domingo, 28 de novembro de 2010

Fernando Pessoa

RICARDO REIS



A FLOR QUE ÉS



A flor que és, não a que dás, eu quero

Porque me negas o que te peço

Tempo há para negares

Depois de teres dado

Flor, sê-me flor, se te colher avaro

A mão da infausta esfinge, tu perere

Sombra errarrás absurda,

Buscando o que não deste

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Eugénio de Andrade


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos os olhos com o sol das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.


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Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que os meus olhos eramj realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

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domingo, 7 de novembro de 2010

Quasi


Mário de Sá-Carneiro
Um pouco mais de sol - eu era brasa
Um pouco mais de azul - eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe d' asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
E grande sonho - ó dor! - quasi vivido...
Quasi o amor, quasi o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quasi a expansão...
Mas na minh' alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
-Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim...-
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - veja-as cerradas;
E mãos d'heróis, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A quem comigo vai

Digo para quem comigo no coração vai
Aí tens este dia como um sulco para semear
Sê hoje feliz. É-me absolutamente necessário que o sejas!!!!!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A todos os arautos do reino

Determino, rei dos meus domínios, que se proclame, à cidade e ao mundo, amanhã, pelo toque das primeiras rezas, que Dª Maria do Rosário faz anos e por isso lhe prestamos vinte e quatro horas de vassalagem.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

RASURAS

Tu sabes, como tenho medo das palavras e como elas me cansam. Sei que há palavras que escrevendo-as nos escrevem. e que ao dizê-las nos perseguem, mas isso não me impedirá de ser livre e de procurar pôr nelas ternura, amigos, coisas simples; a vida...

Falo por exsperiência. Às vezes também dou comigo a pegar em certas páginas do meu passado, a relê-las, a rasurá-las. Tempo perdido, o das rasuras. É inútil procurar pássaros nos ninhos do passado.

Cabem muitos caminhos dentro da nossa vida sempre breve (sempre mais breve do que queremos), mas em todos há mensagens. Quero lê-las e tomar as notas imprescindíveis e lançar os passos para diante.

Erramos porque somos humanos, mas que isso não nos impeça de cantar todos os dias, não nos impeça de acreditar.

Erramos, deixamos muitas coisas perdidas pelo caminho, mas que isso não nos impeça de acreditar que aquilo que perdemos continua a ser nosso enquanto o procurarmos.

Também a «ave canta, mesmo que se parta o ramo, porque sabe que tem asas»

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

http://www.youtube.com/watch?v=JP4qSiJX3kQ

Eire - Cork (Irlanda portanto), Agosto 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

FELICIDADE

A felicidade é mais ou menos como uma parede que nos rodeia, branca e limpa às vezes, suja e velha outras e outras ainda um nada onde estamos metidos, com uma quantidade de coisas atrás.... que no fundo nos acompanharam, mas já eram....

Li um livro, onde o autor percorreu o mundo à procura dos países mais felizes; ou não; e porquê.

Ele concluía mais ou menos isto:


Índia - A felicidade é uma contradição
Butão - A felicidade é uma política
Holanda - A felicidade é um número
Suiça - A felicidade é um tédio
Qatar - A felicidade é um bilhete de lotaria premiado
Islândia - A felicidade é um fracasso
Moldávia - A felicidade vive noutro lado
Tailândia - A felicidade é não pensar
Grã-Bretanha - A felicidade é um projecto em desenvolvimento
América - A felicidade é o lar

Afinal qual será o segredo de ser feliz?????????
Simplesmente continuar a sorrir.
Mesmo quando está triste

