
“Sou fraco, efémera criatura feita de barro e sonho. No entanto, sinto todo o poder do universo girando dentro de mim…"
(Nikos Kazantzakis)
Era quase noite, em grupo, saímos do Cinema Monumental, apesar de tarde, ainda dava p’ra irmos tomar um café à ‘Paulistana’, um café que hoje já não existe, aliás como tantos outros infelizmente, nem mesmo o cinema existe mais. Nesse espaço, figura mais um centro comercial igual a tantos outros. A propósito, o cinema do meu bairro também já não existe. ‘Hollywood Residence’ é o nome sugestivo do novo complexo comercial. A temática cinéfila escolhida para baptizar este empreendimento, que integra quatro “salas” - caixotes, digo eu - de cinema, é o que resta da memória do lugar. O velho cinema morreu. Depois de uma lenta agonia.
Entrámos ruidosamente no café, - tínhamos entre quinze e dezassete anos - o clima era de festa, o que acabáramos de ver e ouvir não nos saía da cabeça e forçava os pés p’ra dança. Ocupámos duas mesas, juntámo-las e aí ficámos durante algum tempo a discutir o filme. Uns tinham gostado, outros saíram incomodados, tinham achado o personagem patético demais.
Patético!...
Volvidos estes anos chego à conclusão de que patéticos seríamos todos, se não disfarçássemos…
Alexis Zorba não disfarçava, não sabia, era uma força da natureza! Ignorante no sentido de não intelectual mas sábio do amor e da vida, ele vivi-a como uma dádiva, com a ternura de quem lhe presta homenagem mas também com voracidade e exuberância em relação a tudo o que deseja. Leva-nos a questionar a maneira como vivemos, um dia após o outro, sem sabermos saborear cada minuto que nos é dado viver.
- Gostaria de morrer como ele, ao sentir que o fim se aproximava ainda teve coragem para ir à janela com uma vontade louca de ver e sentir a beleza da manhã -
O filme começa com a chegada de Basil, um jovem e tímido escritor inglês, que chega à ilha de Creta, na Grécia, a fim de tomar conta de uma mina que herdou do pai, uma mina abandonada que apesar de todos os esforços, não consegue recuperar. Na ilha, ele conhece Zorba, homem rude mas de uma enorme sensibilidade, ele tem estampada no rosto a alegria duma criança e a coragem de tudo querer, como só as crianças sabem ter. Depressa se prontifica a ajudá-lo. Começa aqui uma enorme amizade que se transforma numa lição de vida para o jovem escritor que, a pouco e pouco passa de observador do mundo a participante.
E é precisamente aqui que reside a grande força do filme. O pragmatismo emocional de Zorba que vive com a necessidade e a coragem de quem quer aproveitar ao máximo tudo o que a vida lhe dá, desde a mais simples das amizades, passando por uma refeição ou a luta pelo amor de uma mulher e o comportamento de Basil, que vive e vê tudo de um ponto de vista racional.
Não vou contar as cenas do filme. Os que viram, recordar-se-ão delas e os que não viram, vejam, vale a pena, (existe em DVD) mas vejam com o coração…
Pretendi apenas e só, deixar aqui o meu olhar sobre o filme, Zorba tocou-me o coração, fez-me reflectir e exerceu sobre mim a vontade de me conhecer melhor e tentar melhorar em muitos aspectos - não sei se consegui, eu era muito jovem quando vi este filme - Realço ainda a banda sonora de Mikis Theodorakis, inesquecível! Tal como a cena final, na praia, talvez a mais comovente, onde assistimos à dança entre os dois homens, um hino à amizade verdadeira e desinteressada. Podemos ver o tímido escritor deixar de recalcar as emoções e pedir a Zorba que o ensine a dançar e ri, ri como nunca o fizera em toda a sua vida.
Recordo ainda a paisagem árida e as mulheres. Viúvas para sempre, as mulheres vestidas de negro, carregavam o medo no olhar, um olhar duro mas de uma grande doçura. Irene Papas, encarna uma delas e fá-lo magistralmente, uma figura trágica e forte, de olhar duro e corpo de desejo reprimido, que ela não reprimia e por isso mesmo foi morta.
Zorba, é um cântico à liberdade humana. É a sabedoria, presente nas almas mais simples. Aqui, percebemos como podemos ser vulneráveis e ao mesmo tempo fortes perante as adversidades da vida, um exercício de tolerância entre as pessoas e a ironia de viver e estar sujeito a qualquer coisa. Admirável e bela é também a fotografia a preto e branco, uma estética muito própria e fascinante!
AHA
"A loucura é uma força da natureza, ao passo que a estupidez é uma debilidade da natureza sem contrapartidas..." (Italo Calvino)
(Nikos Kazantzakis)
Era quase noite, em grupo, saímos do Cinema Monumental, apesar de tarde, ainda dava p’ra irmos tomar um café à ‘Paulistana’, um café que hoje já não existe, aliás como tantos outros infelizmente, nem mesmo o cinema existe mais. Nesse espaço, figura mais um centro comercial igual a tantos outros. A propósito, o cinema do meu bairro também já não existe. ‘Hollywood Residence’ é o nome sugestivo do novo complexo comercial. A temática cinéfila escolhida para baptizar este empreendimento, que integra quatro “salas” - caixotes, digo eu - de cinema, é o que resta da memória do lugar. O velho cinema morreu. Depois de uma lenta agonia.
