Amélia cresceu como nasceu, sozinha. Sobre o pai e sobre a mãe nunca lhe disseram e nunca perguntou. Um dia o feitor mandou chamá-la à sala grande, onde só se ia para as visitas e para as ocasiões, teria ela uns treze anos, mais um que Francisco. Estava a Senhora a dizer, que os assuntos de família são para tratar em família e que não percebia que se chamasse a miúda, quando ela entrou. Que ia já perceber disse o feitor e lá foram continuando a altercação, ela sentada, às voltas na mão com um lencinho branco bordado, ele junto à janela, a olhar os hibiscos, lá fora, a pingarem a chuva, e às voltas com um embrulho de nada, em papel pardo.
A tua mãe morreu Amélia, mandou-te isto. Morreu em Paris e mandou-te isto, depois podes abrir …a tua mãe era minha irmã Amélia. Disse o feitor num fôlego, à justa antes da Senhora desmaiar sem ar. Entrou a criada na sala, chamou outra criada e, do que se lembrou para sempre, foi do olhar macio do feitor, que para ela tinha sempre, mas desta vez tão macio que não percebeu tudo senão depois de pensar, no sossego do quarto, sozinha.
O embrulho não tinha nada, só um lenço de seda. De seda vermelho-sangue com um perfume quente e forte, talvez forte demais, talvez quente em demasia.
Sra. D. Maria Amélia, espreguiçou-se, olhando-se no espelho. Hoje, tinha sentido reticências em se levantar, custara-lhe a diferença da temperatura morna e acolhedora do seu vasto leito e, a temperatura que fazia cá fora.
Enquanto escovava os cabelos de uma brancura alva, fixava as linhas do rosto, marcado pela já avançada idade. Outrora tinha sido bela, beleza que apesar de tudo mantinha, sorriu satisfeita.
Vestiu-se cuidadosamente e depois de um frugal desjejum, acomodou-se no sofá junto à janela de onde podia observar a praça, a luz e o mar que hoje tinha o azul dos seus olhos.
Aguardava Maria, que o infeliz ou feliz acaso trouxera à sua vida, pois se não fosse aquela queda, nunca o seu filho teria teimado em pôr-lhe dentro de casa uma estranha para a acompanhar. Hoje dava graças por finalmente ter cedido à teimosia do filho, que longe em Lisboa, se sentia assim mais sossegado.
Maria levantou-se de um salto. Vestiu-se rapidamente, lavou o rosto e escovou o cabelo. Teria de se apressar ao encontro de Sra. D. Maria Amélia. Sentia no corpo uma lassidão fora de comum, os seus gestos tornaram-se mais lentos e cobrindo o rosto com as mãos chorou deixando escapar um pequeno gemido que do coração lhe subia. Olhando-se ao espelho voltou a lavar o rosto e disfarçou o vestígio das lágrimas e das dores ocultas que a afligiam. Saiu rapidamente para o ar frio deste inicio de dia de Inverno, não sem antes depositar um beijo na cara do filho que ainda dormia.
Maria Amélia sorriu ao ouvir a chave na fechadura, Maria chegara pontual como sempre. Tinha estado a pensar em como já não podia passar sem a presença daquela pequena mulher, de olhar triste e doce, forte como o aço e de voz quente como as tardes de verão.
E a rotina começou. Maria Amélia limitava-se a observar Maria, que no seu movimento compassado mas de uma suave firmeza sacudia os lençóis e lhe fazia a cama impecavelmente, que sacudia tapetes e o pó que se alojara nos móveis, que abria as janelas para que a casa respirasse o novo dia e lhe trazia flores sempre que passava pelo mercado.
Como eram fantásticos os dias passados juntas, saboreava cada momento tal como saboreava cada refeição que Maria preparava para ambas. Por vezes Maria, sorrindo com os seus olhos tristes, arrancava-a de casa dizendo: -“Vamos Sra. D. Maria Amélia, o Sol e o Mar convida-nos para um passeio e não vale a pena dizer que não, temos saudades do dia e da vida, não é assim?” – Noutras vezes, em que os dias nasciam tristes e chuvosos, sentavam-se na pequena e confortável sala, aquecidas pelo calor crepitante da lareira enquanto Maria com a sua voz rouca e baixa lia para ambas todos os livros da sua vasta biblioteca.
Maria Amélia notou uma vez mais a tristeza e os vestígios das lágrimas derramadas de manhãzinha por Maria. Compadecida perguntou-lhe docemente: -“que tens Maria? – A resposta já a conhecia, pois sempre que lhe perguntava a razão desta tristeza, Maria respondia: -“Nada, Sra. D. Maria Amélia, nada. Talvez saudades do Amor ou saudades de casa.” E fechava-se no seu quieto mutismo.
Maria Amélia contava-lhe então histórias do passado e Maria sorrindo partilhava consigo, as suas próprias histórias; sim porque Maria também ria e quando entre conversas e confidências dividiam as experiências vividas, por vezes o brilho do seu olhar irradiava a qualquer coisa parecida com a suave esperança de uma magia até então desconhecida.
Maria Amélia dava por si a pensar,” se um dia eu pintasse a esperança ela teria a cor do brilho do olhar de Maria”.
A noite aproximava-se já de mansinho e como habitualmente Maria acompanhava-a na sua higiene diária antes de a ajudar a deitar-se, aconchegava-lhe a roupa ao corpo e sentava-se ao seu lado na “senhorinha” de veludo azul da cor do céu, de que tanto gostava, lendo-lhe a poesia de O’ Neill até que as suas pálpebras cedessem ao doce chamamento do sono.
Maria Amélia sonhava com as estrelas, com o mar, com o homem que um dia tinha amado, pai dos seus filhos e que a aguardava na casa da qual Maria sentia saudades Maria, colocou o livro suavemente sobre a mesinha de cabeceira, ajeitou uma vez mais as cobertas do leito e depositando um pequeno beijo na testa da idosa senhora, fechou atrás de si a porta do quarto, de mansinho.
Saindo para o ar gelado da noite, não sentiu o frio, o seu pensamento estava com a senhora que acabara de deitar e olhando o vasto céu estrelado, numa prece profunda agradeceu, sabendo reconhecida, que esta senhora se apresentara a si, como o Amor numa das suas múltiplas faces.
Chegou a casa. Dedicou-se às tarefas necessárias do seu lar, escutou e brincou com o filho, até que ambos cansados adormeceram.
Estava só, apenas aparentemente.
No dia seguinte, alguém a aguardava, a Sra. D. Maria Amélia.
Obs: A História e os nomes das personagens, são pura ficção.
E porque hoje se comemoram 60 anos sobre a proclamação dos Direitos do Homem, aqui fica para relembrar as mentes mais esquecidas.
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo; Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos humanos conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração humanos; Considerando que é essencial a protecção dos direitos humanos através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão; Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações; Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais humanos, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla; Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos humanos e das liberdades fundamentais; Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso: A Assembléia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
Artigo 1° Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 2° Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.
Artigo 3° Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo 4° Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.
Artigo 5° Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Artigo 6°Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento, em todos os lugares, da sua personalidade jurídica.
Artigo 7° Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 8°Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.
Artigo 9°Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.
Artigo 10° Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.
Artigo 11°Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
Artigo 12° Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
Artigo 13° Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
Artigo 14° Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 15° Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo 16° A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.
Artigo 17° Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
Artigo 18°Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19°Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.
Artigo 20°Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo 21° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios, públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
Artigo 22° Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.
Artigo 23°Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para defesa dos seus interesses.
Artigo 24°Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e as férias periódicas pagas.
Artigo 25°Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozam da mesma protecção social.
Artigo 26° Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional dever ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos humanos e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz. Aos pais pertence a prioridade do direito de escholher o género de educação a dar aos filhos.
Artigo 27° Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
Artigo 28° Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.
Artigo 29° O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Artigo 30° Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.
Estes são os náufragos das estrelas, a eles, nenhum destes direitos é garantido, a começar pelo direito ao sonho!...
Os tempos vão mudando e os homens mudam com os tempos, certo é que, naquele tempo, o casamento combinado pelas famílias durava a eternidade da vida.
Já o amor, quando havia, fazia do tempo voragem que se não sente a fugir, e da vida um de repente, enquanto se não combina, ficar-se assim para a vida.
