segunda-feira, 2 de março de 2009

Amélia S. Tomé (IV)


Francisco aprendeu as primeiras letras com o feitor, na cartilha maternal. Onde as sílabas tinham cores diferentes, para se saber que as palavras, que podem fazer chorar ou fazer rir, são somas de nadas que não dizem nada – as sílabas.

Não aprendia depressa nem devagar, aprendia assim-assim. Enquanto num canto, Amélia não perdia nada e já sabia de cor “batem leve levemente, como quem chama por mim…”, e vinham-lhe as lágrimas aos olhos, enquanto Francisco ia transpirando ferrugento “mas às crianças Senhor, porque lhes dais tanta dor?”.

Só não sabia o que era a neve e o Francisco ainda não tinha perguntado ao feitor, mesmo quando pela décima vez se ia enganando “Fui ver. A leve caía do azul-cinzento do céu…”. Neve Francisco! Neve, emendava o feitor.

Neve pai. E o Francisco não perguntava da neve!

Uma vez perguntou ao Francisco, nas brincadeiras do quintal, sabes o que é a neve? Qual neve? A do batem leve. Não sei, mas não há em S. Tomé!
Perguntou ao feitor. Tio o que é a neve? E o feitor perdia os olhos no mar, a neve …a neve …
Ficou a saber que não havia em S. Tomé. Talvez houvesse longe, onde o céu abraça o mar. Onde se perdiam os olhos do feitor.

Depois veio a escola, na Cidade. E todas as manhãs ela e o Francisco num cavalo e o homem que trabalhava na pedra das calçadas, sempre calado, noutro. Que não havia assim perigo nenhum.

Tinha Amélia treze anos quando a senhora mandou que fosse só o Francisco. Depois dela saber da mãe e do lenço vermelho-sangue.

Francisco já ia sozinho à escola. Umas vezes de verdade, outras de mentira, nas tropelias da idade e de filho de feitor, com as filhas tenras da sanzala…

4 comentários:

Anónimo disse...

adoro-te sabes?
a Vida é simplesmente
tudo
isso
que dizes!
Bem Hajas!

ps: continua a "ralhar" .. e agora, só por mim falo: Gosto de te ouvir rabujar!

Maria Lua

Anónimo disse...

"Só não sabia o que era a neve e o Francisco ainda não tinha perguntado ao feitor, mesmo quando pela décima vez se ia enganando “Fui ver. A leve caía do azul-cinzento do céu…”. Neve Francisco! Neve, emendava o feitor.

Neve pai. E o Francisco não perguntava da neve! ...)

mais!!!!! quero mais!


Lindo!

Maria Lua

Nux@ disse...

Um dia, Nelson, iremos reunir esta história linda de amor ... numa só entrada :) como em tempos fizemos com uma outra história ... queres? Até lá é uma história aos pinguinhos, devagarinho, aos bocadinhos ... é bom ler-te, mesmo assim :))
Beijos doces

Nuxa

rosario disse...

Romeiro

Continua!!!!! please!!!!
E o que aconteceu depois?
Essa de começares e de não continuares não se faz!!!

Quando me contas uma história?
Assim não vou conseguir dormir, sem saber o resto!