quarta-feira, 13 de agosto de 2008

História de um Bolero






Prolegómeno



(isto é de um dicionário antigo, pus aqui só para parecer bem)



Estão a levar-me nesse vórtice de confusões com que amiúde me dão cabo dos neurónios de estimação. Por isso fui meditar. A guita que levei, (não é essa … é um cordel!), serviu apenas para regressar. Regressar são, que é coisa que suponho, mas de que não tenho a certeza nunca.



Mas vamos ao que interessa. Não houve baile nenhum, nem vai haver. Houve uma ida à praia, que contaremos todos mais tarde e uma ida a casa da Maria da Lua, que mora junto ao pôr-do-sol, à direita da ponte, no sentido de quem vai.
Aí é que dançaram a Solitude e outras e aí se bebeu o João Pires, (que de pires não tem nada, eu sei!).


Solitude





Pois é. As meninas chegaram ainda o sol se iria aquecer por umas horas. À entrada da povoação, toda amuralhada bem ao estilo das guerras com os mouros, há um terreiro, em terra branca, batida. Aí é que nos foram encontrar. À Solitude nos volteios do Toreador e a mim, vermelho de esforço do rufar no tambor, e do João Pires que fiquei de guardar.

A Solitude dançava sevilhana. Uma dança cigana, sem medida, uma dança de paixão e de sangue, com os olhos, negros em tição, fixos num ponto, meio acima. Uma madeixa de cabelo, apanhado atrás, a cortar a face morena.


As castanholas no alto iam e vinham ao sabor do vento, voláteis como Cármen. As mãos escreviam o drama. O leque negro era um arabesco e o vermelho do vestido, um assomo de Dali, de Picasso e de Hemingway, num dobrar de sinos.

O sapateado forte e constante era a Solitude, no apontar do queixo, acima dos mortais.

E eu lá ia, conforme podia. Na coreografia da Beatriz competia-me o tambor e o vinho, mas creio que fui mais vinho que tambor.


Começaram a chegar as sevilhanas (desculpem, as meninas, as senhoras … o que quiserem!). A Ana vinha mais longe, entre o observador e o passei aqui por acaso, mas foi tal a algazarra das amigas que o sorriso, que se lhe foi chegando aos poucos, se abriu às janelas, às portadas, aos abraços. Era a Ana, toda por inteiro.




Beatriz







À Beatriz competia a organização, que é, por assim dizer, um: ou fazes assim, ou vais pró João Pires (coisa boa, como já tive ocasião de vos dizer).


A ela se deve, portanto, tudo o que por aqui vai seguindo.


A Maria da Lua, tristota mas sem razão, apareceu com um xaile preto da cor da dor. Da cor das viúvas da praia lá abaixo ou da cor de um fado tardio. Ficou de lado e de longe, com um braço ao alto, sem se saber se acenava, ou se amaldiçoava o infinito azul, que ainda era.



Ao lado ficou uma caixa de cartão com um lenço de seda negra, dos que se podem usar também para tapar a cara em dias de vento. E uns olhos grandes, mouros, morenos. Dos que fazem um homem ficar cativo de uma captiva, sem redenção.

A Beatriz usava dois chapéus. Um, que tinha enquanto ordenava ou dizia, de um branco ameaçador sobre os olhos. O outro, por cima de um sorriso aberto, cheio de coisas por dizer, que usava quase sempre.

Entrou agora no terreiro. No terreiro de terra branca, em trajo “de luces”, branco também. Empunhava uma gargalhada e uma espada brilhante. No ar a melodia cresceu, não o Toreador, mas qualquer coisa em francês em ritmo flamengo que dizia “Eh moi D. Quijote, seigneur de la Mancha …”.

E ela, com a graça a que nos habituou, dançava num toureio com lampejos de espada, enquanto as velas de um moinho estalavam por detrás, a compasso.



A Solitude, com um copo na mão, dizia qualquer coisa à Maria da Lua. Fora-se a Cármen ficava a Solitude.




A Beatriz numa volta de brilhos cantava e, do que o vento trazia, percebia-se que dizia de uma Dulcineia d’el Toboso. Quem era a Dulcineia, não sei, seria uma vizinha dela?

