domingo, 24 de agosto de 2008

O Mandarim

Estive a reler o Mandarim, em versão digital.
O autor não devia sonhar vir a ser lido em computador como também estava longe de pensar que este vosso criado lhe fizesse uma critica literária. Enganou-se, nas duas coisas.
Antes de tudo, queria dizer-vos que, nesta versão, o choque da tecnologia foi tão grande que o autor já não tem monóculo! Já fez operação ao olho aqui na clínica ao lado e perderam-se alguns interesses. Por exemplo, o que ele dizia quando deixava cair aquela coisada na sopa ou no café. Embora no café fosse mais raro.
Os amigos lá do café até diziam quando estavam mais para a chalaça, "vê se acertas na chávena" e ele na maioria das vezes lá tentava e além da coisa tilintar no pires, por não ter entrado na chávena, ainda respingava para o colete. E era um desvario porque era tudo roupa que ele trazia de Paris e … já nem lavadeiras este pais tinha de jeito, como ele dizia.
Pois a história do Mandarim está muito bem contada mas eu cá não acho que tenha moral nenhuma. De facto a história é simples: a um amanuense qualquer, sem eira nem beira, mas invejoso dos que têm eiras e beirais, apareceu o diabo e disse que tocasse a campainha que ele, por acaso, tinha na mesa de cabeceira, porque era depois-do-almoço e estava a fazer uma sesta. Que se tocasse a campainha morria um mandarim na China e ele, o amanuense, herdava todos os cabedais do chinês que até era muito rico.
Diz-se que o homem ainda hesitou, por umas divagações morais, que matar o coitado do mandarim, que nem sequer conhecia o homem e que se calhar tinha família e era boa gente etc., Cá para mim, de traste que era, devia estar a pensar que o bom era herdar a massita e que o mandarim ficasse vivo. Mas era só para o chinês assistir à maneira devassa como o minhoto (que era minhoto o fulano, embora sem culpa, sem culpa do Minho claro), lhe estoirava as posses reunidas com tanto esforço dos servos (claro), em prostíbulos e vinho verde.
Lá tocou a campainha e lá herdou a fortuna. A consciência é que lhe pesou tanto - diz a história - que, para além de tentar devolver à família do falecido o resto que não conseguiu gastar, passou o tempo quase todo a arrepender-se, ou pelo menos a arrepender-se durante os intervalos entre as casas de meninas que frequentava todos os dias. Que as meninas também têm casa e ainda bem, há coisas que se não podem constipar porque fica, por isso, um homem diminuído.
A história está bem contada, como já disse, mas o título é que não devia ser aquele, devia ser em vez de "O Mandarim", "O camelo". E assim já se sabia que não havia moral a tirar, porque de camelo não virão nunca tais prejuízos.
Mas que o autor nos vai entretendo vai. Aproveita as aventuras do estoira-vergas para falar no que tinha feito e no que gostava de fazer. E eram só seios como a neve e colos perfumados. Só Borgonhas e Champanhes. E cetins. E sedas.
Até pôs o pobre do amanuense num jardim em Pequim enrolado com a mulher de um embaixador de Leste ou melhor, de Oeste, porque para a china os russos são do ocidente. E enquanto se refastelavam numa espécie de divã, ela olhava para o tecto onde estavam escritos em chinês os deveres de uma esposa.
Porque o camelo vai à China procurar a viúva do Mandarim para lhe devolver uns dinheiros. Claro que nem encontra a viúva, nem devolve o dinheiro porque senão já tinha razão para se começar a arrepender. Volta a Lisboa e, de tanto arrependimento, resolve não mexer no dinheiro do banco, voltar a trabalhar e voltar para a casa de hóspedes onde o diabo o fora no princípio encontrar.
Esta parte toda a gente conhece bem porque não é história, é um lugar comum (um lugar onde todos já estivemos portanto). No emprego começou a ser tratado abaixo de cão. Que vergasse a mola pois então. Que a fidalguia era de nascença. Que não fosse desgovernado. Que quanto mais alto se sobe de mais alto se tomba.
Enfim, fizeram-lhe a vida tão negra (aqui até eu tenho pena do camelo) que o homem, num brio disse: que se lixe! E voltou à vida de endinheirado, embora triste.
Morreu como viveu: parvo (que quer dizer poucochinho)! E deixou a herança que lhe restou ao Diabo, que dela não precisava, pois tem de graça, aquilo atrás do que corremos a vida inteira.
Acaba a história com a moral que eu já vi por aí escrita em comentários. Mas isso não é importante.

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