RIA SEMPRE

domingo, 12 de setembro de 2010

O Quarto

Estava profundamente desarru- mado. Mas é absolutamente necessário saber-se o que é um quarto profundamente desarrumado.
Não é um quarto desleixado. Um quarto desleixado é um quarto que esteve arrumado e conserva ainda os vestígios de uma ordem anterior. Poderá ter uma boa cama de mogno, apenas ligeiramente manchado ainda que desfeita há dias, mas as almofadas, de boa espuma conservam as fronhas, embora de brancura duvidosa.
A mesa castanha, de madeira de boa origem, desarrumada obviamente, conserva, singularmente, uma fileira de livros parcialmente ordenados embora em tudo o resto, possa jazer um tinteiro por debaixo de dois jornais de data recente e uma caneta vulgar, que obviamente se não encontra dentro do livro que se começou a ler há uns dias. Pode até conceder-se uma camisa branca, atirada sobre uma cadeira a escorregar para o chão mas, num equilíbrio instável, sem o tocar.
As cortinas, duplas, umas translúcidas e outras de tecido encorpado, estão apenas ligeiramente amarrotadas e as tiras de tecido, feitas para as suster dos lados, pendem, com alguma tristeza, sem os seus característicos laços de enfeite.
Num quarto desleixado cheira a cigarro e a um adocicado de vinho, possivelmente branco e de colheita recente, mas a porta para a varanda, mantém o retrato aos quadrados do prédio fronteiro, ainda que se perceba um ligeiro vestígio de pó e a marca policial de quatro digitais.

Um quarto profundamente desarrumado, e insisto no profundamente, é completamente diferente. Comece-se pelo cheiro. É um cheiro a humidade que sempre lá esteve, mas pontilhado com suaves réstias de conhaque, legítimo! A cama de ferro, estreita mas arte-nova, suporta um colchão de penas ligeiramente descaído para o lado esquerdo e listrado a cinza e prateado. Não fora a enorme mancha junto à cabeceira e dir-se-ia serem desnecessários lençóis, que de resto lá não estão. Apenas um cobertor fino, talvez uma colcha, vermelho escuro, num rodilho, dá fronteira aos pés d’ alguém. Se lá estivesse alguém.
Junto à cama estão dois sapatos castanhos, um sem os competentes atacadores, embora só um olhar atento disso se aperceba, de tal forma o buraco na sola fita atentamente o fio, que do tecto trabalhado a estuque, suporta a lâmpada, de uma solidão singular,  a meia-altura entre tecto e chão.
Um livro, encadernado em boa carneira, está meticulosamente arrumado junto à parede cabeceira. É apenas um nota dissonante junto a um amontoado de papéis e revistas que saem, como que deslizam, por debaixo da cama, impedidos entretanto na caminhada por um copo esguio de bom cristal que conserva ainda no bordo superior uma qualquer marca em papel azul-escuro.
A secretária, pois que de uma secretária se trata, é matemática na sua simplicidade. Apenas um tampo de madeira resistente com uns bons três dedos de espessura, suportado por duas travessas igualmente espessas que descem a toda a largura até ao chão.
A cadeira é de palhinha e espaldar arredondado. Está uma peúga castanha, sempre esteve, no assento da cadeira. Na mesa apenas um castiçal com três velas por estrear e uma caneta de tampa prateada sobre umas quantas folhas de papel amarelo. O tinteiro, impecavelmente alinhado junto ao candeeiro, ostenta a etiqueta impossível: “TINTA”.
Existe ainda uma janela do lado esquerdo da cama. A cortina, uma só, desce das argolas de latão até uns cerca de sessenta centímetros do chão e o tecido, talvez creme, revela a sua origem nos desenhos pouco perceptíveis em ligeiro baixo-relevo. Terá sido uma colcha noutro tempo.
O chão será de madeira, mas à luz frouxa da lâmpada, domina um tapete cansado, de cores suaves e fugidias onde se distingue um emaranhado de caracteres árabes, a preto, que o cobrem na totalidade como se de um texto se tratasse. Ainda assim ininteligível pelas manchas que aqui e acolá se vão entornando um pouco por todo o lado.

Foi naquele momento, naquele momento igual a todos os outros, que resolvi de uma forma definitiva, firme, diria que com uma determinação quase férrea, se este termo ainda se usasse, arrumar o desarrumo, pôr ordem no caos, iluminar as sombras, colorir o desmaio, dar movimento ao imutável. Restaurar, modernizar, esquadrejar, polir, encerar … enfim, recomeçar. Que há sempre um recomeço quando se arruma.