Eu, gesticulava para nenhures. Que não conhecia nem D. Quijote nem Brel nenhum, que só conhecia música que metesse tambores. Que não podia ser, que tinha eu tido a ideia e que como sempre acontecia comigo, as coisas ganhavam vida própria e não haveria de haver descontrolo maior.


E batia com o pé no chão. Debalde. Ninguém me ligava nenhuma! Se fosse de copo…mas de balde? Pior um pouco! Ou pior um muito, para ser mais certo.


Angie






A Angie chegou com um sorriso cor-de-rosa na boca túrgida.
Alta, ficava-lhe bem uma sugestão anos sessenta, nos panos de cor leve que trazia e no cabelo trançado até à cintura. A nota dominante era de uma certa fragilidade que os olhos sublinhavam. Exalava simpatia e fez-se um silêncio.

Eu próprio, de resto, tinha já perdido os artefactos com que até ali zurzia a pele do animal, no arremedo do tamboreio.



Apareceu-lhe na mão aquilo que me pareceu ser um clarim, e arrancou da alma, estridente, vítreo, cristalino, a evolar-se para o infinito da tarde, um “petit fleur” que era uma hipérbole em direcção ao céu!

Com a respiração suspensa, fomos subindo a escala de agudos sem que nos largasse a mão que nos levava vertiginosa. Cá em baixo ficava o mar e o vermelho do sol junto à ponte. A Maria da Lua era a primeira, junto ao clarim que cintilava. E o xaile caía, ondulava em vento, na direcção do mar.

À medida que a melodia foi adoçando fomos descendo, em suavidades de brisa, até ao terreiro. A Angie fez perder-se a última nota, que desceu lenta até ao mar, até ao pôr-do-sol junto à ponte, à direita de quem vai.

A mim até o hálito a vinho se me foi! O que não deixou de ser a tempo pois tinha dado conta de umas duas garrafas. Ou três. Mas a última pareceu-me mais pequena.




Fernanda






Um rosário será aquilo que se reza, que reza quem acha que sim, ou que reza quem quer, ou apenas pelo sim pelo não. Podia ser um mar de rosas e assim se diria: a vida não é um rosário! (mesmo sendo, sem que a gente note, por ingratidão aos deuses…).

Já uma rosário não existe, nem em português nem em flamengo nem em língua nenhuma. Existe “a Rosário”. E essa eu sei quem é, mas não chegou ainda ao terreiro de terra branca, junto ao pôr-do-sol, à esquerda de quem vai. Ou seria à direita? Era à direita pois. Na Ericeira que eu lembro-me.

A Rosário tratou de tudo. Generosa como é, emprestou um bolero.

Estávamos quase todos e ainda íamos em cantorias e dancerias, que isto de dancerias também existe. Uma sala, por exemplo e de fugida, pode ter quatro cantos, são as cantorias da sala. E quatro danças também, desde que se não misturem as notas (não, não são essas, são as da música!), nem os pés dos dançarinos se atem, em nó que se não desate.

Estávamos nós ainda em dancerias e o silêncio foi descendo com o sol. Éramos, a Solitude, a Beatriz, a Angie, a Maria da Lua e este vosso criado. Beberricava-se do João Pires e íamos comendo uns papos de anjo que a Maria da Lua trouxe do pôr-do-sol. Lembro-me que a Angie, que é muito directa embora muito doce também, se virou para mim, apontou com o dedo e disse com um riso leve – tens papo de anjo! Eu olhei para a barriga que já vai despontando, quanto a mim do vinhito, e agradeci meio corado de prazer, pois então. Não é todos os dias que me chamam anjo!

Tens papo de anjo no bigode, repetiu a Angie. Logo vi! E virei-me para descorar, mas não pedi desculpa, que os anjos não têm costas.

Começámos a ouvir um som a repetir-se. A repetir-se sempre. Quando parecia que ia mudar voltavam a ser quatro notas. O silêncio já se ouvia espesso. O silêncio por cima das quatro notas que se repetiam sempre.


A última nuvem deixou o sol iluminar um palco redondo no terreiro de terra branca. Olhámos todos, enquanto subia a crescer um som de oboé.


