sexta-feira, 6 de março de 2009

A Ostra


Cont...


A conversa decorreu animada entre os dois, e desta vez da frente para trás. Ela estava admirada com o que ele sabia do seu percurso de vida, mas afinal, visto à distância era fácilmente explicável assim ser, tinha sido ele a sair da terra e o mais natural seria sempre que ele se encontrasse com alguém da terra perguntasse pelas recordações, pelos amigos e tinham tantos amigos de infância e de liceu em comum.
Chegou a hora de almoçar
- Como é? Onde almoçamos? Almoças comigo não?
- Estava apenas a contar em tomar só um café contigo antes de almoço, não avisei os meus amigos que não almoçava em casa com eles, apesar de isso não ser nenhum problema, mas tenho uma reunião marcada para as três e meia.
- Telefona a avisá-los e almoçamos por aqui perto. Tenho mais um capacete na mota, vens comigo demoramos menos tempo a chegar do que se formos de carro, às três estamos despachados.
- De mota? Nem morta!!! No meio deste trânsito?
- Não acredito! Ainda tens medo de andar de mota? A única vez que consegui convencer-te a dares um passeio de mota comigo fiquei todo marcado na cintura com os beliscos que me deste e tive de parar várias vezes, sempre que fazia uma curva tu inclinavas-te para o lado contrário.
- Pois! E ainda por cima fiquei de castigo, porque o meu querido irmão, para gozar comigo, sim! porque tu fizeste questão de contar a todos que eu tinha medo de andar de mota, resolveu contar aos meus pais que eu tinha medo de andar de mota e que te tinha esgadanhado todo. A minha mãe não achou graça nenhuma nem de eu ter andado de mota e muito menos de ter sido contigo. Tens muita fome?
- Não, porquê?
- Então proponho que comamos uma tosta ou qualquer coisa do género aqui mesmo, está a saber-me bem estar perto do mar com este solinho.
- Continuas a gostar do mar exactamente na proporção inversa do teu gosto em andar de mota está visto. Desde que me prometas que um dia destes vens jantar comigo, aceito.
A propósito do célebre passeio de mota, a conversa virou-se outra vez para os 15 anos dela (18 dele).
- Numa das vezes que parei para te pedir que não inclinasses o corpo para o lado contrário da curva estavas tão assustada que pensei que ias chorar, mas não! saltaste da mota e aos gritos disseste que se eu tornasse a andar com velocidade exigias que eu parasse e levavas tu a mota. Tu que morrias de medo de andar de mota!!! impunhas ser tu a levá-la! quando me pus a rir, ficaste tão furiosa, ameaçaste que regressavas a pé... estávamos no meio da serra lembras? tu viraste-me as costas e puseste-te a andar estrada fora, tive de correr atrás de ti e quando te agarrei para te acalmar tentei dar-te um beijo, ainda hoje me dá vontade de rir quando me lembro da tua cara de zangada e do empurrão que me deste, mas o melhor foi quando me disseste que só não me davas um estalo porque não batias em homens mas que se não te levasse imediatamente para baixo te esquecias que era homem e que me davas mesmo.
- Lembro, exactamente porque não tive prazer em andar de mota me custou tanto o castigo, por norma quando era castigada pelas asneiras que fazia mas que me tinham dado prazer em fazer, pensava sempre "perdoo o mal que me fazes pelo bem que me sabes" e mais, é segredo, mas estava mesmo com vontade de chorar, mas como em mim tudo é ao contrário, achava que "mulher nunca chora" e acredita que se tivesses insistido em me agarrar e beijar levavas mesmo.
- Ostra!!
Ele ia abrir outra vez as gavetas das memórias arquivadas dela e o mal não era abri-las era a desarrumação, era o tornar a baralhar.
- Não, não vou deixar! - pensou ela - Ainda tenho tanto para arquivar quanto mais desarrumar o que está arrumado, não! bem ou mal, para mim o teu processo está fechado e arquivado, tenho outros por arrumar, tenho outras histórias por resolver.
Ela levantou o braço e chamou o empregado
- Vamos saber o que podemos comer por aqui?



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