Assim era naquele tempo, como neste tempo é também.
À Cândida combinaram-lhe o destino as duas famílias. Ainda de bibe, não sabia que viria a casar com Adelino, o mesmo que iria tentar a vida em S. Tomé, com o favor da carta de chamada do primo padre, homem ilustre e de grande descendência, que por aquelas terras prégava. E prégava bem. Que os desatinos na terra se pagavam num inferno de fogo e que a miséria da escravidão se viriam a sentar, noutro mundo, à direita de um deus pai, que era o deus a sério e o único, embora fossem três. O único, para além dos feitiços milenares que tomavam conta das sanzalas à noite.
Não sabia ela do destino já traçado mas sabia o pai que lhe desintrincara o novelo da vida. E sabia o pai dele também, pois se há coisa conveniente de saber-se é o futuro, mesmo o dos outros.
Foi fácil a adaptação àquela vida. Passados poucos meses já era a Senhora que nunca fora mas que sabia tão bem ser, ao paladar de quem nunca tivera nem mordomias nem pão que sobrasse. Para tudo e para o resto havia empregados, ou criados, ou moleques.
Para tudo e para nada, competia-lhe ser a Senhora, a quem os olhos se baixavam e a quem se pedia para interceder junto ao feitor e, mais tarde, até junto ao Governador, quando já era visita das melhores casas da cidade.
Mas lembrava-se ainda do sufoco que sentira quando, ainda sem saber, passara pela sanzala da roça e chocara com o corpo musculado, suado, quase sobrenatural na sua natureza, de um dos trabalhadores da pedra.
Ele, num susto, quedou-se com os olhos do tamanho do mundo, ela entaramelou, a fugir com os dela presos naquele ébano molhado que lhe sufocou o sono das noites, enquanto o tempo a ia moldando Senhora e o desejo ia adormecendo depressa nos sentidos.
Fui à Lagoa Amélia, em S. Tomé. De facto é uma enorme cratera cheia de água doce, da chuva de sempre, que um grande novelo vegetal foi cobrindo, a flutuar.
Sem se saber é um prado verde, onde a erva, mais ou menos rasteira, espera em armadilha os que queiram atravessar por ali a floresta densa. Onde parece bem, por ser mais fácil… O nome, diz-se, tem origem numa mulher que um qualquer desgosto de amor, de que ninguém sabe pormenores, terá precipitado, num galope, a travessia de morte. Ouvi lá a história por entre bagas de chuva e fiz-me recuar no tempo, que os contos têm de ser imaginados para serem verdadeiros…
I
Amélia S.Tomé
Teria uns dezanove anos. A pele era de baunilha, clara como branco, com uma trança negra, grossa, a contrastar até o laço de pano sangue, roçar a cintura.
O porte era, todo ele, altivo e os olhos, singularmente claros, marejados, lampejavam em brilhos de luz que à doçura escapavam. Não era um corpo frágil. As pernas esguias eram torneadas, subiam num ápice, mas deixavam adivinhar músculos sólidos, tendões de aço, que o enlace de montar a cavalo precisava. Os lábios grossos, de desenho perfeito, pintava-os de vermelho. Ligeiramente abertos, faziam um respirar compassado, a ritmar um peito amplo, forte, que espetava o mundo em desafio. Usava quase sempre calças de montar claras e blusa leve, de cor forte, as mais das vezes azul ou vermelho. O lenço que abraçava a cintura realçava-lhe as ancas mornas, de mulher, enquanto os pés se punham nus na terra fértil, como as acácias rubras.
Sempre vivera em casa do feitor. Homem para lá dos cinquenta, com o olhar parado da gente das ilhas e viúvo há já uns anos. O filho, Francisco, ligeiramente mais novo que Amélia, estudava por Coimbra desde há tempo, mas vinha todos os anos, de férias, pelas gravanitas de Agosto.
Casou na metrópole o feitor, como era hábito. Como era costume. Aprazou o casamento, na Covilhã, terra da moça, disposta a fugir, mar adentro, daquela humildade sofrida das fábricas de panos. Daquele sofrer que a cidade pouco via, entretida a subir a serra, pela noite, nas ondas macias da luz petróleo dos candeeiros. Enquanto esteve ausente na demanda do casamento, foram para S. Tomé o irmão e a irmã, para o substituírem, não fossem, café e cacau, levarem descaminho, para desagrado do patrão de Lisboa, que por aquelas paragens, pouco parava. O regresso do feitor, já casado, foi uma festa. A senhora vinha já de esperanças, ainda que poucas. A tez de marfim, contava tanto do enjoo do mar como do sol da terra, que de brando, a mantivera pálida de cera. Mas fez-se um sorriso para o verde imenso da ilha, um sorriso do tamanho da esperança que se tem, às vezes, no princípio das coisas da vida.
Quando os irmãos regressaram, no mesmo vapor, que iria ainda a Luanda, antes de voltar directo a Lisboa, atlântico acima, na roça do cacau tinha ficado um choro recém-nascido, e uma carta do irmão do feitor, com uma explicação vaga sobre um amor de matos, uma morte de parto numa sanzala sem nome e o pedido de que cuidasse da criança "na medida do possível". Daí a tempos gatinhavam dois destinos pela roça, Amélia e Francisco. Ela filha de desejos sem amor, e ele, filho da necessidade estranha de se ter mulher, de papel passado, mesmo no calor daquelas paragens longe.
Nesta altura do ano, pelos Santos, Augusto, como mestre da fábrica, tinha como função, observar os rebanhos que desciam da serra e passar por cada um dos redis que se montavam nas cercanias da cidade, e que aí pernoitavam, enquanto os pastores se reabasteciam nas tendas e tascas. No dia seguinte, ao raiar do dia seguiriam viagem até Alpedrinha, próxima paragem.
Olhava os animais, com o seu saber. Cabia-lhe escolher os rebanhos mais bem tratados e contratar com os pastores a lã (guedelhas) que na próxima primavera resultaria da tosquia anual... tinha de se adiantar aos outros concorrentes..... o negócio era apalavrado na tasca, o primeiro acerto era selado com aguardente de zimbro, bastava a palavra e o aperto de mão.
Estava frio e cheirava a castanhas assadas misturadas com cheiro de caruma queimada. Acercou-se de um redil com mais de cem cabeças de gado, dois cães saltaram-lhe ao caminho, o que fez com que tivesse ficado quieto e arrepiado. Pensou:
-Não se pode mostrar medo aos cães, eles persentem!
- Ei garoto! segura os cães! estás a dormir? estás a tomar conta do gado ou a pensar na morte da bezerra? o teu patrão?
- Não é mê patrão é mê pai, está a cear na tasca do Matos, porquê? Vomecê, não sabe que os cães são para guardar? Eles estão capazes até de me morder a mim, porque desde Unhais que vimos a ser seguidos pelos lobos, elas (apontando para as ovelhas) pariram na serra mais cedo e mais que o costumeiro e temos muitos borregos. Aos demónios dos lobos dá-lhes o cheiro. Encobertos no nevoeiro que faz lá para cima, só os cães e os nossos pêlos arrepiados dão por eles. E vomêce é quem? se quer falar com ele vá ver dele à tasca, isto se ainda o apanhar a dizer coisa com coisa, já está para lá desde que o sol se pôs.
- Segura aí o cão. Antes de ir ter com o teu pai quero olhar o gado
- Anda cá Farrusco!!!!!! grita ao mesmo tempo que lhe atira com o cajado - E continua, entre dentes - Já não fazes diferença entre o cheiro a lobo e a brilhantina?????
- No Matos pergunto por quem?
- Pelo Manel da Várzea. Mais alguma coisa?
Augusto acenou com a cabeça e seguiu caminho até à tasca do Matos
Entrou e tirou do bolso o lenço para limpar o pingo do nariz, resultado do frio que fazia na rua, mas também porque o cheiro lá dentro era o mesmo de todos os anos por aquela altura, intenso, quase irrespirável, um misto de vinho, aguardente, bedum, tabaco de enrolar misturado com barba de milho queimada e outros cheiros humanos bem mais dificeis de suportar que todos os outros.
