Quando se diz ou se escreve, mente-se! Mesmo sem querer, mesmo sendo gente séria, mente-se sempre!E não há mal nisso, antes pelo contrário, compete-nos ver as coisas e dizê-las como melhor nos aprouver. Ficamos todos mais felizes e o criador menos envergonhado.
Eu, por exemplo, se é que posso ser de alguma coisa exemplo, feito Sancho, minto-vos pouco porque sou um espírito simples. Mas feito Quixote, invento tudo, é tudo mentira e eu gosto muito mais!
Quando sou eu próprio é que a coisa não corre tão bem: minto, mas fico cheio de problemas de consciência. E às vezes até vou logo a seguir pôr as coisas no são. Como agora.
É que fiquei a remoer nesta história de ter chamado Beatriz à outra ou Outra à Beatriz, conforme se quiser. E, como são pessoas diferentes, pode dar-se o caso de ficarem as duas ofendidas e eu, que ainda ando por aqui, ter de esclarecer as coisas, que é coisa que não quero.
Voltando à mentira, estão já a ver por aqui que, quando queremos corrigir as coisas, metemos os pés pelas mãos e damos connosco a pensar que mais valia ter deixado tudo como estava.
Portanto, pronto! A Outra, que me parece que até mora aí para Oeiras, passa a ser a Beatriz, mesmo não sendo!
Aliás, agora que estou a olhar melhor para a Beatriz, que depois dos cumprimentos do costume foi a cantarolar para a beira-mar, penso que apanhar conchas, até nem me importava nada que ela fosse a outra de agora, pois qualidades não lhe faltam.
Até o perfume que trouxe nos põe a pensar nas noites da Ana, nas mil e uma claro, que a Ana não tem noites, tem só madrugadas porque para ela, o sol só nasce, e nunca se põe.
Depois de servir o Champanhe à Beatriz, que foi logo, num correr, para o pé do mar e não nos ligou nenhuma, a Ana que fez de anfitriã e nos apresentou, mesmo sem conhecer a Beatriz, perguntou-me: e tu? Quando falas de ti?
Apeteceu-me dizer, nunca! Mas não se dizem assim as coisas e lá respondi que a nossa vida é a daqueles com quem nos cruzamos na vida. E fui pensando que até não estava mal pensado e … mais valia deixar as coisas como estavam.
Mas vou contar a história de um amigo, para não serem só histórias de amigas e a Rosário não me vir atazanar no éter a dizer que tive o abecedário. Que aliás não tive. Por exemplo não tive nenhuma amiga em que o nome começasse por c com cedilha.
A Ana, fingiu que não ouviu esta história dos nomes e encorajou – Conta.
E eu contei.
Naquele tempo, na altura da Ana e da Beatriz, algumas coisas estavam por um clic, como diz a nossa Ana. Havia a guerra a anunciar as independências em África e os jovens de então, com menos televisão mas com boa música, lá iam lendo umas coisas e tomando o seu partido, naquilo que estava para acontecer.
O António Augusto, teria nessa altura uns vinte e pouco. Magro e aloirado era conhecido pelos amigos por conseguir convencer Maomé a comer toucinho.
Para além da capacidade de argumentação, tinha o entusiasmo daqueles que sabem misturar a razão e o coração. Já casado e com uma filha, a casa dele servia de ponto de encontro, naquela época conturbada.
Na altura, para além da Universidade onde ia, às vezes, dava aulas a adultos. Decidiu ficar, para a construção de um país novinho em folha e lembro-me que, já perto da independência, estava envolvido num programa de alfabetização de adultos.
Falava pelas noites, num tal Freinet, pedagogo francês que lhe enchia as medidas e nós íamos ouvindo e aprendendo, aquilo que iríamos esquecer mais tarde, como toda a gente.
Em resumo, e para a época, estava como se dizia na linha da frente. Nas convicções e no tempo que dava de si, naqueles entusiasmos do país novinho em folha.