Estou agora sentado à secretária. Parece-me surpreender um ar de estranheza no tampo de madeira escura. Talvez a sua simplicidade matemática lhe torne possível a expressão. À minha frente tenho um papel texturado, ligeiramente cremoso onde escrevi em jeito de título “O Quarto”. À minha volta, amarfanhadas, folhas de papel texturado, ligeiramente cremoso, cerca de quarenta folhas. Todas com uma palavra, em jeito de título: "O Quarto"

Romeiro, Setembro, 2010

Gota d'água

Esta gota, gota d' água, que caiu neste papel, pôs-me mesmo, agora mesmo, a pensar no seu caminho e no tempo que, por certo, terá já visto passar.
A gota que num repente, caiu - mesmo - no papel, mesmo simples mesmo gota, não é gota, é todo o tempo, guardado aqui : neste instante!
Viu Tróia, viu cavaleiros, viu os Moinhos - Quixote! Foi a Senhora do Lago, foi Morgaine, Lancelote, e, muito mais tarde, talvez, por ser pura a gota d' água, tenha sido, mesmo em retrato, uma lágrima de Gray.
E foi Sonata ao Luar, em pingos de melodia! Esta gota, gota d' água, que me caiu no papel, foi pérola de não deixar, num poema de Brel.
Foi Hipátia - Alexandria! Descartes, Newton, Babbage. E foi o número de ouro, dos gregos e Fibonacci.
Esta gota, gota d' água que me caiu no papel, de tão simples, tão instante ... foi só o tempo a passar.
Romeiro, Setembro, 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

História de um Bolero


Desde Maio que passo dia após dia a deambular pelo terreiro
Não encontro nem oiço o tal bolero!!!!!!!!!!!
Nem na praia........

quinta-feira, 15 de abril de 2010


MAIS UMA PRIMAVERA



É preciso um esforço mais vigoroso e consciente para remar contra a corrente do que para se deixar levar rio abaixo. A lei da gravidade puxa para baixo; os instintos puxam para baixo; o peso da comodidade deixa-nos em terra plana.
Se na vida nos deixarmos levar pelos instintos e inclinações, por comodidade e conveniências, não poderemos voar a grande altura, a nossa vida torna-se rasteira, de voo baixo, de visão muito limitada, de horizontes muito curtos
É sempre mais bonito aspirar às alturas oxigenadas do que ao bafío dos pântanos.
Só precisamos de acreditar
A Primavera já nos sorri
Ela nunca desiste.
Olhamos para ela e de certo teremos Coragem e em frente, sempre mais alto na nossa perfeição

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Carta circular

Queria dizer-lhe, com os meus respeitos, partilhando consigo todo o desencanto que será seu, após a leitura do que aqui lhe escrevo, porque por certo após isto, não mais verá, sequer nas madrugadas, o perfume das flores que se abrem na expectativa dos primeiros raios de sol, o seguinte:

Os homens morreram! Todos!


Acabaram-se os jantares naquele restaurante com vista para o mar em que se ouvia o marulhar das ondas, no compasso da música ténue do piano. Não mais o cavalheiro que a encantou, nem outro qualquer – obviamente – lhe aconchegará a cadeira de palhinha no seu sentar à mesa. Para seu conforto e, para que o mundo veja!


Nunca mais surpreenderá o ar ausente do dito, perdido no movimento dos seus lábios e no cetim da pele junto ao colar que, honestamente, lhe fica muito bem junto à simplicidade pensada das jóias que Vª Exa. usa. Nunca mais lhe surpreenderá esse ar ausente, porque como digo : os homens morreram! Todos!

Aquele gesto de acariciar, com um só dedo, que ele lhe faz muito ao de leve, quase sem tocar, pela testa, seguindo a sinuosidade do nariz, desenhando os lábios numa ternura quase indecente. Que após o queixo, vai descendo para a febre d’entre-os-seios e lhe provoca aquele arrepio num suspiro? Esqueça! Ou melhor, guarde na memória! Nunca mais o terá porque os homens morreram. Todos!

E aquele olhar brilhante com que ele irradia o seu corpo, alheio a tudo o que não seja os seios, a curva suave do seu colo e a sugestão do sexo naquelas calças justas que escolheu demoradamente pensando na maravilha de as despir? Nada, acabou-se! D’ora em diante poderá ser muito menos criteriosa. Vista qualquer coisa. E não vá pelas amigas, elas querem ser belas no singular.

E o sossegar, ao fim da tarde de praia, a olharem os dois a dança das ondas e o ciciar da espuma? Com as suas costas a sentirem o peito dele, e os beijos ocasionais no pescoço, na fímbria do cabelo? Nada! Foram-se. Já nem lhe digo porquê.

Pois minha amiga, é com todo o pesar que lhe deixo estes apontamentos, do muito que mais haveria. Eu próprio me fico por aqui porque…. Por isso mesmo, os homens morreram todos!