Perguntou alto pelo Manel da Várzea e um homem que estava sentado sózinho num canto, quase sem levantar os olhos do prato de barro, cheio de uma sopa que mais parecia um guizado, levantou a mão.
- O seu cachopo disse-me que o encontrava aqui. Mas oh! homem está doente ou de mau humor?
- Boa note! estou com vontade de chegar a casa. Pergunta por mim porquê?
- Estive a olhar o seu gado. É seu? ou você é assalarido de alguém?
- É meu! e vomêce vem pela lã?
- Ainda não ceei e essa sopa está com bom ar, posso fazer-lhe companhia Sr. Manel?
- Assente-se! Matos!!!! serve aí outra!!! e traz mais vinho, mas do novo, que o que puseste antes está bom para a tua por no comer, ou para o dares aos que já chegam aqui bêbos!!!!
Cândida. Raras vezes um nome era tão acertado como este. Assim se chamava a moça da Covilhã com quem o feitor tinha aprazado casamento. Já lá iam uns bons pares de anos, era ela ainda uma menina de bibe, quando as famílias dos dois lhes traçaram o futuro, estava ele quase de abalada para as províncias ultramarinas já com a carta de chamada para São Tomé, que lha tinha conseguido o mais notável membro da família dele, o primo padre que estava em missão naquelas terras. No entender do seu pai, o conversado da sua menina Cândida, tinha primeiro de se fazer à vida e depois que ele tivesse os proventos bastantes para dar uma boa vida à sua "obra de arte", como ele mesmo dizia, então sim! Ele lha entregaria, mesmo que isso lhe custasse não ver mais a sua única filha mulher.
Nem as gotas de suor que lhe escorriam nas faces lhas coravam, por momentos teve de se apoiar no arbusto que ladeava a entrada da roça. O moleque que lhe transportava a ceira que ela a muito custo lhe tinha confiado, porque era preciosa, pois, estava cheia dos seus tesouros (um terço enfiado de pequenas contas de cristal de rocha retiradas das profundezas das Minas da Panasqueira, o missal de coiro preto gravado a letras de ouro já quase todas sumidas do uso que lhe tinha sido dado pela mãe, o lenço de mão de linho branco que ela bordara e outras preciosidades, como a foto da família tirada no fotógrafo mais famoso da Covilhã, “Foto Corrêa”, e as arcadas que teve de tirar das orelhas durante a viagem, porque nem o peso delas aguentara) o moleque, dizia eu, abriu os olhos e esfregou-os, a «patroinha» tinha desaparecido, magia? Não! Quando se encostou ao arbusto a brancura de Cândida confundiu-se com as suas flores, inúmeros ibiscos brancos e os seus olhos verdes pareciam duas folhas enroladas, acabadas de despontar, até o chapéu branco de palhinha, que a madrinha lhe tinha oferecido, porque mulher branca nunca desembarcava sem a sua «capeline», ajudou ao momento de ilusionismo. Todos correram a ampará-la. Ela sorriu, endireitou-se e justificou a tontura pelo cansaço da viagem, o balanço do barquinho que tinha feito o transbordo do paquete Mouzinho para o ancoradouro da cidade de São Tomé e o calor húmido do astro daquela terra. Desconhecia ainda, o verdadeiro motivo, o pequeno ser que já trazia dentro de si…. Aí também o seu nome condizia, à jovem Cândida, ninguém tinha desvendado os segredos da intimidade de mulher casada, tudo tinha sido feito por instinto e porque devia ser submissa ao seu homem. No seu entender, também o batuque ritmado de boas-vindas, som que lhe era estranho, fora a causa dos arrepios de emoção que tinha sentido, porque, por instantes lhe tinham lembrado o som dos teares da sua querida terra natal, daí aquela tontura e náusea.
Agora só, no quarto de vestir, onde se tinha recolhido um pouco para se refrescar, antes de assumir o seu papel de mulher do feitor, Cândida, recuava no tempo, ao tempo em que o seu pai conhecera o pai do seu homem. Era Novembro, pelos Santos, altura em que os rebanhos desciam a Serra e passavam pela Covilhã a caminho dos pastos verdejantes de Idanha para aí passarem o Inverno. As origens do feitor eram as campinas da Beira.
Na continuação do que escrevi ontem... descobri entre os tais papéis castanhos duas folhinhas que me fizeram rir de verdade, e talvez tenha ficado a perceber de quem herdei este meu sentido de humor, esta minha mania de achar graça a coisas que mais ninguém acha. Para que melhor se entenda, o que vou escrever, preciso de contar que a sociedade covilhanense (cidade de características industriais) do início do século XX, era uma sociedade fechada. Onde a diferença de classes era, não só notória, como assumida, por todos. Operários por um lado e industriais por outro, a convivência entre elas era impensável ( no lindíssimo livro a Lã e a Neve de Ferreira de Castro, que recomendo, está bem retratada esta sociedade covilhanense). Assim sendo, entre os industriais e outros profissionais do sector dos serviços, a convivência entre as famílias era limitada a círculos de amigos e ocorria nas casas dessas famílias. No entanto para os homens (industriais, técnicos da industria, professores, bancários etc. etc.) havia os grémios e clubes, onde era prática corrente as tertúlias temáticas que se prolongavam pelo serão. Outra caracaterística, e esta justificada pela localização serrana e do interior desta pequena cidade, todos se conheciam pelo nome de família, para além disso, muitos tinham alcunhas, que todos sabiam mas eram apenas ditas à boca pequena. Espero não estar a maçar com estas explicações, mas temo que sem estas pequenas dicas só sendo da Covilhã, iriam achar graça a estas quadras do meu avô, que, segundo a minha mãe, num desses serões no Clube o meu avô rabiscou e "gozou" de grande os amigos.
I
Fauna Covilhanense (todos os nomes em maiúsculas, são nomes de familias covilhanenses, muitas delas ainda de hoje) 1. Uma coisa singular da minha terra natal: conta dentro dos seus muros a fauna de Portugal!
2. E, assim, temos a apontar: RATOS por todos os lados, BICHOS de vários tamanhos, Gordos, pequenos, DELGADOS.
3. Há CAMELOS e RAPOSOS GRILOS, GATOS e LEITÕES PINTASSILGOS e PARDAIS, COELHOS, LEBRES, LEÕES!
4. PINTOS, MELROS e CARRIÇAS, de BARATAS, farturinha; POMBOS, CARNEIROS e BOGAS, e BACALHAU e SARDINHA.
5. Há CANÁRIOS sem gaiola, e ABELHAS sem ter colmeia; há BORREGOS e LAGARTOS e LOBOS sem alcateia.
6. E, assim, com toda a razão, a minha terra natal é o pátio da bicharia no jardim de Portugal!
MAS É OU NÃO VERDADE QUE HÁ, DE TUDO, CÁ NA CIDADE»
Já em 1921, no dia da representação da Revista à Portuguesa «No País da Guedelha" (guedelha é o nome ainda hoje dado, na gíria da industria de lanifício, às mechas de lã ainda por fiar) estreada a 8 de Dezembro no Ginásio Clube da Covilhã da autoria de Mário Quintela, versos de João de Figueiredo e música do Maestro António Rodrigues Gomes, saiu um opúsculo de propaganda ao evento editado por Júlio Carneiro. Nele estão umas quadras da autoria do meu avô, que revelam bem o seu humor e que visavam o próprio editor; o pintor covilhanense Eduardo Malta, e um jornalista que colaborava no Notícias da Covilhã (todos eles amigos do meu avô).
Todos nós fomos moldados, por uma vida, às vezes justa, outras, não tanto assim.... mas todos nós somos produto de uma história de gerações e gerações, uma história mais ou menos próxima ou remota......
Lembro, agora, que na disciplina de História todos tinhamos que saber as causas próximas e as causas remotas daqueles momentos "ditos" marcantes para a humanidade.......
No fundo também nós somos marcados por causas remotas e causas próximas.
Pois bem!!!!!