Um som cantado que era uma espiral que subia e descia, que ia e que vinha. Que chorava a rir, que era homem e mulher. Que tinha toda a tristeza e toda a alegria do mundo, numa mistura que vinha do princípio do tempo. E a ária ia aumentando de intensidade, cada vez mais forte, à frente das quatro notas que se repetiam sem fim.


Um vulto em cima do palco abria os braços num abraço. O corpo balançava contido, atrás das quatro notas. O balanço envolvia tudo e todos. Chegamo-nos mais perto. Balançávamos, já sem querer, as quatro notas repetidas.

Os pés cruzavam-se no chão, hirtos sobre os dedos. O corpo num balanço deixava os braços longos abrir em desmesura. E os braços fechavam com o corpo, no balanço das quatro notas. E os pés, hirtos, cravavam no chão o Bolero de Ravel.

Dançava a Fernanda. Não nos via com a luz do fim do sol a iluminar-lhe o rosto de menina. De leve, via-se-lhe um risco da alma ao queixo. Era uma lágrima. Muito pequena. Quase que não era. Ou éramos só nós a ver.

E a Fernanda dançou até muito depois do sol se pôr.



Ana



A Ana Caridade veio sempre andando, desde o princípio. Sempre com aquele ar entre o observador e o passei aqui por acaso. Chegou com um sorriso legítimo, daqueles que não enganam. Daqueles que a gente dá quando gosta, ou apenas quando está a gostar.

Como atrás contei, as amigas demonstraram o seu contentamento. Não que ela disso precisasse, mas o certo é que o sorriso, de brilhante, contagiou toda a gente.


A Ana nunca mais se viu, ou se estava não reparei.



Acabava o bolero das quatro notas, que como se sabe, acaba de rompante, como se se rasgasse a partitura (até aproveitei e dei mais uma paulada final no bombo), quando como por encantamento surgiu a Ana. Olhos escuros, olhos morenos também, com um jeito de, não te perdoo nem que rastejes, mas que escondem lá no fundo uma doçura sem fim.

A farpela era toda oriente, tudo sedas e véus num esvoaçar que punha um homem tonto.

O toque final era o branco dos olhos meio azulado e a tez moura.

Perguntou-nos quem era e foi adiantando que pensássemos em números.

Eu e o João Pires, que continuava guardado bem guardadinho, em vez de nos calarmos fomos logo num desaforo – 2001 Odisseia no Espaço!

A Beatriz, que também é muito diplomata, disse de corrida, és a Sherazade das 1001 noites, eles estão a brincar contigo.
Claro que aquele “estão” me deixou meio amuado. C’os diabos não se devia notar muito e eu até estava bem atinadinho.
Fomo-nos juntando ao pé do lume que a Maria da Lua tinha trazido do pôr-do-sol. Agora já na praia, enquanto os copos e os vinhos e os doces iam circulando por todos, e a imaginação a todos se ia soltando. A todos menos a mim, a quem já se tinha soltado de vez e por mais voltas que desse já não me encontrava, nem por anúncio no Jornal.
A Ana foi-nos sossegando e começou a desfiar histórias antigas. A história de Osmar e Yasmin, a dos Príncipes do Oriente, de Aladino que era o que no norte se chama de um morcão, mas que mesmo assim foi compensado e ficou rei do seu reino.

Principalmente ia contando a sua própria história, a história de Sherazade. A Sherazade que o rei ia poupando da morte, para poder ouvir na noite seguinte outra história e outra e outra…

As histórias que a Ana contava tinham vida mal saíam dos seus lábios. As palavras vinham do fundo do tempo e aquele tom sempre igual, era como se fosse dito ao ouvido de cada um, ou que cada um ouvisse uma história diferente. Mais afeita a si e à sua própria história. Que todos temos uma.

E era a história de Simbad o marinheiro e era o Oriente em lendas e aquela melopeia da voz da Ana em tons graves, que faziam lembrar os tempos em que todos tínhamos ainda pouco tempo.

A última coisa de que me lembro foi da Angie. Dormia com um sorriso de menino e saíam-lhe estrelas pela ponta dos dedos…

Romeiro



Li em tempos um escrito em que se perguntava a um Romeiro “Romeiro, Romeiro, quem és tu?” e ele respondia “ninguém!” apontando para um retrato seu, doutros tempos e noutros atavios. Quem perguntava era esposa, de papel passado, pensando que o legítimo se tinha já finado, lá por Alcácer Quibir.


