sexta-feira, 6 de março de 2009

A Ostra


Encontraram-se numa esplanada de um bar de praia, numa sexta-feira, num fim de manhã, quase hora de almoço, num dia ensolarado de inverno.
Ela já lá estava com um café à frente, cabeça para trás, para receber o calor do sol, de olhos fechados e cabeça vazia, por opção.... não lhe apetecia pensar? ou não sabia o que pensar?
Perto e de repente soou um ronco de mota potente a estacionar, motas nunca a deixaram confortável (vá se lá saber porquê). O som fê-la abrir os olhos, era vermelha e o tamanho correspondia ao ronco.
Escondida por detrás dos óculos escuros, com a mesma sensação que o gato escondido com o rabo de fora devia ter, ficou a olhar a mota enquanto o dono saia dela.
Lentamente com ar de quem procurava ele levantou o descanso da mota com o pé e ainda com o capacete olhou para ela.
Caminhou em direcção a ela, com a insegurança de quem não tinha a certeza, e só quando chegou tirou o capacete.
Ela tirou os óculos e ficou a olhar para aquela pessoa que lhe tinha acabado de tapar o sol.
Ele abriu os braços e quase entre dentes disse-lhe:
- Se dúvidas tivesse, esses olhos são inesquecíveis!
Pegou na mão dela e levantando-a abraçou-a. Como um filme em câmara lenta, ficaram ali a balançarem-se com o capacete a fazer de pêndulo. Ela nada podia dizer porque ele repetia-lhe ao ouvido, vezes sem conta, como de um lamento se tratasse:
- Ostra! A minha ostra!!! Ostrinha!!!!!
Quando finalmente ele parou de lhe chamar ostra, ela afastou-o carinhosamente e olhando-o nos olhos riu e disse:
- OSTRA? Ainda bem que não te lembrei uma foca!!!!!!!
- Só tu ostrinha! Continuas com as tuas saídas estratégicas. É bom sinal, afinal ainda te reconheço nesse sentido de humor e nesses olhos que falam sempre mais que a tua boca, afinal ainda aí está tudo.
Entre gargalhadas, como miúdos de escola, sentaram-se, ele explicou:
- Durante todos estes anos, no meu imaginário tu foste a minha ostra...
- Ostra?????
- Sim! Os teus olhos eram o mar e tu uma concha com uma pérola linda dentro dela, assim que te tocava fechavas-te como uma ostra! Lembras? parece que te estou a ouvir, quando te abraçava e tu me dizias - Olha quem lá vem! é mentira! era só para tirares o braço! e depois rias que nem uma tonta. Eras o meu tesouro, que guardei, para nada! porque veio um bruto de um pirata que mo roubou! porquê? porque não te fechaste como fazias comigo? porque deixaste que ele .... se soubesses como me senti quando me disseram que tinhas casado... mas hoje vais dizer-me porquê? Depois só te tornei a ver no casamento do teu irmão, tu já com dois filhos pequenos e a única vez que trocámos o olhar havia uma tristeza nos teus olhos, que só me apeteceu perguntar-te ali mesmo porquê!!!!! tu nem me falaste... eu já não gostava dele mas passei a odiá-lo ... O estúpido em vez de ter feito uma joia com a pérola que me roubou, tinha escavacado a minha concha e ainda olhava para mim de lado com ar de vitória.
Ele tinha-lhe pegado na mão e esperava uma resposta que ela não tinha de momento
- Ok! Hora de saída estratégica - Pensou ela!!!!
- Bom dia também para ti! Olá! Como estás! Estás com bom aspecto. Que tens feito? Como se diz isto em linguagem de ostra?
Seguiram-se mais uma série de gargalhadas, ele chamou o empregado e pediu uma bica....

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