Arrumava eu..... minto... tentava encaixar mais uma data de coisas na última parteleira do armário mais alto do roupeiro que fica naquela despensa que tem sempre a porta fechada e que quando olhamos para ela suspiramos, só de pensar, que num dia destes temos de dar uma volta naquela papelada toda, quando em saltinhos ridículos nos bicos dos pés, para me equilibrar sobre o banco da cozinha que por sua vez estava em cima de uma cadeira (sou a preguiça em pessoa... todo este estardalhaço só para não ir buscar o escadote) (além disso devo ter qualquer coisa de cabrita, porque adoro empoleirar-me em tudo, subir a árvores, etc. etc.... mas isso ficará para outra história) contava eu..... quando uma caixa me cai na cabeça, uma caixa de camisas "Vitor Emanuel" amarela pelo tempo, que se abriu e espalhou pelo chão montes de recortes de jornal e papeis que terão sido brancos, mas, já nem amarelos conseguiam ser, são mais castanhos......
Enquanto descia aquele monte evereste, ia praguejando todos os impropérios que sabia e mais alguns que inventei na hora, cheguei ao chão e sentei-me no chão para apanhar toda aquela papelada sem me lembrar sequer o que era.
Era uma caixa que a minha avó Candida (avó materna) sempre tinha guardado no ultimo gavetão do seu guarda-vestidos, lembro agora, atada com uma fita de cetim lilás, e que fechava sempre à pressa quando lhe entrávamos no quarto. Claro que na altura, nem pensar entrar no quarto dela sem bater à porta, a pedir licença, e tinhamos que esperar que ela dissesse. - Entra.
Sem quase dar conta, senti as faces molhadas , por umas lágrimas que eram de saudade, de orgulho, de tristeza e principalmente de um sentimento de injustiça, que magoava muito.
Meu Deus! o que eu implorei à minha mãe e aos meus dois tios para me darem aquela caixa quando a minha avó morreu..... em 1989 (com 84 anos), para além de uma imagem de N.Sra de Lurdes que sempre a acompanhava e ainda tenho comigo. Eram as únicas coisas que eu queria ter da avó....
Esta caixa tem manuscritos, peças de teatro e recortes de jornal do principio do século vinte, de poemas e artigos do meu avô materno o "VôJão".
O Vôjão".
Quando morreu tinha eu quase 5 anos. Esteve doente muitos meses ( ou achei eu que eram muitos). Lembro-me dele, fisicamente, muito magro e sempre muito encolhido (em contraste com a minha avó, uma mulher lindíssima e alta, com uns olhos azuis esverdeados muito meigos mas sempre de porte altivo) ele tinha sempre uma mantinha castanha sobre os ombros e sentava-se no cadeirão da sala de estar, sempre a tentar sintonizar um radio enorme de madeira escura que tinha uns botões enormes que pareciam de marfim, que eu adorava fazer rodar e rodar e que chegava a uma altura só se ouvia o ranger de molas (o que eu gostava de ouvir aquele barulho de molas a ranger!!!!!!) de seguida ouvia sempre : - A menina mais teimosa que conheço - dizia ele baixinho, enquanto me tirava suavemente as mãos dos botões.
Mais tarde lembro-me de a minha mãe me ir buscar ao jardim de infância e irmos para casa dos meus avós à espera que o meu pai nos fosse buscar, aí já ele estava sempre na cama e tossia muito. Tinha sempre uma mesa baixinha perto dele com uma chávena de chá e um pratinho com bolachas maria "coladas com doce" como eu dizia, e que eu queria sempre comer-lhas. Lembro dele chamar a pedir para lhe trazerem outras e a sorrir dizia-me: - Estas já cairam para o chão, mas eu pedi à Patrocínia (a criada) para me arranjar outras e não me apetece comê-las, ajudas-me a comê-las? é que se não, a avó ralha com o avô porque não lhe apeteceu papar e ela acha que estou magrinho...... não era verdade! agora sei que ele tinha medo que eu ficasse doente, por elas estarem perto dele ( ele faleceu de cancro nos pulmões) a 2 de Setembro de 1960.
Conto-vos tudo isto para vos confessar, que quando me deram a caixa eu prometi a mim mesma que um dia divulgaria a pessoa linda, culta e especial que ele era.
Um Homem sensível, capaz de fazer poemas, generoso e que sempre lutou pelas classes mais desfavorecidas apenas por ideais humanistas, não políticos, foi perseguido, porque fez parte da Comissão Organizadora do Sindicato Nacional dos Empregados e Técnicos de Lanifícios, mas também foi perseguido, porque nas horas de perseguição à Igreja, foi um lutador sempre pronto a defender a causa religiosa e os mais desfavorecidos.... Em Dezembro de 1924, como prefácio de livrinho de versos que escreveu para um sarau de Natal realizado nesse ano no então Teatro Covilhanense em favor dos pobres, dizia.:
«A Todos os que sofrem e a quem devo estes versos humildes que escrevi:
-Negros quadros de dor que palpo e vejo
-Ecos de sofrimentos que vivi...»
Não resisto a escrever a sua dedicatória à minha avó (manuscrita) que está neste pequeno caderninho e que diz assim:
À minha querida Cândida
Dediquei- pensando em ti- este livro aos pobrezinhos. Como eles, para quem suplico nestes humildes versos um pouco de pão, também te peço, meu Amor, em cada dia, a doce esmola do teu sorriso e do teu carinho.
Teu, sempre, teu
João
Tenho muito para vos contar sobre ele. Foi Presidente da Junta de Freguesia de S.Martinho, uma das maiores freguesias da cidade da Covilhã, fez parte do grupo fundador do Notícias da Covilhã, ainda hoje o Jornal da Cidade da Covilhã e no qual, durante anos foi redactor, função que acumulava com a sua profissão (debuxador de lanifício) agora seria o chamado "designer".
(Agora e aqui penso como a vida é uma roda, também eu sou formada em Comunicação Social e estive ligada à política local, durante oito anos fui vereadora em permanência na Câmara da Covilhã. )
Mas a história vai longa, prometo (se me permitirem ) numa próxima ocasião divulgar alguns dos seus versos.
Beijos "Vôjão" eu sei que os meus amigos também vão gostar muito de ti
Na guerra pelo “progresso” o Homem não mede esforços nem as consequências dos seus actos. O importante é avançar, mesmo que para isso tenha que destruir os recursos naturais essenciais à sobrevivência e, numa luta desigual, vai avançando. A resposta da Natureza pode tardar mas não falha! Às vezes a resposta é intrigante, outras, desafiadora, só precisamos saber interpretá-la. Silenciosamente, esta árvore, respondeu à destruição e ao desrespeito, insistindo e exigindo o seu espaço para expor a beleza das suas flores e a generosa sombra da sua copa, numa grande demonstração de energia e desejo de viver. Derrubada e transformada em poste de suporte para fios da rede eléctrica!!, o Ipê amarelo não se entregou e, numa reacção maravilhosa, recuperou a força. Revoltou-se contra a condenação injusta que lhe foi imposta, fincou pé e readquiriu vida. Criou de novo raízes. Cresceu, cresceu... E numa explosão colorida pelo sol, esbanjou alegria e beleza à sua volta. Presto aqui homenagem ao Ipê amarelo, (com honras de ‘I’ grande) que nos dá uma grande lição. É possível a vida, mesmo que nos tirem o chão, quando a vontade de viver é grande, nada nos faz parar, é só preciso resistir e insistir, para continuarmos a existir!... AHA
Saudade ataca de noite Num estranho ritual Não há bem que em mim se acoite Que me faça tanto mal Deita-se na minha cama E é como estar no limbo Sinto-lhe o calor da chama E a pressão do carimbo É a montra à minha frente Com o vidro a separar Vejo tudo claramente Sem lhe poder tocar Conforta-me a almofada Que comigo se encontra E me diz que a madrugada Vai partir o vidro à montra
Dª Augusta, enquanto Paula lhe arranjava arranjava os pés, lá ia contando que tivera que ir com o seu marido ao ortópedista porque a tal entorse no pescoço não o deixava trabalhar há uma semana.
Paula, sempre com os olhos fixos nos pés da senhora, só dizia:-Coitadito!!!