Mas não tinha. E ela viu-se assim com dois maridos e dois problemas.

Como se deve aprender sempre com a vida e com o que se lê (os mais atentos sabem que não é para levar em conta, mas os outros não), eu aprendi duas coisas com o que vos contei ainda agora. Primeiro que há sempre uma outra forma de ver o mundo - afinal dois maridos pode não ser um problema, até pode ser um agrado, pois pecado sei eu que não é. Segundo - não se deve perguntar a um Romeiro quem é ele, a não ser que se saiba já, ou que não se queira saber e se pergunte só por perguntar.

Estava eu meio a dormir com as minhas amigas (com todas sim, não sejam invejosos nem tenham medo, que eu trato-as bem), quando se ouviu um bater ritmado de um cajado. Não era bem o compasso de um coxo era mais um bater no chão, como as pancadas que se ouvem no teatro, as pancadas de Moliére, dirão os mais entendidos.

E lá apareceu o Romeiro a quem eu, como já sabia alguma coisa da vida, não perguntei coisa nenhuma, que mais não seja para que ele se não achasse importante. Ou mais importante que eu, que é o importante.



Com o barulho e o descanso, as minhas amigas lá foram despertando. Despertando e desapertando que o calor daquela noite de lua cheia e o barulho da água ali mesmo ao pé, convidavam a um banho retemperador do corpo, da alma e do resto. Do resto não, que só temos corpo e alma, se resto houver é corpo também.


Havia um passeio estreito bordejado de postes cujos candeeiros quem quer que fosse mantinha apagados (talvez estivessem estragados, eu pergunto depois à Maria da Lua). O passeio, em terra batida, branca como o resto, e agora ainda mais branca com a lua cheia, ia dar ao mar e foi por aí que as minhas amigas foram correndo e deitando os seus atavios para a areia à medida da corrida.


E eu, que também já estava cheio de calor, deixei por ali o Romeiro pensativo e fui também correndo a tocar os sinos, porque em cada candeeiro, havia de acertar eu com esta cabeça que deus um dia fez com algum tino, mas que se foi perdendo, à medida que lhe fui conhecendo o resto da criação.


Se os poetas tiveram musas, haviam de ser como estas. Do Tejo ou de outro lugar haviam de ser assim. E eram cheiros a canela e a especiarias (das histórias da Ana, penso eu) a misturarem-se com a maresia e com os sentidos, que já não faziam sentido nenhum, a deixarem-se levar pela espuma de mulher e pela pele doce do mar.


Estava eu neste desvario quando senti uma mão no ombro. Vai tratar dessa testa. Que eu veja tens sete galos, ou galinhas, sei eu lá.

Era o Romeiro.


Brincadeira de Tchekhov


Os galos na testa não foram um drama. Em menos de um ai e umas pedras de gelo, do alguidar que estava a refrescar o João (já temos alguma intimidade, como se vê…) e estava pronto para outra. Pronto pronto não, porque entretanto as minhas amigas já estavam mais ou menos tapadas e não havia razões para eu voltar a contar candeeiros com a cabeça.
Estava eu nestas cogitações e também a olhar para os botões da blusa da Ana que, de mal alinhados não deixavam adivinhar nada, deixavam mesmo ver tudo o que deus lhe deu, e bem, quando foi o caso de estarmos já todos juntos e o Romeiro no meio, parece, à espera que nos calássemos.
Disse ele (ninguém lhe perguntou, nisso levei a melhor), que estariam as damas e o cavalheiro à espera que ele dissesse quem era e ao que vinha. E tinha razão, lá isso tinha.

E vai dali, começou por dizer que ele e eu éramos a mesma pessoa. Ou melhor, se eu me consigo explicar, que ele era outra parte deste vosso humilde criado!


Penso que terá dito até que era a melhor parte, questão duvidosa porque das minhas amigas, nenhuma se queixou e a ele, não estavam a ligar grande coisa.

A Ana até já se tinha embrulhado num xaile branco e por aqui se vê!


