sábado, 7 de março de 2009

A Ostra


Cont...


- Que lata! Então vais perguntar ao empregado se têm ostras?
- Qual foi o mal? podia ter sorte e haver. Acredita que desta vez não ia deixar que outro a comesse! ainda não me disseste porquê!!! ainda por cima, porquê ele!
- Tá! Estava a evitar que tornasses a essa conversa, mas estou a ver que não me safo.
Não te vou dizer porquê, porque não sei dizer-te, principalmente "porquê ele", mas algum porquê haverá... um porquê que dura 28 anos tem de ser um porquê muito forte, não achas? E tu já te perguntaste a ti mesmo o que aconteceu? O teu problema é ter sido ele? Ou é o facto de eu não ter ido atrás de ti?
- Ostra, outra vez!!!!
- Não! Vou tentar explicar-te ou melhor lembrar-te os factos. Como disseste, sou uma ostra no teu imaginário, mas estás a esquecer-te dos factos, deixa lá o imaginário.
- Ele dizia-te como ficas bonita quando falas a sério?
- Dizia! Mas, por norma, não gostava de ouvir o que eu lhe dizia quando lhe falava a sério!
No fim desse famoso verão do passeio de mota, vieste para a faculdade. Para mim eras o meu namorado, na altura era piroso pedir namoro e era ridículo ser pedida em namoro, mas quando no dia dos teus anos, Agosto, 18 não é?
- Ainda te lembras?
- Claro! Mas continuando... estávamos de férias na praia... eu numa casa alugada à época e tu no Grande Hotel da Figueira. A tua mãe, foi de propósito à nossa casa convidar o meu irmão e a mim para irmos jantar com vocês ao hotel no dia do teus anos. Lembro-me da cara de cumplicidade da tua mãe quando disse à minha que tu fazias questão de convidar o meu irmão, o que era natural! eram amigos de infância, mas também de me convidar e que não podiamos deixar de ir porque éramos os únicos convidados que ele queria na festa dos seus 18 anos e que tinha insistido muito para ela pedir para eu ir. A tua mãe tinha ido pessoalmente e de propósito a minha casa para me convidar, desde esse dia, à boca pequena, claro! para as nossas familias passámos a namorar, e mais, com a benção! Afinal as familias eram amigas de longa data.
- Pois foi, o meu pai, quando lhes disse que queria que só fossem vocês à festa dos meus 18 anos, piscou-me o olho e disse-me que ainda na véspera tinha dito à minha mãe que tu estavas uma linda rapariga.
- Parecemos uns velhos, a lembrar tempos! Mas como dizia! Para mim passaste a ser o meu namorado oficialmente, por isso, não entendi como foi possível que por teres ido para a Faculdade, durante meses, de Setembro até ao natal, ter sido só o teu silêncio que reinou. Verdade? Agora sou eu que te pergunto, era assim que guardavas tesouros?
- Mas tu também nunca me disseste mais nada, sempre que estava com o teu irmão esperava que ele trouxesse algum recado teu e sempre que ia de fim de semana passava vezes sem conta à tua porta e no café onde toda a malta se encontrava, na esperança de te ver. Uma vez a tua amiga São, lembraste dela? disse-me que lhe tinhas dito que nos fins de semana não punhas os pés no café porque não querias correr o risco de te encontrares comigo.
- Não me lembro se disse isso, mas é natural, se em alguma coisa fui coerente durante a minha vida foi o facto de nunca disputar homens, não o fiz contigo, não o fiz com ele que é o pai dos meus filhos e não o faço agora. Disputa-se o que nos pertence mas pessoas não pertecem a ninguém além de si mesmas. Para haver uma relação são precisas duas pessoas e duas pessoas a quererem.
Nesse Outubro entrei para o Liceu vinda do colégio e como sempre, miúda nova no pedaço fazia sucesso, nem era preciso ser uma estampa, e ele e o irmão tinham chegado de outra cidade para frequentar o Instituto Politécnico, outra novidade que também fez sucesso.
- E não podias ter-me contado? imaginas o que senti quando nas férias do natal me disseram que o namoravas?
- Imagino. Para a tua mãe ter ligado à minha a dizer que estavas muito triste porque eu tinha outro namorado, imagino a fita que fizeste e como menino de mamã que eras puseste a familia em alvoroço de certeza!!!
- Imaginas o que senti quando me disseram que tinhas casado? Nem queria acreditar! Assim de repente, casada!
- Assim de repente? eu namorei-o quase três anos.
- Mas tu só tinhas 18 quando casaste, nunca pus a hipotése de não ser comigo, faltavam só mais dois anos para acabar o curso de medicina, eu ia ter contigo.
- Mas tu nunca me disseste. Moral da história, nunca ignores a mágoa e a humilhação que um silêncio pode provocar. Ninguém consegue saber o que pensamos se não o dizemos, são grandes os riscos que se correm quando deixamos que interpretem os nossos silêncios, sabes? Até podem ser silêncios de meditação, de preparação do futuro, mas silêncio não explicado humilha, magoa e principalmente é mais desumano do que um não, não dá espaço ao outro para fazer o luto desse não, porque deixa sempre algo em aberto.
Pois é lindo, como se diz, quem foi ao ar perdeu o lugar e tu deixaste ocupar o lugar, pacificamente, ele apenas se limitou a existir, nada mais!
Tenho de ir, já passa das três e ainda levo algum tempo a chegar. Espero não apanhar trânsito.
- Vejo-te outra vez?
- Se me procurares.
- Tens um jantar comigo prometido ou achas que me ia esquecer? até porque esse teu discurso todo tem resposta.
- Se eu quiser ouvir!!!!


- OSTRA!!!!!!!!!!
- Beijo

2 comentários:

Anónimo disse...

Estou com ciúmes, achas mal?
Romeiro

rosario disse...

Romeiro:
Não acho nada mal. Só faz bem ao ego de ambos, porque se bem te conheço o teu pensamento seguinte foi:
«sim! sim! mas o eleito sou eu!!!!!»
Aposto!!!!!!!!!!!