Manicure e estéticista,bonita e vistosa ,Paula quando entra no café do bairro e os maridos sérios das outras, também senhoras sérias, rodam a cabeça num ângulo de 95º
As mulheres sérias dos maridos sérios, roÍdas de inveja ,há muito que comentam por entre dentes em grupo de duas ou mais : -O marido deve ser "corno e cego". Olha-me para aquela blusa de licra que lhe marca as banhas (que por acaso ela até nem tem), e a saia quando se baixa vê-se -lhe o rabo ...valia mais nem ter saia ,aquilo parece mais um cinto...
Mas, um dia destes, Paula, a tal espampanante e vistosa, no seu salão de beleza arranjou as unhas e tirou os pelos a uma das tais senhoras sérias que nesse dia tinha um jantar de amigas, também sérias, já se vê...
Paula, por casualidade,nesse dia foi jantar com o marido, o tal corno e cego, e para seu espanto !!! ...não é que a senhora séria, sim,aquela que tinha estado a arranjar as unhas, entre beijos,beijinhos e abraços estava a jantar com o marido sério da outra senhora séria, a Dª Augusta !!!!!
Deixo aqui uma pequenina homenagem ao poeta Ángel González. Um poeta desconhecido para mim até ao dia em que um amigo se lembrou de me enviar vários poemas dele, poemas lidos pelo próprio poeta. Assim que comecei a ouvir as suas palavras, senti-me de imediato envolvida nelas, pela voz, pela força da mensagem, pela sensualidade, pelo amor e liberdade que elas transportavam. Para alguns, este, é um poeta do pessimismo, para mim, é um poeta do Amor e da Liberdade, um poeta que apela a um mundo mais justo e solidário. A sua morte, não teria tido para mim um significado tão grande, como teve, não fosse o facto de ela ter ocorrido poucos dias depois de ter conhecido a sua poesia. Deixou-me uma sensação de vazio este poeta recém-descoberto mas deixou-me também a certeza de que, nunca é tarde para descobrir pessoas em vida, mesmo que a vida dessas pessoas se tenha tornado tão curta após o momento da descoberta. Fica aqui também o meu muito obrigada ao meu amigo Félix Menkar - http://neosofias.blogspot.com/ - também ele poeta, por me ter permitido conhecer as palavras de Ángel González. AHA
A qué mirar, a qué permanecer Seguros de que todo es asi Seguirá siendo... Jamás pudo ser de outra forma Compacto y duro Este perfecto en su cadência Mundo!... Preferible es no ver Meter las manos en un oscuro panorama Y no saber qué es esto que aferramos En un puro afán de incertidumbre, de mentira Porque la verdad duele!... Y lo único que te agradezco ya, es que me engañes Una vez más Te quiero mucho!... (Ángel González)
Eram sete horas da noite, ela entrou pela porta da esquadra do seu bairro e dirigiu-se ao balcão. Estava de tal modo perturbada que se lhe tapassem a boca rebentaria. Era um agente novo, principalmente bem educado e calmo que estava do outro lado. Na sala estavam outras pessoas, cada um com seus problemas para resolver, mas ela nem reparou. - Venho participar uma agressão, disse ela – tenho sido vítima de agressão psicológica por parte do meu marido e hoje foi física. O agente perguntou, quando foi isso, ela respondeu, foi agora! Depois deste episódio tudo se transformou na sua vida, nunca mais nada seria igual. Uma coisa ela sabia, não voltaria a estar de livre vontade de baixo do mesmo tecto com aquele que há 23 anos atrás tinha escolhido para partilhar a vida inteira.
Moral da história: viva a liberdade de escolha, um dia tens, no outro não tens nada, mas a vida continua e de tristezas está o inferno cheio, um viva à vida e ao amor que descobrimos que os outros, incondicionalmente tem por nós.
Quando se diz ou se escreve, mente-se! Mesmo sem querer, mesmo sendo gente séria, mente-se sempre! E não há mal nisso, antes pelo contrário, compete-nos ver as coisas e dizê-las como melhor nos aprouver. Ficamos todos mais felizes e o criador menos envergonhado. Eu, por exemplo, se é que posso ser de alguma coisa exemplo, feito Sancho, minto-vos pouco porque sou um espírito simples. Mas feito Quixote, invento tudo, é tudo mentira e eu gosto muito mais! Quando sou eu próprio é que a coisa não corre tão bem: minto, mas fico cheio de problemas de consciência. E às vezes até vou logo a seguir pôr as coisas no são. Como agora. É que fiquei a remoer nesta história de ter chamado Beatriz à outra ou Outra à Beatriz, conforme se quiser. E, como são pessoas diferentes, pode dar-se o caso de ficarem as duas ofendidas e eu, que ainda ando por aqui, ter de esclarecer as coisas, que é coisa que não quero. Voltando à mentira, estão já a ver por aqui que, quando queremos corrigir as coisas, metemos os pés pelas mãos e damos connosco a pensar que mais valia ter deixado tudo como estava. Portanto, pronto! A Outra, que me parece que até mora aí para Oeiras, passa a ser a Beatriz, mesmo não sendo! Aliás, agora que estou a olhar melhor para a Beatriz, que depois dos cumprimentos do costume foi a cantarolar para a beira-mar, penso que apanhar conchas, até nem me importava nada que ela fosse a outra de agora, pois qualidades não lhe faltam. Até o perfume que trouxe nos põe a pensar nas noites da Ana, nas mil e uma claro, que a Ana não tem noites, tem só madrugadas porque para ela, o sol só nasce, e nunca se põe. Depois de servir o Champanhe à Beatriz, que foi logo, num correr, para o pé do mar e não nos ligou nenhuma, a Ana que fez de anfitriã e nos apresentou, mesmo sem conhecer a Beatriz, perguntou-me: e tu? Quando falas de ti? Apeteceu-me dizer, nunca! Mas não se dizem assim as coisas e lá respondi que a nossa vida é a daqueles com quem nos cruzamos na vida. E fui pensando que até não estava mal pensado e … mais valia deixar as coisas como estavam. Mas vou contar a história de um amigo, para não serem só histórias de amigas e a Rosário não me vir atazanar no éter a dizer que tive o abecedário. Que aliás não tive. Por exemplo não tive nenhuma amiga em que o nome começasse por c com cedilha. A Ana, fingiu que não ouviu esta história dos nomes e encorajou – Conta. E eu contei. Naquele tempo, na altura da Ana e da Beatriz, algumas coisas estavam por um clic, como diz a nossa Ana. Havia a guerra a anunciar as independências em África e os jovens de então, com menos televisão mas com boa música, lá iam lendo umas coisas e tomando o seu partido, naquilo que estava para acontecer. O António Augusto, teria nessa altura uns vinte e pouco. Magro e aloirado era conhecido pelos amigos por conseguir convencer Maomé a comer toucinho. Para além da capacidade de argumentação, tinha o entusiasmo daqueles que sabem misturar a razão e o coração. Já casado e com uma filha, a casa dele servia de ponto de encontro, naquela época conturbada. Na altura, para além da Universidade onde ia, às vezes, dava aulas a adultos. Decidiu ficar, para a construção de um país novinho em folha e lembro-me que, já perto da independência, estava envolvido num programa de alfabetização de adultos. Falava pelas noites, num tal Freinet, pedagogo francês que lhe enchia as medidas e nós íamos ouvindo e aprendendo, aquilo que iríamos esquecer mais tarde, como toda a gente. Em resumo, e para a época, estava como se dizia na linha da frente. Nas convicções e no tempo que dava de si, naqueles entusiasmos do país novinho em folha. Calhou que numa esquina do tempo e da escola, em que também dava aulas, conheceu uma colega, bonita, inteligente, com uns olhos pretos imensos e um marido que conhecia a revolução toda e os que a estavam a fazer também. Ainda andaram uns meses num desassossego. O António saía e entrava em casa consoante a consciência lhe pesava mais ou menos e lá iam fazendo das suas, e um belo par também, que eu lembro-me. Toda a gente sabia, ou desconfiava, ou tinha a certeza, ou não tinha a certeza mas é como se tivesse. O certo é que um dia foram os dois chamados à escola e estavam à espera deles representantes de professores e de alunos. Era o mau exemplo, a conduta imprópria e se calhar o marido, que até era importante, embora bom rapaz. Tanto quanto sei, ele preparou toda a argumentação nos segundos que demorou a sentar-se. Ela, provavelmente, já a sabia de casa. A professora, depois dos entretantos, foi a primeira a falar e à frente de um António Augusto basbaque, fez aquilo que na altura se chamava uma autocrítica. Que reconhecia os erros, que não voltava a cair no pecado, ou de gatas não me lembro. Ele não disse nada, ou quase nada, porque na altura veio-lhe o coração e devia ter-lhe vindo a razão. Ela, que tinha feito a autocrítica, ficou por assim mesmo. Ele iria no mês seguinte para uma cidade do Norte, onde não havia universidade na altura, mas agora já há! Atarantado, lá foi arrumando ideias. O que deve ter sido difícil. Que quando o coração dói a cabeça também não ajuda nada. Resolveu ir-se embora, que é uma coisa que se pode fazer quando se está no princípio, e ele estava, no princípio da vida. Mas não foi assim tão fácil. Vejam que tinha de ir a casa e, sem mais, dizer à legítima que se iam embora e porquê! Estou a imaginar o que teria sido. Que eu bem te avisei sobre aquela delambida. E agora? Com uma filha de leite por esse mundo, sem nada garantido… Como descalçou a bota não sei (e que ela estava apertada, estava). Sei que num fim de semana atravessou uma fronteira de carro, que depois tinha de atravessar outra no dia seguinte, que só atravessou uns três meses depois, que houve dias em que comeu só milho cozido e que … depois de umas aventuras apareceram em Lisboa, por um Abril, os três, que estive lá no aeroporto. Em conversa, um dia destes, falámos desses tempos. Com o entusiasmo de sempre lá foi desfiando as pequenas histórias, e as outras, que parecendo pequenas são as histórias da vida. Aquelas que nos foram fazendo aquilo que agora somos. Importante é que está bem, consigo e com a vida, que o presenteou com uma história que até dá para contar.
