
Nesta altura do ano, pelos Santos, Augusto, como mestre da fábrica, tinha como função, observar os rebanhos que desciam da serra e passar por cada um dos redis que se montavam nas cercanias da cidade, e que aí pernoitavam, enquanto os pastores se reabasteciam nas tendas e tascas. No dia seguinte, ao raiar do dia seguiriam viagem até Alpedrinha, próxima paragem.
Olhava os animais, com o seu saber. Cabia-lhe escolher os rebanhos mais bem tratados e contratar com os pastores a lã (guedelhas) que na próxima primavera resultaria da tosquia anual... tinha de se adiantar aos outros concorrentes..... o negócio era apalavrado na tasca, o primeiro acerto era selado com aguardente de zimbro, bastava a palavra e o aperto de mão.
Estava frio e cheirava a castanhas assadas misturadas com cheiro de caruma queimada. Acercou-se de um redil com mais de cem cabeças de gado, dois cães saltaram-lhe ao caminho, o que fez com que tivesse ficado quieto e arrepiado. Pensou:
-Não se pode mostrar medo aos cães, eles persentem!
- Ei garoto! segura os cães! estás a dormir? estás a tomar conta do gado ou a pensar na morte da bezerra? o teu patrão?
- Não é mê patrão é mê pai, está a cear na tasca do Matos, porquê? Vomecê, não sabe que os cães são para guardar? Eles estão capazes até de me morder a mim, porque desde Unhais que vimos a ser seguidos pelos lobos, elas (apontando para as ovelhas) pariram na serra mais cedo e mais que o costumeiro e temos muitos borregos. Aos demónios dos lobos dá-lhes o cheiro. Encobertos no nevoeiro que faz lá para cima, só os cães e os nossos pêlos arrepiados dão por eles. E vomêce é quem? se quer falar com ele vá ver dele à tasca, isto se ainda o apanhar a dizer coisa com coisa, já está para lá desde que o sol se pôs.
- Segura aí o cão. Antes de ir ter com o teu pai quero olhar o gado
- Anda cá Farrusco!!!!!! grita ao mesmo tempo que lhe atira com o cajado - E continua, entre dentes - Já não fazes diferença entre o cheiro a lobo e a brilhantina?????
- No Matos pergunto por quem?
- Pelo Manel da Várzea. Mais alguma coisa?
Augusto acenou com a cabeça e seguiu caminho até à tasca do Matos
Entrou e tirou do bolso o lenço para limpar o pingo do nariz, resultado do frio que fazia na rua, mas também porque o cheiro lá dentro era o mesmo de todos os anos por aquela altura, intenso, quase irrespirável, um misto de vinho, aguardente, bedum, tabaco de enrolar misturado com barba de milho queimada e outros cheiros humanos bem mais dificeis de suportar que todos os outros.
Perguntou alto pelo Manel da Várzea e um homem que estava sentado sózinho num canto, quase sem levantar os olhos do prato de barro, cheio de uma sopa que mais parecia um guizado, levantou a mão.
- O seu cachopo disse-me que o encontrava aqui. Mas oh! homem está doente ou de mau humor?
- Boa note! estou com vontade de chegar a casa. Pergunta por mim porquê?
- Estive a olhar o seu gado. É seu? ou você é assalarido de alguém?
- É meu! e vomêce vem pela lã?
- Ainda não ceei e essa sopa está com bom ar, posso fazer-lhe companhia Sr. Manel?
- Assente-se! Matos!!!! serve aí outra!!! e traz mais vinho, mas do novo, que o que puseste antes está bom para a tua por no comer, ou para o dares aos que já chegam aqui bêbos!!!!
Cont.....
2 comentários:
Tem graça, Rosário, que até cheiro tem o teu conto, cheira ao rebanho, o cheiro dos animais e das tascas, o cheiro do vinho, da sopa quente ...
Espero ...
Nuxa
Continua ...
parece que oiço o som das suas vozes.
Beijo,
Maria da Lua
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