sábado, 15 de novembro de 2008

Cândida - cont


Nesta altura do ano, pelos Santos, Augusto, como mestre da fábrica, tinha como função, observar os rebanhos que desciam da serra e passar por cada um dos redis que se montavam nas cercanias da cidade, e que aí pernoitavam, enquanto os pastores se reabasteciam nas tendas e tascas. No dia seguinte, ao raiar do dia seguiriam viagem até Alpedrinha, próxima paragem.

Olhava os animais, com o seu saber. Cabia-lhe escolher os rebanhos mais bem tratados e contratar com os pastores a lã (guedelhas) que na próxima primavera resultaria da tosquia anual... tinha de se adiantar aos outros concorrentes..... o negócio era apalavrado na tasca, o primeiro acerto era selado com aguardente de zimbro, bastava a palavra e o aperto de mão.

Estava frio e cheirava a castanhas assadas misturadas com cheiro de caruma queimada. Acercou-se de um redil com mais de cem cabeças de gado, dois cães saltaram-lhe ao caminho, o que fez com que tivesse ficado quieto e arrepiado. Pensou:

-Não se pode mostrar medo aos cães, eles persentem!

- Ei garoto! segura os cães! estás a dormir? estás a tomar conta do gado ou a pensar na morte da bezerra? o teu patrão?

- Não é mê patrão é mê pai, está a cear na tasca do Matos, porquê? Vomecê, não sabe que os cães são para guardar? Eles estão capazes até de me morder a mim, porque desde Unhais que vimos a ser seguidos pelos lobos, elas (apontando para as ovelhas) pariram na serra mais cedo e mais que o costumeiro e temos muitos borregos. Aos demónios dos lobos dá-lhes o cheiro. Encobertos no nevoeiro que faz lá para cima, só os cães e os nossos pêlos arrepiados dão por eles. E vomêce é quem? se quer falar com ele vá ver dele à tasca, isto se ainda o apanhar a dizer coisa com coisa, já está para lá desde que o sol se pôs.

- Segura aí o cão. Antes de ir ter com o teu pai quero olhar o gado

- Anda cá Farrusco!!!!!! grita ao mesmo tempo que lhe atira com o cajado - E continua, entre dentes - Já não fazes diferença entre o cheiro a lobo e a brilhantina?????

- No Matos pergunto por quem?

- Pelo Manel da Várzea. Mais alguma coisa?

Augusto acenou com a cabeça e seguiu caminho até à tasca do Matos

Entrou e tirou do bolso o lenço para limpar o pingo do nariz, resultado do frio que fazia na rua, mas também porque o cheiro lá dentro era o mesmo de todos os anos por aquela altura, intenso, quase irrespirável, um misto de vinho, aguardente, bedum, tabaco de enrolar misturado com barba de milho queimada e outros cheiros humanos bem mais dificeis de suportar que todos os outros.

Perguntou alto pelo Manel da Várzea e um homem que estava sentado sózinho num canto, quase sem levantar os olhos do prato de barro, cheio de uma sopa que mais parecia um guizado, levantou a mão.

- O seu cachopo disse-me que o encontrava aqui. Mas oh! homem está doente ou de mau humor?

- Boa note! estou com vontade de chegar a casa. Pergunta por mim porquê?

- Estive a olhar o seu gado. É seu? ou você é assalarido de alguém?

- É meu! e vomêce vem pela lã?

- Ainda não ceei e essa sopa está com bom ar, posso fazer-lhe companhia Sr. Manel?

- Assente-se! Matos!!!! serve aí outra!!! e traz mais vinho, mas do novo, que o que puseste antes está bom para a tua por no comer, ou para o dares aos que já chegam aqui bêbos!!!!

Cont.....

domingo, 9 de novembro de 2008

Cândida



«Contarei a história da mulher do feitor»






Cândida.
Raras vezes um nome era tão acertado como este.
Assim se chamava a moça da Covilhã com quem o feitor tinha aprazado casamento.
Já lá iam uns bons pares de anos, era ela ainda uma menina de bibe, quando as famílias dos dois lhes traçaram o futuro, estava ele quase de abalada para as províncias ultramarinas já com a carta de chamada para São Tomé, que lha tinha conseguido o mais notável membro da família dele, o primo padre que estava em missão naquelas terras.
No entender do seu pai, o conversado da sua menina Cândida, tinha primeiro de se fazer à vida e depois que ele tivesse os proventos bastantes para dar uma boa vida à sua "obra de arte", como ele mesmo dizia, então sim! Ele lha entregaria, mesmo que isso lhe custasse não ver mais a sua única filha mulher.


Nem as gotas de suor que lhe escorriam nas faces lhas coravam, por momentos teve de se apoiar no arbusto que ladeava a entrada da roça. O moleque que lhe transportava a ceira que ela a muito custo lhe tinha confiado, porque era preciosa, pois, estava cheia dos seus tesouros (um terço enfiado de pequenas contas de cristal de rocha retiradas das profundezas das Minas da Panasqueira, o missal de coiro preto gravado a letras de ouro já quase todas sumidas do uso que lhe tinha sido dado pela mãe, o lenço de mão de linho branco que ela bordara e outras preciosidades, como a foto da família tirada no fotógrafo mais famoso da Covilhã, “Foto Corrêa”, e as arcadas que teve de tirar das orelhas durante a viagem, porque nem o peso delas aguentara) o moleque, dizia eu, abriu os olhos e esfregou-os, a «patroinha» tinha desaparecido, magia? Não! Quando se encostou ao arbusto a brancura de Cândida confundiu-se com as suas flores, inúmeros ibiscos brancos e os seus olhos verdes pareciam duas folhas enroladas, acabadas de despontar, até o chapéu branco de palhinha, que a madrinha lhe tinha oferecido, porque mulher branca nunca desembarcava sem a sua «capeline», ajudou ao momento de ilusionismo.
Todos correram a ampará-la. Ela sorriu, endireitou-se e justificou a tontura pelo cansaço da viagem, o balanço do barquinho que tinha feito o transbordo do paquete Mouzinho para o ancoradouro da cidade de São Tomé e o calor húmido do astro daquela terra. Desconhecia ainda, o verdadeiro motivo, o pequeno ser que já trazia dentro de si….
Aí também o seu nome condizia, à jovem Cândida, ninguém tinha desvendado os segredos da intimidade de mulher casada, tudo tinha sido feito por instinto e porque devia ser submissa ao seu homem.
No seu entender, também o batuque ritmado de boas-vindas, som que lhe era estranho, fora a causa dos arrepios de emoção que tinha sentido, porque, por instantes lhe tinham lembrado o som dos teares da sua querida terra natal, daí aquela tontura e náusea.

Agora só, no quarto de vestir, onde se tinha recolhido um pouco para se refrescar, antes de assumir o seu papel de mulher do feitor, Cândida, recuava no tempo, ao tempo em que o seu pai conhecera o pai do seu homem.
Era Novembro, pelos Santos, altura em que os rebanhos desciam a Serra e passavam pela Covilhã a caminho dos pastos verdejantes de Idanha para aí passarem o Inverno.
As origens do feitor eram as campinas da Beira.

Cont.