Com os teu pedacinho de gente Fizeste esta pessoa diferente com muito mais coração A ilusão foi-se embora A revolta saiu para fora Mas deu-me garras de leão
Pelos sonhos que apaguei Por as noites que não dormi E as preocupações que embalei Por tudo o que vivi E o que deixei de viver Tenho que te agradecer
Por as alegrias que me deste Por tudo o que já fizeste E teres mudado a nossa história Por todo o valor que tens Hoje dou-te os parabéns Por teres conseguido a vitória
Enroscada no sofá, ela tentava escrever mas as palavras acotovelavam-se em conflito e todas queriam saltar para o papel ao mesmo tempo. Todas se achavam importantes. Umas, achando que eram mais importantes do que outras. A razão, altiva como sempre, não dava lugar ao coração e este, que até então tinha sido completamente subjugado por ela, achou que estava na hora de se impor e lutar para que a doçura das suas palavras anulasse por completo a frieza das palavras que a razão impunha! Sem conseguir meter ordem nas emoções, pousou a mão sobre o papel, encostou-se e tentou organizar os pensamentos. Na penumbra da sala, o silêncio era pesado. Sem dar por isso, o dia dera lugar à noite e ela ali, estática, só conseguia pensar nas conversas partilhadas, no desejo que explodia entre uma frase e outra, num passado que não sendo longínquo lhe parecia ter sido há “séculos,” num tempo em que os dias eram quentes e de riso e as noites aguardadas com pressa, com a pressa de quem não podia esperar mais... Sentiu-se tocada pela magia desse tempo e as palavras começaram a surgir harmoniosamente sem conflitos, numa envolvência perfeita. E dando forma a uma boca ausente beijaram-na com doçura. Sorrindo, começou a escrever... AHA
Quando olhamos o Mar imenso temos que aprender a procurar as pequenas pedrinhas que o habitam-disseste-lhe, um dia.
- Não as descures porque é saltitando de pedrinha em pedrinha que tu o poderás atravessar, sem sucumbir. Ahh, como ela sabia do que estavas a falar... Sorriu. Voltou atrás no tempo, àquele tempo em que tinha tanto tempo para sonhar, mas que não tinha tempo para imaginar que um dia, e estava a ser agora esse dia,um ser tão pequenino lhe iria ensinar as coisas maiores que agora sabe. Há verdades tão verdades que parecem mentira e, ela não queria acreditar, nem aceitar, que aquela era agora a sua verdade, que aquela criança era a sua. Não! Não era aquele o bebé que pedira, que sonhara, que idealizara... só podia ser um pesadelo, e certamente iria acordar e o seu bebé ainda estava na sua barriga. Foi nesse dia, ou talvez nos dias seguintes, que ela aprendeu a olhar o Mar e as pequenas pedrinhas que o habitam. Foi nesses dias que chorou a morte daquela filha que não nasceu e que teve que aprender a cuidar e a amar (sim a amar, porque não era esta criança que ela já amava), esta outra filha que não sonhara. Foi nesse dia que a sua história mudou. Começou um novo livro e destruiu o primeiro. E, olhando esse mar,que via pela janela daquela enfermaria de hospital, tantas vezes, sentada ao lado da cama da sua menina, ela jurou a si mesma que havia de provar àqueles médicos que estavam enganados e, que nenhum deles tinha o direito de prever o futuro daquela criança. Como poderiam eles dizer-lhes que a sua menina nunca iria andar? Que direito tinham eles de dizer que a sua menina nunca iria aprender a ler? Foi olhando as pedrinhas que habitavam esse Mar que ela jurou que iria ensinar sua menina a andar e ajuda-la a ser doutora. E, foi saltando de pedrinha em pedrinha sem sucumbir, que ela, passados 22 anos, junto ao Mar, assistia à queima das fitas da sua menina, à procura de outra pedrinha para poisar a emoção. Passados tantos anos, ainda tem dentro dela, pedaços envolventes dos dias, meses anos que carregou a dor ao colo e que, por vezes, quase a afogavam em sensações reais… Tão dentro dela… mas continua a procurar as pedrinhas que no Mar habitam. Há sempre um lugar onde a alma perde aquele tom preto e branco e ganha cor, vida, voz… E é nesse lugar que ela às vezes se fecha por um bocadinho, para imaginar a outra história que não escreveu, para sonhar, imaginar, compreender e tentar entender porque razão falta um herói nesta história, porque razão ele abandonou a história tão no princípio… Sabes agora porque sorriu ela quando lhe falaste nessas pedrinhas? É que ela ainda tem tatuadas no coração as marcas de tantas,t antas pedrinhas desse Mar. Tantas quantas as cicatrizes de cirurgias que a sua menina tem nas costas, nas pernas e nos pés. Tantas quantos os dias,os meses, os anos que passaram naquele quarto de hospital e em tantos outros , carregando o tempo aos ombros...
