendente! Jantamos amanhã?.................


Um dia contarei o dia um, o dia três também o contarei, e quem sabe, talvez o quatro. Mas os seguintes talvez não, porque há coisas impossíveis de contar, só possíveis de sentir

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Conto 2 -história na praia


Cheguei pelas duas da tarde. A praia estava praticamente deserta, só uma brisa suave temperava um Julho já no fim. Champanhe, gelo, taças e restante palamenta, estavam à sombra. Abri uma garrafa!
Sou habitualmente desas-trado. Em jantar com algum cerimonial, toalha branca e vinho tinto, eu serei, de certeza, o autor da desgraça. Mas convivo filosoficamente com isso (estou-me nas tintas, portanto). Ainda há bem pouco tempo entornei um jarro (diz-se decantador para parecer bem, mas é um jarro na mesma), com um qualquer néctar dos deuses, na melhor toalha de um amigo.
A única coisa imperdoável foi o sorriso com que brindei a senhora ao lado, a quem não pude explicar que sorria apenas à minha proverbial tendência para o desastre e que saiu da sala entre um arrastar de cadeiras, um vestido a cheirar a trapo com álcool e o habitual espalhafato de pratos, talheres e murmúrios de "dá sorte…".
Como seria de esperar, também desta vez entornei uma parte do champanhe na camisa, mas até foi bom, para além do luxo, (melhor que banho de champanhe só leite de burra), acentuou o ar despreocupado que tinha decidido exibir às minhas amigas e, de resto, o calor se encarregaria de me pôr decente.
Dei por mim a rememorar coisas antigas.
A Ana. Conheci-a na Universidade, teria eu uns vinte mal medidos e ela provavelmente trinta. Eu cheio de virtude (isto quer dizer virgem), ela com uma filha já. Eu aspirante a engenheiro e ela quase médica.
Claro que o primeiro passo foi dela. O entusiasmo foi meu e, dois dias depois de nos conhecermos vivíamos juntos, com toda a naturalidade! Recordo-me que, mais tarde, o meu pai terá dito que não admitia que um filho seu vivesse em estado de mancebia.
Não percebi o que quis dizer mas passei de jovem a homem feito. Escolhi a Ana.
Hoje teria ido ao dicionário, escolhido a Ana e desculpado o pai.
Já não a vejo há anos! Talvez trinta e poucos ou trinta e muitos. Separámo-nos cerca de um ano depois, por qualquer razão, ou por nenhuma razão, não sei bem.
Dizem que não há amor como o primeiro.
Não sei se aquele foi o primeiro, nem sei se foi amor. Sei que, na vida, tenho um antes da Ana e um depois da Ana. Na maneira de estar, na forma como me relaciono com uma mulher, nos valores que tento cultivar, naquilo de que mais gosto em mim.
Em tudo está a Ana, não como um desgosto de amor, não como qualquer coisa que se perdeu. Simplesmente está.
-Desculpa, és o Nelson? Eu sou a Ana.
-A Ana? Arregalo os olhos!
-Desculpa! Estava a pensar noutra Ana. Estava a pensar noutra pessoa disse eu numa atrapalhação. Tenho um grande prazer em estar contigo!
Dei-lhe um abraço, ela sorriu e servi-lhe uma taça de champanhe enquanto procurava acertar o relógio do tempo com o da vida.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

As Pontes de Madison

"Sorte de quem já teve a sua Ponte de Madison”


Dedicado ao Nuno


Uma velha caixa, dentro um segredo guardado tantos anos como a eternidade.

Podiam os filhos prever esta herança deixada pela sua mãe Francesca ... para Michael e Carolyn era simplesmente insuportável a ideia de dispersar as suas cinzas no rio e era o que acabariam por fazer, emocionados.

No diário encontram uma revelação – sentimentos, emoções, paixão - para eles tão intensos como impossíveis de terem sido vividos pela mãe.
Ficam a saber da breve relação – quatro dias! – de Francesca com Robert, ocorrida em 1965.
Ficaram a saber que a mãe, uma mulher madura, esteve pronta para viver e viveu, pela última vez, uma grande paixão. Ficaram a saber como ela sacrificou o seu amor pela família.





Eles revivem todo o romance através do seu diário. As atmosferas de iluminação à luz de velas, com um bom copo de vinho e uma boa música. Todas as cenas, consequência umas das outras, são encadeadas, com naturalidade e suavidade. Em breves momentos, sem efusões nem histeria, tudo é dito da maneira mais simples e mais evidente possível. O amor, a ternura!

O instante em que os dois amantes se vêem pela última vez marca quem leu, viu ou imaginou aquela cena ... ela aperta a maçaneta do carro, prestes a sair ... e fica imóvel! Os dois carros, o de Robert e o que o marido dirige, tomarão para sempre direcções opostas.

Robert nunca mais teria uma relação tão intensa como a que acabou de viver com Francesca.
A partir de então, para além do tempo e das distâncias, eles estariam unidos por uma pequena cruz, lembranças cada vez mais amareladas, antes que – para sempre – as suas cinzas se misturassem.

Os filhos tomam conhecimento que Robert teria morrido e deixado para a mãe um álbum de fotografias, chamado “Quatro Dias”, e que as suas cinzas haviam sido lançadas da ponte Roseman. Compreendem então os motivo do desejo da sua mãe e lançam da ponte ao vento as suas cinzas.

Quer queiramos, quer não, todos pensamos em nós próprios, nas nossas próprias relações amorosas. Todo mundo, num determinado momento da vida, viveu – ou sonhou viver – uma grande história de amor.

Cada um de nós tem um pouco de Robert, um pouco de Francesca.

E não será isso mesmo que todos procuramos? O que nos move são as emoções!

"Sorte de quem já teve a sua Ponte de Madison”