Calhou que numa esquina do tempo e da escola, em que também dava aulas, conheceu uma colega, bonita, inteligente, com uns olhos pretos imensos e um marido que conhecia a revolução toda e os que a estavam a fazer também.
Ainda andaram uns meses num desassossego. O António saía e entrava em casa consoante a consciência lhe pesava mais ou menos e lá iam fazendo das suas, e um belo par também, que eu lembro-me.
Toda a gente sabia, ou desconfiava, ou tinha a certeza, ou não tinha a certeza mas é como se tivesse. O certo é que um dia foram os dois chamados à escola e estavam à espera deles representantes de professores e de alunos. Era o mau exemplo, a conduta imprópria e se calhar o marido, que até era importante, embora bom rapaz.
Tanto quanto sei, ele preparou toda a argumentação nos segundos que demorou a sentar-se. Ela, provavelmente, já a sabia de casa.
A professora, depois dos entretantos, foi a primeira a falar e à frente de um António Augusto basbaque, fez aquilo que na altura se chamava uma autocrítica. Que reconhecia os erros, que não voltava a cair no pecado, ou de gatas não me lembro. Ele não disse nada, ou quase nada, porque na altura veio-lhe o coração e devia ter-lhe vindo a razão.
Ela, que tinha feito a autocrítica, ficou por assim mesmo. Ele iria no mês seguinte para uma cidade do Norte, onde não havia universidade na altura, mas agora já há!
Atarantado, lá foi arrumando ideias. O que deve ter sido difícil. Que quando o coração dói a cabeça também não ajuda nada.
Resolveu ir-se embora, que é uma coisa que se pode fazer quando se está no princípio, e ele estava, no princípio da vida.
Mas não foi assim tão fácil. Vejam que tinha de ir a casa e, sem mais, dizer à legítima que se iam embora e porquê! Estou a imaginar o que teria sido. Que eu bem te avisei sobre aquela delambida. E agora? Com uma filha de leite por esse mundo, sem nada garantido…
Como descalçou a bota não sei (e que ela estava apertada, estava). Sei que num fim de semana atravessou uma fronteira de carro, que depois tinha de atravessar outra no dia seguinte, que só atravessou uns três meses depois, que houve dias em que comeu só milho cozido e que … depois de umas aventuras apareceram em Lisboa, por um Abril, os três, que estive lá no aeroporto.
Em conversa, um dia destes, falámos desses tempos. Com o entusiasmo de sempre lá foi desfiando as pequenas histórias, e as outras, que parecendo pequenas são as histórias da vida. Aquelas que nos foram fazendo aquilo que agora somos.
Importante é que está bem, consigo e com a vida, que o presenteou com uma história que até dá para contar.
3 comentários:
Gostava de ver se a tua cor muda, quando estás a mentir, ou se o nariz cresce. É assim que se apanha um mentiroso mais depressa que um coxo.
Começando pelo abecedário, até inventas letras para te desculpares, a Rosário deve ter razão em te atazanar, que alguém o faça, por favor!!!
Esta história é de ir às lágrimas ou a imaginação não tem limites.
Parabéns Nelson Romeiro adorei, o António era um tipo destemido mas um pouco lunático não?
E o António lá de desembrulhou!...
É caso para cantarmos."se queres fugir chama o António...se queres rir chama o António...
Bem...estou sem fôlego com esta história!
Cada dia o Nelson mais me surpreende,até estou de boca aberta e nem sei se a vou conseguir fechar...
Adorei,adorei,ADOREI!!!
-Vá Nelson,conta mais!
Conheço o António Augusto. Um 'castiço' que não troca só as mãos pelos pés, troca-se todo, de vez em quando.
E nessas 'trocas e baldrocas' perde-se...
Mas a Vida encarrega-se de lhe ensinar o caminho de volta.
É que, de tanto se sentir amada, não tem coragem p'ra lhe voltar as costas.
E é assim que ele vai vivendo, enchendo-nos de histórias.
Um grande abraço, p'ra ele, claro!...
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