Hoje quando recorda o futuro que poderia ter tido, feito de recordações do passado imaginado, olha para a sua menina ... e sabe que a outra filha que não nasceu jamais lhe teria dado as alegrias que esta filha já lhe deu. Ainda chora a filha robusta e saudável que sonhou, mas jamais a trocaria por aquele quilo e oitocentos de gente que nasceu deficiente e que hoje lhe diz:
-Obrigada,mãe, por teres acreditado em mim e por me teres ensinado a olhar as pedrinhas que habitam no Mar. E, é com um sorriso a saltar dos olhos que ela lhe responde sempre:
“Sou fraco, efémera criatura feita de barro e sonho. No entanto, sinto todo o poder do universo girando dentro de mim…" (Nikos Kazantzakis)
Era quase noite, em grupo, saímos do Cinema Monumental, apesar de tarde, ainda dava p’ra irmos tomar um café à ‘Paulistana’, um café que hoje já não existe, aliás como tantos outros infelizmente, nem mesmo o cinema existe mais. Nesse espaço, figura mais um centro comercial igual a tantos outros. A propósito, o cinema do meu bairro também já não existe. ‘Hollywood Residence’ é o nome sugestivo do novo complexo comercial. A temática cinéfila escolhida para baptizar este empreendimento, que integra quatro “salas” - caixotes, digo eu - de cinema, é o que resta da memória do lugar. O velho cinema morreu. Depois de uma lenta agonia. Entrámos ruidosamente no café, - tínhamos entre quinze e dezassete anos - o clima era de festa, o que acabáramos de ver e ouvir não nos saía da cabeça e forçava os pés p’ra dança. Ocupámos duas mesas, juntámo-las e aí ficámos durante algum tempo a discutir o filme. Uns tinham gostado, outros saíram incomodados, tinham achado o personagem patético demais. Patético!... Volvidos estes anos chego à conclusão de que patéticos seríamos todos, se não disfarçássemos… Alexis Zorba não disfarçava, não sabia, era uma força da natureza! Ignorante no sentido de não intelectual mas sábio do amor e da vida, ele vivi-a como uma dádiva, com a ternura de quem lhe presta homenagem mas também com voracidade e exuberância em relação a tudo o que deseja. Leva-nos a questionar a maneira como vivemos, um dia após o outro, sem sabermos saborear cada minuto que nos é dado viver. - Gostaria de morrer como ele, ao sentir que o fim se aproximava ainda teve coragem para ir à janela com uma vontade louca de ver e sentir a beleza da manhã - O filme começa com a chegada de Basil, um jovem e tímido escritor inglês, que chega à ilha de Creta, na Grécia, a fim de tomar conta de uma mina que herdou do pai, uma mina abandonada que apesar de todos os esforços, não consegue recuperar. Na ilha, ele conhece Zorba, homem rude mas de uma enorme sensibilidade, ele tem estampada no rosto a alegria duma criança e a coragem de tudo querer, como só as crianças sabem ter. Depressa se prontifica a ajudá-lo. Começa aqui uma enorme amizade que se transforma numa lição de vida para o jovem escritor que, a pouco e pouco passa de observador do mundo a participante. E é precisamente aqui que reside a grande força do filme. O pragmatismo emocional de Zorba que vive com a necessidade e a coragem de quem quer aproveitar ao máximo tudo o que a vida lhe dá, desde a mais simples das amizades, passando por uma refeição ou a luta pelo amor de uma mulher e o comportamento de Basil, que vive e vê tudo de um ponto de vista racional. Não vou contar as cenas do filme. Os que viram, recordar-se-ão delas e os que não viram, vejam, vale a pena, (existe em DVD) mas vejam com o coração… Pretendi apenas e só, deixar aqui o meu olhar sobre o filme, Zorba tocou-me o coração, fez-me reflectir e exerceu sobre mim a vontade de me conhecer melhor e tentar melhorar em muitos aspectos - não sei se consegui, eu era muito jovem quando vi este filme - Realço ainda a banda sonora de Mikis Theodorakis, inesquecível! Tal como a cena final, na praia, talvez a mais comovente, onde assistimos à dança entre os dois homens, um hino à amizade verdadeira e desinteressada. Podemos ver o tímido escritor deixar de recalcar as emoções e pedir a Zorba que o ensine a dançar e ri, ri como nunca o fizera em toda a sua vida. Recordo ainda a paisagem árida e as mulheres. Viúvas para sempre, as mulheres vestidas de negro, carregavam o medo no olhar, um olhar duro mas de uma grande doçura. Irene Papas, encarna uma delas e fá-lo magistralmente, uma figura trágica e forte, de olhar duro e corpo de desejo reprimido, que ela não reprimia e por isso mesmo foi morta. Zorba, é um cântico à liberdade humana. É a sabedoria, presente nas almas mais simples. Aqui, percebemos como podemos ser vulneráveis e ao mesmo tempo fortes perante as adversidades da vida, um exercício de tolerância entre as pessoas e a ironia de viver e estar sujeito a qualquer coisa. Admirável e bela é também a fotografia a preto e branco, uma estética muito própria e fascinante! AHA
"A loucura é uma força da natureza, ao passo que a estupidez é uma debilidade da natureza sem contrapartidas..." (Italo Calvino)
A Ana é uma companhia excelente. Sabe quando falar e quando calar, coisa que não acontece comigo que só sei que devo falar. O que certamente não é certo. Quando viu que o champanhe me estava a dar para o sentimento lá me foi entretendo e não parou enquanto não me viu com menos sede. Mas estava calor de facto, portanto perdoe-se-lhe porque tinha razão e como já vos disse, aquelas bolhazinhas do champanhe no nariz só nos podem pôr bem-dispostos. Costas com costas, já sentados, lá nos fomos deixando ir até que o silêncio se fez de um ligeiro marulhar do mar, que convidava a divagar. A Beatriz andava em História, aluna brilhante, acabou as distinções todas em Coimbra onde muito mais tarde eu viria a viver. Filha de uma família dada à Igreja, pertencia a uma associação cristã qualquer e dividia o tempo entre a Universidade, o ballet e uma espécie de namoro comigo. Dela recordo principalmente duas coisas: o olhar verde e determinado e a pergunta que me fazia às vezes "mas afinal o que é que queres tu da vida?". Eu lá ficava pensativo. Ainda não sabia que todos queremos simplesmente ser felizes, embora a gente se esqueça disso. Amiúde! Na altura, eu usava as habituais "jeans" e, agora que me lembro, sempre camisas azul-claro, intemporais de tão puídas. Consertava-me tudo um ar de menino perdido, que a Ana viria a herdar pouco tempo depois. Não foi nada sério, parece-me, mas o que é certo é que me lembro daqueles olhos verdes que ainda mal sabiam a mulher. E ficou-me dela um certo sentido de consciência - "o que é que queres tu da vida?". Deixei de a ver quando foi para Coimbra acabar o curso. Um dia, já por 76, estava eu em África e reparei, na rua, numas calças em camuflado, botas de tropa a sério, uma metralhadora, e, por cima, um cabelo loiro que não veria água há um tempo. Tudo encimado por uns olhos verdes, determinados, sérios. Era a Beatriz!Estivera na guerrilha desde 73, tinha estado no desfile da independência e eu tinha estado nas bancadas do estádio a assistir. Retribuiu dois beijos, e seguiu. O que soube dela foi por amigos comuns.
Era quase meia noite, ainda não tinha havido um minuto de silêncio entre nós, conversávamos como se estivessemos juntos há cinco minutos e afinal já lá iam duas horas.Tinhamos falado de tudo um pouco, como velhos amigos e afinal era só a segunda vez que nos encontrávamos.
Meia a rir, meia a sério, com aquele meu jeito de quem vai dizer coisa importante, disse-lhe
- Estou com uma dor de corno que não me aguento! - Nunca tinha ouvido uma mulher a admitir esse sentimento- disse-me a olhar-me nos olhos, meio admirado, meio a sorrir. - Porque não havia de o admitir se é verdade? Ele foi o homem da minha vida, dei-lhe tudo o tinha para dar e ao fim de quase trinta anos troca-me!!!! - O que é ser o homem ou mulher da vida de alguém? Pergunta ele, com a pose de quem ia iniciar um debate temático, recostando-se no sofá como quem espera que a resposta seja um " não sei" Mas eu sabia! - É aquele que nos faz passar o risco, que por ele esquecemos os nossos limites sejam eles quais forem...... Olhou o bar do hotel onde estávamos e reparou que já só restávamos nós. Até as pessoas que tinham vindo comigo, para tomarmos um café, já se tinham despedido há algum tempo. - Vão querer fechar o bar já reparou que já só estamos nós? - Pois é! não dei conta! amanhã é dia de trabalho, também tenho de ir, não demos conta do tempo passar. - Mas ficou um tema interessante pendente! Jantamos amanhã?.................
