Os tempos vão mudando e os homens mudam com os tempos, certo é que, naquele tempo, o casamento combinado pelas famílias durava a eternidade da vida.Já o amor, quando havia, fazia do tempo voragem que se não sente a fugir, e da vida um de repente, enquanto se não combina, ficar-se assim para a vida.
Assim era naquele tempo, como neste tempo é também.
À Cândida combinaram-lhe o destino as duas famílias. Ainda de bibe, não sabia que viria a casar com Adelino, o mesmo que iria tentar a vida em S. Tomé, com o favor da carta de chamada do primo padre, homem ilustre e de grande descendência, que por aquelas terras prégava.
E prégava bem. Que os desatinos na terra se pagavam num inferno de fogo e que a miséria da escravidão se viriam a sentar, noutro mundo, à direita de um deus pai, que era o deus a sério e o único, embora fossem três. O único, para além dos feitiços milenares que tomavam conta das sanzalas à noite.
Não sabia ela do destino já traçado mas sabia o pai que lhe desintrincara o novelo da vida. E sabia o pai dele também, pois se há coisa conveniente de saber-se é o futuro, mesmo o dos outros.
Foi fácil a adaptação àquela vida. Passados poucos meses já era a Senhora que nunca fora mas que sabia tão bem ser, ao paladar de quem nunca tivera nem mordomias nem pão que sobrasse. Para tudo e para o resto havia empregados, ou criados, ou moleques.
À Cândida combinaram-lhe o destino as duas famílias. Ainda de bibe, não sabia que viria a casar com Adelino, o mesmo que iria tentar a vida em S. Tomé, com o favor da carta de chamada do primo padre, homem ilustre e de grande descendência, que por aquelas terras prégava.
E prégava bem. Que os desatinos na terra se pagavam num inferno de fogo e que a miséria da escravidão se viriam a sentar, noutro mundo, à direita de um deus pai, que era o deus a sério e o único, embora fossem três. O único, para além dos feitiços milenares que tomavam conta das sanzalas à noite.
Não sabia ela do destino já traçado mas sabia o pai que lhe desintrincara o novelo da vida. E sabia o pai dele também, pois se há coisa conveniente de saber-se é o futuro, mesmo o dos outros.
Foi fácil a adaptação àquela vida. Passados poucos meses já era a Senhora que nunca fora mas que sabia tão bem ser, ao paladar de quem nunca tivera nem mordomias nem pão que sobrasse. Para tudo e para o resto havia empregados, ou criados, ou moleques.
Para tudo e para nada, competia-lhe ser a Senhora, a quem os olhos se baixavam e a quem se pedia para interceder junto ao feitor e, mais tarde, até junto ao Governador, quando já era visita das melhores casas da cidade.
Mas lembrava-se ainda do sufoco que sentira quando, ainda sem saber, passara pela sanzala da roça e chocara com o corpo musculado, suado, quase sobrenatural na sua natureza, de um dos trabalhadores da pedra.
Ele, num susto, quedou-se com os olhos do tamanho do mundo, ela entaramelou, a fugir com os dela presos naquele ébano molhado que lhe sufocou o sono das noites, enquanto o tempo a ia moldando Senhora e o desejo ia adormecendo depressa nos sentidos.
3 comentários:
Sabes o que mais me encanta na tua escrita?
A forma subtil como nos conduzes até à porta dos sentidos.
Mas depois, deixas que sejamos nós a vaguear por dentro deles.
Boa, Romeiro, já não era sem tempo, e o tempo anda a escassear, escoa-me por entre os dias sem saber para onde me virar!
O que eu esperei esta cont.
Estou encantada e deixo-me encantar sempre que te leio.
Espero o desenrolar ...
B-jinhos obrigada :)
Romeiro
Continua conduzindo-nos para esse mundo de encantos que tão bem sabes criar.
Beijos
Maria
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