quarta-feira, 22 de abril de 2009

Conto de ninguém


O dia amanheceu ensolarado, um típico dia de Primavera.
Ao longo do dia as nuvens começaram a juntar-se. Mais tarde, o cinza chumbo pintou o céu e já ao cair da noite chegou aquela brisa morna e abafada que antecede as trovoadas do "quase" Maio, logo de seguida, aquele cheiro doce a terra molhada.
O apelo de olhar a tempestade era-lhe irresistível.
Colou a cara às vidraças da janela, mas não lhe chegava. Abriu a janela e ficou ali com o pensamento a vaguear.
A trovoada de Primavera, agora estava mesmo em cima, e uns a seguir aos outros, os relâmpagos e respectivos trovões, faziam estremecer os vidros da janela a sorrir pensou:
- Ainda bem que não sou uma gaulesa da aldeia do Astérix, senão, acharia que o céu me iria cair na cabeça!!!!
Porque seria que o que tanto intimidava a maioria dos seres vivos lhe provocava aquela serenidade? Talvez, porque apesar de tudo, estava protegida no conforto da sua casa? A sua tia Maria Júlia disse-lhe um dia que nunca se tinha deixado orientalizar, apesar de ter vivido os seus últimos 40 anos num país oriental, mas que tinha aprendido com o povo oriental a não se amargurar com o que não dependia dela ou que ela não podia resolver.
As trovoadas não dependem de nós nem as conseguimos dominar, todos os seres vivos se limitam a procurar abrigo quando ela chega e ficam quietos à espera que ela passe, mais ou menos tranquilos, conforme a sua capacidade de saber que passa ou de se sentirem protegidos.
Procurar abrigo é instintivo, mas quantas vezes nos deliciamos, por exemplo, num banho de mar e de repente vem uma onda que nos enrola e atira contra a areia da praia, deixando-nos desorientados? Que fazemos? Tentamos levantar-nos e procuramos um ponto de orientação
Também assim são as tempestades da vida, as vagas da vida e o cheiro da saudade. E vamos deixar de viver? Não vamos sair nunca dos abrigos? Vamos deixar de sonhar? De ter ilusões e ideais?
Lembrou-se de Quixote
Ridículo aquele Quixote, aos olhos da sociedade.
Sim! Sim!
Mas quantas olham a feia Aldonza de Lorenzo, enciumadas, porque nunca foram a Dulcinea del Toboso, de ninguém, nem mesmo de um alucinado Quixote.
Quantos Chanso Pança se rojam aos pés de Quixotes lunáticos só porque a sua mediocridade não lhes dá a capacidade de largarem o burro e passarem para um cavalo, até mesmo que este seja uma pileca?
Além disso que mal haverá vestir de vez em quando a armadura do Quixote e ir por aí combater gigantes? São apenas velas de um moinho movidas a ventos? Talvez. O vento não se vê mas existe e ainda bem, porque se para uns quando enfola as velas e as fazem rodar e assim moerem o trigo que alimenta; para outros são gigantes que bradam contra ideais e motiva a bravura para os combaterem. Se para uns apenas o usam para dizer amo-te, a outros aquece-lhes a alma porque lho disse.
Não! Não iria nunca achar-se ridícula porque às vezes se permitia ser Quixote, conseguir encontrar o belo no meio do feio, descobrir a coragem para lutar contra gigantes e até de ouvir o vento dizer-lhe “amo-te”, mesmo que depois tivesse que assumir que o feio é feio, os gigantes são velas de moinhos e o vento não fala.
De repente tudo ficou quieto, começaram-se a ouvir os pios de passaritos que cantam à noite e apareceram umas estrelinhas aqui outras acolá tímidas mas cintilantes. Fechou a janela e foi-se aninhar no seu espaço vazio. Vazio, mas era o dela. Vazio, mas cheio de sentimentos e emoções que lhe decoravam a alma e essa não estava vazia!!!!! Achava que finalmente conseguia ficar serena perante o que não dependia dela ou não podia controlar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Beijo Rosário!
Romeiro

Nux@ disse...

Bom mesmo, Rosarinho, é podermos dizer AMO-TE e haver alguém que nos oiça e nos sinta como somos ... mesmo à distância, mesmo que pareçamos patéticos ... mesmo!

Gosto muito de ti!
Adorei o teu conto :))

Beijos a todos os nossos amigos.
Adoro-vos

Nux@