A modos que ele seria a minha consciência e eu, que daqui vos escrevo, seria assim como o Sancho Pança da história do cavaleiro: pobre, honrado, bom rapaz, amigo de um bom copo e pouco mais.

Sem mais delongas disse o que queria. Contar um conto!

Eu fiquei a pensar no que se tinha ele metido, querendo ser tão esperto, que depois das mil e uma noites da Ana, não havia conto, nem desconto, que valesse o tempo de o ouvir.


Que o conto não era dele mas de um grande mestre da literatura, já morto claro, que os bons estão sempre mortos, também é costume, sim senhor e que o conto se chamava só assim – brincadeira.

Achei pouco, mas ouvi.


Nadenka era pouco mais que adolescente. Pelos dezasseis anos, o cabelo escuro, em caracóis, descia-lhe junto às fontes e emoldurava um rosto trigueiro que a neve salpicava por vezes de prata. Eu, da cidade, andava pelos vinte e estava de férias.

Conheci-a no parque, onde dávamos passeios de manhã e ao final da tarde, de braço dado. Ela perguntava, num enleio de moça e eu lá ia contando sobre o mundo, sobre a cidade, sobre o que sabia e sobre o que não sabia também.


Naquela manhã de um Dezembro cortante, estávamos no cimo do monte junto ao declive onde os mais corajosos, poucos, se aventuravam a descer, num trenó vermelho ali ao lado, por um precipício de gelo e bruma até à planície ao fundo.

Num repente, virei-me para Nadenka e pedi: desça comigo no trenó, só uma vez, vai ver que gosta, prometo. Ela olhava para o abismo, pálida, aterrorizada, media a distância entre as galochas pequeninas e a planície ao longe e com uma voz fraca recusou.

Perante a insistência e o rosto insinuante que encostei ao dela, sentou-se trémula no trenó, como se fosse, por certeza, a última coisa que faria viva.


Aconcheguei-a a mim e começámos a descer. O trenó foi ganhando velocidade, numa vertigem. O vento uivava-nos à face, os patins gemiam num esforço derradeiro, parecia que o próprio demónio nos levava nas garras pelo monte abaixo, senti o corpo hirto encostar-se ao meu e todo o desespero de Nadenka a cair, cair, cair, para um abismo sem retorno.

E o trenó cada vez mais rápido, entrava numa bruma espessa e húmida. Nessa altura, no ponto mais alto da aflição, disse a meia voz: amo-te Nadenka!
Senti-lhe o estremecer do corpo num aconchego ao meu e o trenó foi afrouxando até parar na planície !

Enquanto subíamos a encosta, pelo caminho mais longo, Nadenka olhava, perscrutando-me com os olhos escuros, ainda infantis e eu, despreocupado, acendi um cigarro, fitando atentamente a minha luva. Por várias vezes lhe surpreendi o olhar e por outras tantas lhe mostrei a minha indiferença. Teria sido o vento? Teria sido ele? Teria sido o vento? Lia-lhe nos olhos a dúvida.

Demos mais um passeio pelo parque e despedi-me, por entre os silêncios que gritavam: teria sido o vento? Teria sido ele?

Cheguei a casa e esperava-me um bilhete. “Se quiser descer no trenó amanhã, passe por minha casa. Nadenka”.


O dia seguinte foi uma repetição do anterior. O mesmo pavor, a mesma tortura numa descida vertiginosa e no cume do desvario um sussurro: Amo-te Nadenka!

A mesma subida, a mesma dúvida e a minha indiferença, a falar da cidade dos amigos e das férias a acabar. Os olhos de Nadenka procuravam sofregamente os meus (teria sido o vento? Teria sido ele? Não podia ser o vento! Ela queria que não fosse o vento!), os meus, mais treinados, olhavam tudo, com a indiferença do costume.

Daí em diante todos os dias desci pelo precipício com ela. Estava viciada naquele “amo-te”, do vento, meu, de quem fosse. Precisava dele, queria ouvi-lo não importava de quem!

Já por Março, na véspera da partida, fui sozinho. Vi-a chegar, olhar para todos os lados, pôr-se em bicos de pés à minha procura e por fim, lentamente, entrar sozinha no trenó vermelho!