Um dia contarei o dia um, o dia três também o contarei, e quem sabe, talvez o quatro. Mas os seguintes talvez não, porque há coisas impossíveis de contar, só possíveis de sentir
Cheguei pelas duas da tarde. A praia estava praticamente deserta, só uma brisa suave temperava um Julho já no fim. Champanhe, gelo, taças e restante palamenta, estavam à sombra. Abri uma garrafa! Sou habitualmente desas-trado. Em jantar com algum cerimonial, toalha branca e vinho tinto, eu serei, de certeza, o autor da desgraça. Mas convivo filosoficamente com isso (estou-me nas tintas, portanto). Ainda há bem pouco tempo entornei um jarro (diz-se decantador para parecer bem, mas é um jarro na mesma), com um qualquer néctar dos deuses, na melhor toalha de um amigo. A única coisa imperdoável foi o sorriso com que brindei a senhora ao lado, a quem não pude explicar que sorria apenas à minha proverbial tendência para o desastre e que saiu da sala entre um arrastar de cadeiras, um vestido a cheirar a trapo com álcool e o habitual espalhafato de pratos, talheres e murmúrios de "dá sorte…". Como seria de esperar, também desta vez entornei uma parte do champanhe na camisa, mas até foi bom, para além do luxo, (melhor que banho de champanhe só leite de burra), acentuou o ar despreocupado que tinha decidido exibir às minhas amigas e, de resto, o calor se encarregaria de me pôr decente. Dei por mim a rememorar coisas antigas. A Ana. Conheci-a na Universidade, teria eu uns vinte mal medidos e ela provavelmente trinta. Eu cheio de virtude (isto quer dizer virgem), ela com uma filha já. Eu aspirante a engenheiro e ela quase médica. Claro que o primeiro passo foi dela. O entusiasmo foi meu e, dois dias depois de nos conhecermos vivíamos juntos, com toda a naturalidade! Recordo-me que, mais tarde, o meu pai terá dito que não admitia que um filho seu vivesse em estado de mancebia. Não percebi o que quis dizer mas passei de jovem a homem feito. Escolhi a Ana. Hoje teria ido ao dicionário, escolhido a Ana e desculpado o pai. Já não a vejo há anos! Talvez trinta e poucos ou trinta e muitos. Separámo-nos cerca de um ano depois, por qualquer razão, ou por nenhuma razão, não sei bem. Dizem que não há amor como o primeiro. Não sei se aquele foi o primeiro, nem sei se foi amor. Sei que, na vida, tenho um antes da Ana e um depois da Ana. Na maneira de estar, na forma como me relaciono com uma mulher, nos valores que tento cultivar, naquilo de que mais gosto em mim. Em tudo está a Ana, não como um desgosto de amor, não como qualquer coisa que se perdeu. Simplesmente está. -Desculpa, és o Nelson? Eu sou a Ana. -A Ana? Arregalo os olhos! -Desculpa! Estava a pensar noutra Ana. Estava a pensar noutra pessoa disse eu numa atrapalhação. Tenho um grande prazer em estar contigo! Dei-lhe um abraço, ela sorriu e servi-lhe uma taça de champanhe enquanto procurava acertar o relógio do tempo com o da vida.
Uma velha caixa, dentro um segredo guardado tantos anos como a eternidade.
Podiam os filhos prever esta herança deixada pela sua mãe Francesca ... para Michael e Carolyn era simplesmente insuportável a ideia de dispersar as suas cinzas no rio e era o que acabariam por fazer, emocionados.
No diário encontram uma revelação – sentimentos, emoções, paixão - para eles tão intensos como impossíveis de terem sido vividos pela mãe. Ficam a saber da breve relação – quatro dias! – de Francesca com Robert, ocorrida em 1965.
Ficaram a saber que a mãe, uma mulher madura, esteve pronta para viver e viveu, pela última vez, uma grande paixão. Ficaram a saber como ela sacrificou o seu amor pela família.
Eles revivem todo o romance através do seu diário. As atmosferas de iluminação à luz de velas, com um bom copo de vinho e uma boa música. Todas as cenas, consequência umas das outras, são encadeadas, com naturalidade e suavidade. Em breves momentos, sem efusões nem histeria, tudo é dito da maneira mais simples e mais evidente possível. O amor, a ternura!
O instante em que os dois amantes se vêem pela última vez marca quem leu, viu ou imaginou aquela cena ... ela aperta a maçaneta do carro, prestes a sair ... e fica imóvel! Os dois carros, o de Robert e o que o marido dirige, tomarão para sempre direcções opostas.
Robert nunca mais teria uma relação tão intensa como a que acabou de viver com Francesca. A partir de então, para além do tempo e das distâncias, eles estariam unidos por uma pequena cruz, lembranças cada vez mais amareladas, antes que – para sempre – as suas cinzas se misturassem.
Os filhos tomam conhecimento que Robert teria morrido e deixado para a mãe um álbum de fotografias, chamado “Quatro Dias”, e que as suas cinzas haviam sido lançadas da ponte Roseman. Compreendem então os motivo do desejo da sua mãe e lançam da ponte ao vento as suas cinzas.
Quer queiramos, quer não, todos pensamos em nós próprios, nas nossas próprias relações amorosas. Todo mundo, num determinado momento da vida, viveu – ou sonhou viver – uma grande história de amor.
Cada um de nós tem um pouco de Robert, um pouco de Francesca.
E não será isso mesmo que todos procuramos? O que nos move são as emoções!
- Sabes! Quando estou longe de casa e me lembro de ti imagino-te sempre a sorrir!
Olhei-o, mas não disse nada, e ele continuou.
-Lembras quando tinhamos o 127 e iamos de viagem? Os três cá atrás só conseguiamos ir sem implicarmos uns com os outros durante 5Kms e tu, quando vias que as coisas iam correr mal e antes que o pai se chateasse, inventavas jogos.
-E daquela vez que iamos para a praia contrariados, e os três tinhamos começado a implicar logo à entrada do carro? Tu propuseste que quem conseguisse dizer mais provérbios portugueses ganhava, e eu só para vos irritar disse:
«-Há mais marinheiros debaixo dos lençóis que marés no meio das pernas!»
O pai olhou pelo retrovisor com cara de cartão vermelho, e antes que ele começasse a gritar tu disseste:
-Boa! Grão a grão, debaixo dos lençois, enche a galinha o papo no meio das pernas!
Acabámos todos a rir, até o pai!
Dito isto levantou-se e foi lembrar os irmãos desta história de há tantos anos.
Fiquei ali a olhar a água.
O que se estava a passar comigo?
Em pouco tempo era a segunda pessoa que eu amava que me lembrava que a alegria era a minha imagem de marca, e agora por onde andava ela?
Só porque olhava a água estava triste? Porquê?
Tempos houve (e já lá vão alguns anos) que o meu pai me dizia:
-Conta a asneira que fizeste!
E eu perguntava:
- Asneira? porque dizes que fiz asneiras?
-Porque sempre que pregas uma partida ficas com os olhos da cor do mar da terra onde nasceste!
-Mas eu só....... e lá lhe confessava a traquinice meia a rir (ele disfarçava mas no fundo eu sabia que ele também estava com vontade de rir).
Outros tempos houve (mais recentes) que a visão da beira mar me fazia lembrar que não havia coisa mais sensual que o mar a entrar na praia, e sorria a imaginar o mar como um homem apaixonado a fazer amor com a sua amada, a praia, que se entregava desejosa do seu amante. Ele entra nela umas vezes suave e profundamente, outras de uma forma violenta e rapida, própria de quem arde em paixão, enquanto ela se molda ao seu desejo, para receber o momento da explosão de quem já não aguenta mais.
E agora?
Só conseguia estar triste?
Foi o tempo que me fez isto?
O TEMPO?
Era um dia de recordações!
Lembrei que uma pessoa muito especial, uns dias antes, tinha comentado comigo esta frase....... «É preciso ter-se muito talento para envelhecer e conseguir continuar a ser uma criança»
Seria isso que me estava a acontecer?
Estava a envelhecer?
Mas porque só agora?
Teria tido o tal talento até há pouco tempo e agora já não?
Não!
O talento nasce connosco! Tem-se ou não se tem! A única coisa que nos faz perder o talento é o medo de não o ter!
A falta de confiança em nós.......
De repente uma onda rebentou estrondosa aos meus pés!
Dou comigo a pensar!!!!!
«E ao grito de "carne!!!!" possuiu-a 49 vezes»!!!!!!!!
-Mãe! estás a rir de quê? - Já não estás triste?
-Não! sabes porquê? porque gosto muito de ti!!!! Além disso duas pessoas que amo muito, deram-me o mapa do talento perdido e acabei de dar o primeiro passo para o encontrar!
-Não te estou a entender mãe!
-Não faz mal!!!!! O ultimo a mergulhar é uma minhoca mole
-E corri para a água!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!