segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A MENINA QUE MUDOU A HISTÓRIA



Quando olhamos o Mar imenso temos que aprender a procurar as pequenas pedrinhas que o habitam-disseste-lhe, um dia.
- Não as descures porque é saltitando de pedrinha em pedrinha que tu o poderás atravessar, sem sucumbir.
Ahh, como ela sabia do que estavas a falar...
Sorriu. Voltou atrás no tempo, àquele tempo em que tinha tanto tempo para sonhar, mas que não tinha tempo para imaginar que um dia, e estava a ser agora esse dia,um ser tão pequenino lhe iria ensinar as coisas maiores que agora sabe.
Há verdades tão verdades que parecem mentira e, ela não queria acreditar, nem aceitar, que aquela era agora a sua verdade, que aquela criança era a sua. Não! Não era aquele o bebé que pedira, que sonhara, que idealizara... só podia ser um pesadelo, e certamente iria acordar e o seu bebé ainda estava na sua barriga.
Foi nesse dia, ou talvez nos dias seguintes, que ela aprendeu a olhar o Mar e as pequenas pedrinhas que o habitam. Foi nesses dias que chorou a morte daquela filha que não nasceu e que teve que aprender a cuidar e a amar (sim a amar, porque não era esta criança que ela já amava), esta outra filha que não sonhara. Foi nesse dia que a sua história mudou. Começou um novo livro e destruiu o primeiro.
E, olhando esse mar,que via pela janela daquela enfermaria de hospital, tantas vezes, sentada ao lado da cama da sua menina, ela jurou a si mesma que havia de provar àqueles médicos que estavam enganados e, que nenhum deles tinha o direito de prever o futuro daquela criança. Como poderiam eles dizer-lhes que a sua menina nunca iria andar? Que direito tinham eles de dizer que a sua menina nunca iria aprender a ler? Foi olhando as pedrinhas que habitavam esse Mar que ela jurou que iria ensinar sua menina a andar e ajuda-la a ser doutora.
E, foi saltando de pedrinha em pedrinha sem sucumbir, que ela, passados 22 anos, junto ao Mar, assistia à queima das fitas da sua menina, à procura de outra pedrinha para poisar a emoção.
Passados tantos anos, ainda tem dentro dela, pedaços envolventes dos dias, meses anos que carregou a dor ao colo e que, por vezes, quase a afogavam em sensações reais… Tão dentro dela… mas continua a procurar as pedrinhas que no Mar habitam.
Há sempre um lugar onde a alma perde aquele tom preto e branco e ganha cor, vida, voz… E é nesse lugar que ela às vezes se fecha por um bocadinho, para imaginar a outra história que não escreveu, para sonhar, imaginar, compreender e tentar entender porque razão falta um herói nesta história, porque razão ele abandonou a história tão no princípio…
Sabes agora porque sorriu ela quando lhe falaste nessas pedrinhas? É que ela ainda tem tatuadas no coração as marcas de tantas,t antas pedrinhas desse Mar. Tantas quantas as cicatrizes de cirurgias que a sua menina tem nas costas, nas pernas e nos pés. Tantas quantos os dias,os meses, os anos que passaram naquele quarto de hospital e em tantos outros , carregando o tempo aos ombros...

Hoje quando recorda o futuro que poderia ter tido, feito de recordações do passado imaginado, olha para a sua menina ... e sabe que a outra filha que não nasceu jamais lhe teria dado as alegrias que esta filha já lhe deu. Ainda chora a filha robusta e saudável que sonhou, mas jamais a trocaria por aquele quilo e oitocentos de gente que nasceu deficiente e que hoje lhe diz:
-Obrigada,mãe, por teres acreditado em mim e por me teres ensinado a olhar as pedrinhas que habitam no Mar. E, é com um sorriso a saltar dos olhos que ela lhe responde sempre:
- Obrigada, filha por teres nascido diferente!

6 comentários:

Anónimo disse...

Pois é Ana. O teu texto tira-nos a respiração, pela filha, mas muito pela mãe! E temos de ser muito cautelosos porque as palavras andam no fio da navalha...e mesmo contando vitórias (foram vitórias) o caminho terá deixado os pés em sangue. Por isso me retiro. Quanto à forma está muito bom, como era de esperar, quanto ao que ele encerra de angústias, mesmo passadas, um beijo para ti. Mereces todo o nosso respeito, até por o teres escrito.
Romeiro

rosario disse...

Às verdadeiras Mães Coragem!!!!!!! BEM HAJAM!!!!!!!!!!!!!
Eu tenho lidado, como voluntária, com instituições que se dedicam as crianças diferentes, sempre que estou com elas aquecem-me o coração com a sua alegria e a sua generosidade. Só mesmo sentindo.....
Estas pessoas maravilhosas é que nos fazem sentir diferentes......

Nux@ disse...

Um dia, faz no mês de Maio 15 anos, disseram-me: “Porque chora esse feto que trás dentro de si? Se está para o perder é porque não tem condições de vida, não o pode considerar bebé!”

Na hora odiei tanto aquele médico, seria capaz de qualquer coisa para o fazer cair na real, mas não valia a pena, tinha outros mais onde gastar as minhas forças. Sai do consultório e fui directa ao banco do Hospital. Tem coisas que não se conseguem explicar, o amor que podemos ter por um filho ainda não nascido é uma delas, só se sente na alma, no coração, parece que mais nada conta!

Hoje a Rita tem 14 anos, fará os 15 anos em Dezembro e esse médico terá sempre uma cruz em cima dele enquanto me lembrar do que me disse, e isso será sempre.

Como poderá uma mãe desistir de um filho, mesmo com diferenças? Nunca! Pois o amor nasce no momento em que se sabe estar dentro de nós um novo ser.

Parabéns Ana, pela coragem de todos os dias.

Mil beijos com cheirinho a bebé

Anaquariana disse...

Há mulheres que voam como os anjos.
Sempre disponíveis para voar, elas sabem que não há nada que não possam abraçar.


Um abraço pela coragem.
Maior que as emoções que nos movem.
É o amor que nos conduz.

ANA MARIA CARIDADE disse...

Obrigada a todos.
Todos temos uma história,e este realmente é o capítulo mais importante da minha história.Não sou heroína,qualquer uma de vós teria feito o mesmo,eu sei.
Sim,maior que as emoções que nos movem,é o amor que nos conduz.E haverá amor maior que o amor de mãe?
Um,dois,três,quatro...muitos beijos para todos.

ps-Gosto muito de vocês!

Anónimo disse...

Ana,
Como é belo esta confidencia do ser Mãe! Parabens Ana Coragem, bem que mereces este nome!
Linda, soltastes estrelas no meu olhar.
Adoro-te.
Maria da Lua