sábado, 20 de dezembro de 2008

Amélia S. Tomé ( III )



Amélia cresceu como nasceu, sozinha. Sobre o pai e sobre a mãe nunca lhe disseram e nunca perguntou.
Um dia o feitor mandou chamá-la à sala grande, onde só se ia para as visitas e para as ocasiões, teria ela uns treze anos, mais um que Francisco.
Estava a Senhora a dizer, que os assuntos de família são para tratar em família e que não percebia que se chamasse a miúda, quando ela entrou. Que ia já perceber disse o feitor e lá foram continuando a altercação, ela sentada, às voltas na mão com um lencinho branco bordado, ele junto à janela, a olhar os hibiscos, lá fora, a pingarem a chuva, e às voltas com um embrulho de nada, em papel pardo.

A tua mãe morreu Amélia, mandou-te isto. Morreu em Paris e mandou-te isto, depois podes abrir …a tua mãe era minha irmã Amélia. Disse o feitor num fôlego, à justa antes da Senhora desmaiar sem ar.
Entrou a criada na sala, chamou outra criada e, do que se lembrou para sempre, foi do olhar macio do feitor, que para ela tinha sempre, mas desta vez tão macio que não percebeu tudo senão depois de pensar, no sossego do quarto, sozinha.

O embrulho não tinha nada, só um lenço de seda. De seda vermelho-sangue com um perfume quente e forte, talvez forte demais, talvez quente em demasia.

5 comentários:

Nux@ disse...

Nas vésperas de Natal é sempre muito triste ficar-se orfã, eu sei ...

rosario disse...

... Até o visual mais despretensioso é acrescentado de glamour e feminilidade por um belo lenço de sede...
Beijo

Anónimo disse...

Pobre lenço de seda, colocado em mãos tão singelas ..
Gostei, muito. Triste.
beijo
Maria da Lua

Anaquariana disse...

E aquele embrulho de nada, de repente desembrulhou tudo!

Será que Amélia descobriu o que aquele olhar macio escondia?!...

Gostei muito.

Anónimo disse...

Brilhante