Entrámos ruidosamente no café, - tínhamos entre quinze e dezassete anos - o clima era de festa, o que acabáramos de ver e ouvir não nos saía da cabeça e forçava os pés p’ra dança. Ocupámos duas mesas, juntámo-las e aí ficámos durante algum tempo a discutir o filme. Uns tinham gostado, outros saíram incomodados, tinham achado o personagem patético demais.
Patético!...
Volvidos estes anos chego à conclusão de que patéticos seríamos todos, se não disfarçássemos…
Alexis Zorba não disfarçava, não sabia, era uma força da natureza! Ignorante no sentido de não intelectual mas sábio do amor e da vida, ele vivi-a como uma dádiva, com a ternura de quem lhe presta homenagem mas também com voracidade e exuberância em relação a tudo o que deseja. Leva-nos a questionar a maneira como vivemos, um dia após o outro, sem sabermos saborear cada minuto que nos é dado viver.
- Gostaria de morrer como ele, ao sentir que o fim se aproximava ainda teve coragem para ir à janela com uma vontade louca de ver e sentir a beleza da manhã -
O filme começa com a chegada de Basil, um jovem e tímido escritor inglês, que chega à ilha de Creta, na Grécia, a fim de tomar conta de uma mina que herdou do pai, uma mina abandonada que apesar de todos os esforços, não consegue recuperar. Na ilha, ele conhece Zorba, homem rude mas de uma enorme sensibilidade, ele tem estampada no rosto a alegria duma criança e a coragem de tudo querer, como só as crianças sabem ter. Depressa se prontifica a ajudá-lo. Começa aqui uma enorme amizade que se transforma numa lição de vida para o jovem escritor que, a pouco e pouco passa de observador do mundo a participante.
E é precisamente aqui que reside a grande força do filme. O pragmatismo emocional de Zorba que vive com a necessidade e a coragem de quem quer aproveitar ao máximo tudo o que a vida lhe dá, desde a mais simples das amizades, passando por uma refeição ou a luta pelo amor de uma mulher e o comportamento de Basil, que vive e vê tudo de um ponto de vista racional.
Não vou contar as cenas do filme. Os que viram, recordar-se-ão delas e os que não viram, vejam, vale a pena, (existe em DVD) mas vejam com o coração…
Pretendi apenas e só, deixar aqui o meu olhar sobre o filme, Zorba tocou-me o coração, fez-me reflectir e exerceu sobre mim a vontade de me conhecer melhor e tentar melhorar em muitos aspectos - não sei se consegui, eu era muito jovem quando vi este filme - Realço ainda a banda sonora de Mikis Theodorakis, inesquecível! Tal como a cena final, na praia, talvez a mais comovente, onde assistimos à dança entre os dois homens, um hino à amizade verdadeira e desinteressada. Podemos ver o tímido escritor deixar de recalcar as emoções e pedir a Zorba que o ensine a dançar e ri, ri como nunca o fizera em toda a sua vida.
Recordo ainda a paisagem árida e as mulheres. Viúvas para sempre, as mulheres vestidas de negro, carregavam o medo no olhar, um olhar duro mas de uma grande doçura. Irene Papas, encarna uma delas e fá-lo magistralmente, uma figura trágica e forte, de olhar duro e corpo de desejo reprimido, que ela não reprimia e por isso mesmo foi morta.
Zorba, é um cântico à liberdade humana. É a sabedoria, presente nas almas mais simples. Aqui, percebemos como podemos ser vulneráveis e ao mesmo tempo fortes perante as adversidades da vida, um exercício de tolerância entre as pessoas e a ironia de viver e estar sujeito a qualquer coisa. Admirável e bela é também a fotografia a preto e branco, uma estética muito própria e fascinante!
AHA
"A loucura é uma força da natureza, ao passo que a estupidez é uma debilidade da natureza sem contrapartidas..." (Italo Calvino)
4 comentários:
E sabes o que mais me agrada na liberdade? É a paz que nos deixa. Até se pode fazer más escolhas mas fomos nós que as fizemos e da formas que entendemos,e assim, todas as consequências terão que ser aceites.... Não há lugar a revolta.......
Obrigada por nos dares que pensar!!!!
Beijos
Muito bem. Gostei muito de ler e de ficar com a ideia de trazeres mais qualquer coisa na forja. Mas não sejas tão séria...não te prendas ao chão. Brinca contigo, o Zorba dava para isso.Porque não dançaste com ele? Porque não te substituiste ao inglês e...foste por aí fora. Digo-te isto porque já li coisas tuas! Ficamos à espera de mais mas ... põe lá um grão de loucura (isso eu sei que tens).
Parabéns! Vou ler outra vez!
Obrigada Rosarinho, um beijinho, especialmente pelo carinho e amizade.
E quanto a ti, Romeiro, tenho a informar que, não substituí o inglês, porque o Zorba não me ligou nenhuma, estava sempre com os copos e quando não estava, era volúvel... rsrsrsrsrs
O Nelson queria ver-te a dançar ... mais uma vez, e outra e tantas quanto tu aguentares.
A loucura é uma força da natureza ... o Zorba era lunático mas dizes bem, só do cheiro dos copos ...
Gostei! Beijinhos! Muita dança :)
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