Imaginei o pavor, o vórtice, o uivo, as unhas de criança cravadas no almofadado vermelha e finalmente a planície e a paragem. Olhou para trás ainda mal saía e ficou um momento parada. Em desespero interpelava o vento!

No dia seguinte, partiria pouco depois, fui ao parque uma última vez e lá estava de novo. Vi-lhe o olhar de quem procura e pouco depois meter-se no trenó. Vi-a iniciar a descida, o frenesim da velocidade, o terror da descida e, no auge do medo, disse de cima, a meia voz :“Amo-te Nadenka”.

O rosto à subida irradiava a felicidade que só uma criança pode sentir. Uma lágrima deslizava-lhe pela face, vermelha do esforço. Eu, parti sem me despedir!


Passaram anos, estou mais velho e Nadenka já casou com o curador lá da terra. Tem três filhos e terá sido um casamento acordado pelas famílias. É feliz ao que parece, ou no que é possível, mas nunca esqueceu aquele “Amo-te Nadenka” da adolescência. !

Quanto a mim, que agora recordo, nunca percebi porque fiz aquilo. Foi apenas uma brincadeira!


Rosário (por ela própria)



Despido o fato de serapilheira abriste os braços, que ficaram do tamanho do terreiro, da praia e do pôr-do-sol.

Tinhas fraccionado para completar. Embalavas o teu porquê, ou era ele que te embalava a ti, não sei nem isso importa. Unindo todas as partes que, de tão diferentes inexplicavelmente se encaixavam, tinhas pintado um quadro!

Com o vermelho que só a paixão do flamenco da Solitude podia emprestar, com o negro translúcido (do Fado … da Saudade) estampado no xaile da Maria da Lua, com os tons leves e doces, que suavizam a paixão, que te trouxe a Angie, com a loucura de Quixote que te emprestou até o Sancho pela mão da Beatriz. E a Ana com os perfumes da canela, do cravinho e do sândalo a unir todos os tons com a cor terra dos olhos e a propiciar o sonho, nas mil e uma noites de laranjas e dourados do oriente.

À Fernanda, com o Bolero, bem à ‘Les uns et les Autres’, competiu estruturar o conto e mantê-lo em movimento mas nele puseste os teus cinco sentidos: o odor inebriante do mar e do terreiro, a visão magnífica do pôr-do-sol, o sabor do vinho misturado com os doces, o som da música que nos elevava e o toque suave das sedas dos fatos dos xailes e dos lenços.

Parada, não à direita, não à esquerda mas ao centro, da galeria que eram os teus braços olhava, meio encolhida. Não tinha pago entrada, mas com a audácia de quem tinha feito tudo para cumprimentar o autor eu estava lá, pronta para o que desse e viesse.

Tentei entender os meus sentimentos e consegui identificar dois, o ciúme da beleza de cada um dos elementos do teu quadro e a certeza de que sabia o que pensavas a cada pincelada. Afinal a nossa cumplicidade acabava de me pagar o bilhete. Estava ali de pleno direito.

Olhei-te nos olhos e disse: nunca mais te perguntarei “o que tanto procuras?” porque agora já sei, e não te vou dizer.

Tu sorriste com aquele sorriso meio crítico, meio charmoso a dizer-me que reparasse melhor, olhasse melhor.

Gelei de emoção, afinal eu sempre lá estivera! Eu fui sempre a tela do teu quadro.


Solitude (por ela própria)

Asas de cristal de rocha da memória...



Cansada de esperar, espreguicei-me na areia e deixei-me abraçar pelo sol que ainda quente me beijava e adormeci.

Acordei mais tarde, assustada por um barulho que não consegui de imediato identificar, olhei em volta, não vi ninguém. Estranho, iria jurar que a Intrépida (uma velha amiga) tinha estado ali comigo o tempo todo, teimosa, sem me dar ouvidos, despira o vestido, vermelho, qual Carmen, para no mar se deixar envolver numa dança, que ele conduzia e ela seguia num embalo de estrelas cintilantes que sobre si caíam.

Mas não, não estava, devo ter sonhado.

