segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Á PROCURA DO TALENTO PERDIDO



Estava sentada à beira da água
- Estás triste?
- Estou! Porque perguntas?
- Porque gosto muito de ti mãe!
- Sabes! Quando estou longe de casa e me lembro de ti imagino-te sempre a sorrir!
Olhei-o, mas não disse nada, e ele continuou.
-Lembras quando tinhamos o 127 e iamos de viagem? Os três cá atrás só conseguiamos ir sem implicarmos uns com os outros durante 5Kms e tu, quando vias que as coisas iam correr mal e antes que o pai se chateasse, inventavas jogos.
-E daquela vez que iamos para a praia contrariados, e os três tinhamos começado a implicar logo à entrada do carro? Tu propuseste que quem conseguisse dizer mais provérbios portugueses ganhava, e eu só para vos irritar disse:
«-Há mais marinheiros debaixo dos lençóis que marés no meio das pernas!»
O pai olhou pelo retrovisor com cara de cartão vermelho, e antes que ele começasse a gritar tu disseste:
-Boa! Grão a grão, debaixo dos lençois, enche a galinha o papo no meio das pernas!
Acabámos todos a rir, até o pai!
Dito isto levantou-se e foi lembrar os irmãos desta história de há tantos anos.
Fiquei ali a olhar a água.
O que se estava a passar comigo?
Em pouco tempo era a segunda pessoa que eu amava que me lembrava que a alegria era a minha imagem de marca, e agora por onde andava ela?
Só porque olhava a água estava triste? Porquê?
Tempos houve (e já lá vão alguns anos) que o meu pai me dizia:
-Conta a asneira que fizeste!
E eu perguntava:
- Asneira? porque dizes que fiz asneiras?
-Porque sempre que pregas uma partida ficas com os olhos da cor do mar da terra onde nasceste!
-Mas eu só....... e lá lhe confessava a traquinice meia a rir (ele disfarçava mas no fundo eu sabia que ele também estava com vontade de rir).
Outros tempos houve (mais recentes) que a visão da beira mar me fazia lembrar que não havia coisa mais sensual que o mar a entrar na praia, e sorria a imaginar o mar como um homem apaixonado a fazer amor com a sua amada, a praia, que se entregava desejosa do seu amante. Ele entra nela umas vezes suave e profundamente, outras de uma forma violenta e rapida, própria de quem arde em paixão, enquanto ela se molda ao seu desejo, para receber o momento da explosão de quem já não aguenta mais.
E agora?
Só conseguia estar triste?
Foi o tempo que me fez isto?
O TEMPO?
Era um dia de recordações!
Lembrei que uma pessoa muito especial, uns dias antes, tinha comentado comigo esta frase....... «É preciso ter-se muito talento para envelhecer e conseguir continuar a ser uma criança»
Seria isso que me estava a acontecer?
Estava a envelhecer?
Mas porque só agora?
Teria tido o tal talento até há pouco tempo e agora já não?
Não!
O talento nasce connosco! Tem-se ou não se tem! A única coisa que nos faz perder o talento é o medo de não o ter!
A falta de confiança em nós.......
De repente uma onda rebentou estrondosa aos meus pés!
Dou comigo a pensar!!!!!
«E ao grito de "carne!!!!" possuiu-a 49 vezes»!!!!!!!!
-Mãe! estás a rir de quê? - Já não estás triste?
-Não! sabes porquê? porque gosto muito de ti!!!! Além disso duas pessoas que amo muito, deram-me o mapa do talento perdido e acabei de dar o primeiro passo para o encontrar!
-Não te estou a entender mãe!
-Não faz mal!!!!! O ultimo a mergulhar é uma minhoca mole
-E corri para a água!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

8 comentários:

Anaquariana disse...

Achei linda a tua história e sempre te digo que, saber envelhecer é de facto das coisas mais difíceis na arte de viver e conviver.È preciso ter sabedoria para encontrarmos alegria até mesmo em miudezas...
E por outro lado, não há quem aguente a nossa tristesa, só nós...

Anónimo disse...

É preciso ter talento para envelhecer sem ser adulto! Boa! Isso é um projecto de vida. Quanto ao resto continua, estamos aqui para te apoiar. Romeiro

Anaquariana disse...

Para que a palavra não entristeça ainda mais, retiro o (s) de solidão e coloco o (z) de Zorba para que retome o ritmo...

Anónimo disse...

Muito bem Anaquariana. Conta-nos o Zorba "o grego"
Nelson

Nux@ disse...

Está linda a Tua história! Parabéns :)
De tudo me recordei duma letra de Brel que às tantas diz assim:

"...

Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

..."

http://www.mp3tube.net/musics/La-chanson-des-vieux-amants--Jacques-Brel-La-chanson-des-vieux-amants-P10/95332/

ANA MARIA CARIDADE disse...

As pessoas especiais são aquelas que têm a habilidade de dividir suas vidas com os outros. Elas vieram para nos fazer entender que o amor é o que faz a diferença na vida. As pessoas especiais são aquelas que realmente tornam a vida mais bela.
São assim como a Rosário!

Parabes,Rosário! Está lindíssimo este texto.

ANA MARIA CARIDADE disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
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