domingo, 7 de dezembro de 2008

Amélia S. Tomé ( I )

Fui à Lagoa Amélia, em S. Tomé. De facto é uma enorme cratera cheia de água doce, da chuva de sempre, que um grande novelo vegetal foi cobrindo, a flutuar.
Sem se saber é um prado verde, onde a erva, mais ou menos rasteira, espera em armadilha os que queiram atravessar por ali a floresta densa. Onde parece bem, por ser mais fácil…
O nome, diz-se, tem origem numa mulher que um qualquer desgosto de amor, de que ninguém sabe pormenores, terá precipitado, num galope, a travessia de morte.
Ouvi lá a história por entre bagas de chuva e fiz-me recuar no tempo, que os contos têm de ser imaginados para serem verdadeiros…


I

Amélia S.Tomé

Teria uns dezanove anos. A pele era de baunilha, clara como branco, com uma trança negra, grossa, a contrastar até o laço de pano sangue, roçar a cintura.
O porte era, todo ele, altivo e os olhos, singularmente claros, marejados, lampejavam em brilhos de luz que à doçura escapavam.
Não era um corpo frágil. As pernas esguias eram torneadas, subiam num ápice, mas deixavam adivinhar músculos sólidos, tendões de aço, que o enlace de montar a cavalo precisava.
Os lábios grossos, de desenho perfeito, pintava-os de vermelho. Ligeiramente abertos, faziam um respirar compassado, a ritmar um peito amplo, forte, que espetava o mundo em desafio.
Usava quase sempre calças de montar claras e blusa leve, de cor forte, as mais das vezes azul ou vermelho. O lenço que abraçava a cintura realçava-lhe as ancas mornas, de mulher, enquanto os pés se punham nus na terra fértil, como as acácias rubras.

Sempre vivera em casa do feitor. Homem para lá dos cinquenta, com o olhar parado da gente das ilhas e viúvo há já uns anos. O filho, Francisco, ligeiramente mais novo que Amélia, estudava por Coimbra desde há tempo, mas vinha todos os anos, de férias, pelas gravanitas de Agosto.
Casou na metrópole o feitor, como era hábito. Como era costume. Aprazou o casamento, na Covilhã, terra da moça, disposta a fugir, mar adentro, daquela humildade sofrida das fábricas de panos. Daquele sofrer que a cidade pouco via, entretida a subir a serra, pela noite, nas ondas macias da luz petróleo dos candeeiros.
Enquanto esteve ausente na demanda do casamento, foram para S. Tomé o irmão e a irmã, para o substituírem, não fossem, café e cacau, levarem descaminho, para desagrado do patrão de Lisboa, que por aquelas paragens, pouco parava.
O regresso do feitor, já casado, foi uma festa. A senhora vinha já de esperanças, ainda que poucas. A tez de marfim, contava tanto do enjoo do mar como do sol da terra, que de brando, a mantivera pálida de cera. Mas fez-se um sorriso para o verde imenso da ilha, um sorriso do tamanho da esperança que se tem, às vezes, no princípio das coisas da vida.
Quando os irmãos regressaram, no mesmo vapor, que iria ainda a Luanda, antes de voltar directo a Lisboa, atlântico acima, na roça do cacau tinha ficado um choro recém-nascido, e uma carta do irmão do feitor, com uma explicação vaga sobre um amor de matos, uma morte de parto numa sanzala sem nome e o pedido de que cuidasse da criança "na medida do possível".
Daí a tempos gatinhavam dois destinos pela roça, Amélia e Francisco. Ela filha de desejos sem amor, e ele, filho da necessidade estranha de se ter mulher, de papel passado, mesmo no calor daquelas paragens longe.

1 comentário:

Anónimo disse...

lindo!

Maria da Lua