De novo o barulho, desta vez mais próximo e qual não é o meu espanto, vejo surgir das dunas um grupo de pessoas numa algazarra em compasso de tambor, vinham do terreiro.

- Olha! Afinal a Rosário também vem, é ela que traz o tambor e numa batida forte e sincopada conduz o grupo.

Mulher forte e decidida esta Rosário, que generosamente se afasta para dar passagem a quem quer correr para a praia e correm todos, o Nelson, que entretanto tinha despido a serapilheira e vestia agora uma túnica branca, corria atrás desenfreadamente, estava lindo, de branco vestido, cabelos ao vento, parecia um príncipe, exalava um perfume almiscarado, forte e intenso mas doce e envolvente e ria, ria muito, porque se riria tanto?...

E voaram para o mar, soltos e corpos desavindos…

A Rosário chegou e sentou-se junto de mim sorrindo, piscou-me o olho, que é como quem diz:

-Deixa-os brincar…

A Maria da Lua também se chegou e tirando o véu que lhe cobria o rosto, deixou que finalmente lhe descobríssemos o sorriso, misterioso, um misto de alegria e tristeza, que procurava disfarçar em largas gargalhadas a propósito e a despropósito.

A Beatriz, elegante como só ela, inspirada no movimento do vento que soprava docemente, em pose, propôs uma dança mas como ninguém lhe ligou nenhuma, dançou ela mesmo à beira mar, descalça, vestida de túnica de seda, numa dança sublime e foi Isadora que nós vimos e foi Chopin que nós ouvimos…

Já o Sol se despedia, pintando o horizonte de vermelho e a Angie, debruçada sobre a água, continuava à procura, não sei bem de quê, soube depois, quando chegou perto de nós, vinha de algas vestida e de conchas enfeitada, é um misto de hippie e cinderela esta Angie.

A Ana e a Fernanda sentadas junto ao Nelson que entretanto adormeceu de cansaço, conversam, e é a voz da Ana que se ouve no silêncio que a noite impõe, são histórias que ela desfia, histórias no mundo da sua fantasia que ela veste de realidade, histórias que a Fernanda escuta com o seu olhar de menina encantada a embalarem-lhe a noite numa indolência que ela aconchega a si, parece querer prolongar a noite e os sonhos que se desprendem das histórias.

O Nelson dorme, envolto também ele em sonhos, sonhos de pele morna e intenção quente…

A noite ia crescendo paulatinamente e era a Lua que agora nos fazia companhia e num piscar de olhos apercebo-me que todo o horizonte se pintou de branco, branco prata cor do luar, levanto-me, dou um passo em frente, sinto o arrepio do mar invadir-me o corpo, invento-me no silêncio duma praia só p’ra mim onde não faltam violinos e entro na anarquia do mar que me afaga com a leveza de uma carícia e a violência da pertença, como um beijo que inventei, ousada, ondulo no sexo da água em que me torno…


7 comentários:

Nux@ disse...

O meu lema, a minha marca! Adoro-vos a todos ...

PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

(Ricardo Reis)

Anónimo disse...

Que dirá este livrito?
-Ao vê-lo, perguntarão-
Além de ser pequenito,
Tem um feitio esquisito!...
...........................
Abram, leiam- saberão...


Leiam.Mas saibam ler
Com olhos d'alma e cuidado,
Aos outros, sempre a correr,
Talvez lhes custe entender
O meu humilde recado...

rosario disse...

cheguei

Anónimo disse...

Pois é e depois deste conto? O da Ana...

Nux@ disse...

Ana «anónima» diz quem és e ao que vens! Queres contar alguma coisa, nós aqui gostamos todos de ouvir :)

Anónimo disse...

Há pessoas que são como os pássaros, têm alma de pássro, voam .. ou apenas, São Simplesmente (como alguem me disse um dia destes, em amena confidencia).
Um forte abraço.
Parabéns por este cantinho de sonhos, memórias,contos e outras coisas. :)
Maria da Lua

Anónimo disse...

Pois é,
a Vida Acontece
no vibrar de uma oração
na mão de uma criança,
no perfume da flor
sempre que cai a folha ...

A Vida Acontece!

mas, heis que me está vedade este espaço, porque será?

Maria (da Lua ou na lua)