quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Retalhos da Vida de Duas Mulheres




Sra. D. Maria Amélia, espreguiçou-se, olhando-se no espelho. Hoje, tinha sentido reticências em se levantar, custara-lhe a diferença da temperatura morna e acolhedora do seu vasto leito e, a temperatura que fazia cá fora.

Enquanto escovava os cabelos de uma brancura alva, fixava as linhas do rosto, marcado pela já avançada idade. Outrora tinha sido bela, beleza que apesar de tudo mantinha, sorriu satisfeita.

Vestiu-se cuidadosamente e depois de um frugal desjejum, acomodou-se no sofá junto à janela de onde podia observar a praça, a luz e o mar que hoje tinha o azul dos seus olhos.

Aguardava Maria, que o infeliz ou feliz acaso trouxera à sua vida, pois se não fosse aquela queda, nunca o seu filho teria teimado em pôr-lhe dentro de casa uma estranha para a acompanhar. Hoje
dava graças por finalmente ter cedido à teimosia do filho, que longe em Lisboa, se sentia assim mais sossegado.

Maria levantou-se de um salto. Vestiu-se rapidamente, lavou o rosto e escovou o cabelo. Teria de se apressar ao encontro de Sra. D. Maria Amélia. Sentia no corpo uma lassidão fora de comum, os seus gestos tornaram-se mais lentos e cobrindo o rosto com as mãos chorou deixando escapar um pequeno gemido que do coração lhe subia. Olhando-se ao espelho voltou a lavar o rosto e disfarçou o vestígio das lágrimas e das dores ocultas que a afligiam. Saiu rapidamente para o ar frio deste inicio de dia de Inverno, não sem antes depositar um beijo na cara do filho que ainda dormia.

Maria Amélia sorriu ao ouvir a chave na fechadura, Maria chegara pontual como sempre. Tinha estado a pensar em como já não podia passar sem a presença daquela pequena mulher, de olhar triste e doce, forte como o aço e de voz quente como as tardes de verão.

E a rotina começou. Maria Amélia limitava-se a observar Maria, que no seu movimento compassado mas de uma suave firmeza sacudia os lençóis e lhe fazia a cama impecavelmente, que sacudia tapetes e o pó que se alojara nos móveis, que abria as janelas para que a casa respirasse o novo dia e lhe trazia flores sempre que passava pelo mercado.

Como eram fantásticos os dias passados juntas, saboreava cada momento tal como saboreava cada refeição que Maria preparava para ambas. Por vezes Maria, sorrindo com os seus olhos tristes, arrancava-a de casa dizendo: -“Vamos Sra. D. Maria Amélia, o Sol e o Mar convida-nos para um passeio e não vale a pena dizer que não, temos saudades do dia e da vida, não é assim?” – Noutras vezes, em que os dias nasciam tristes e chuvosos, sentavam-se na pequena e confortável sala, aquecidas pelo calor crepitante da lareira enquanto Maria com a sua voz rouca e baixa lia para ambas todos os livros da sua vasta biblioteca.

Maria Amélia notou uma vez mais a tristeza e os vestígios das lágrimas derramadas de manhãzinha por Maria. Compadecida perguntou-lhe docemente: -“que tens Maria? – A resposta já a conhecia, pois sempre que lhe perguntava a razão desta tristeza, Maria respondia: -“Nada, Sra. D. Maria Amélia, nada. Talvez saudades do Amor ou saudades de casa.” E fechava-se no seu quieto mutismo.

Maria Amélia contava-lhe então histórias do passado e Maria sorrindo partilhava consigo, as suas próprias histórias; sim porque Maria também ria e quando entre conversas e confidências dividiam as experiências vividas, por vezes o brilho do seu olhar irradiava a qualquer coisa parecida com a suave esperança de uma magia até então desconhecida.

Maria Amélia dava por si a pensar,” se um dia eu pintasse a esperança ela teria a cor do brilho do olhar de Maria”.

A noite aproximava-se já de mansinho e como habitualmente Maria acompanhava-a na sua higiene diária antes de a ajudar a deitar-se, aconchegava-lhe a roupa ao corpo e sentava-se ao seu lado na “senhorinha” de veludo azul da cor do céu, de que tanto gostava, lendo-lhe a poesia de O’ Neill até que as suas pálpebras cedessem ao doce chamamento do sono.

Maria Amélia sonhava com as estrelas, com o mar, com o homem que um dia tinha amado, pai dos seus filhos e que a aguardava na casa da qual Maria sentia saudades Maria, colocou o livro suavemente sobre a mesinha de cabeceira, ajeitou uma vez mais as cobertas do leito e depositando um pequeno beijo na testa da idosa senhora, fechou atrás de si a porta do quarto, de mansinho.

Saindo para o ar gelado da noite, não sentiu o frio, o seu pensamento estava com a senhora que acabara de deitar e olhando o vasto céu estrelado, numa prece profunda agradeceu, sabendo
reconhecida, que esta senhora se apresentara a si, como o Amor numa das suas múltiplas faces.

Chegou a casa. Dedicou-se às tarefas necessárias do seu lar, escutou e brincou com o filho, até que ambos cansados adormeceram.

Estava só, apenas aparentemente.

No dia seguinte, alguém a aguardava, a Sra. D. Maria Amélia.

Obs: A História e os nomes das personagens, são pura ficção.

Maria (zinha)
16 Dez.2008

2 comentários:

Anaquariana disse...

Sejas muito bem vinda a este espaço Maria.
Gostei da tua história, são os afectos que nos movem, apesar de tudo!
Continua a contar-nos mais...
Um abraço

Nux@ disse...

Zinha, ADOREI o teu conto.
É próprio para esta época natalícia!
O espírito é este, amor pelo próximo e acreditar sempre que não estamos sós, o «mundo» rodeia-nos e se nos «der-mos» aos outros estaremos sempre acompanhados e teremos o seu carinho e ... quem sabe o seu amor!
Beijos no coração amuguinha ;)

Nuxa