segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Palavras...


Enroscada no sofá, ela tentava escrever mas as palavras acotovelavam-se em conflito e todas queriam saltar para o papel ao mesmo tempo. Todas se achavam importantes. Umas, achando que eram mais importantes do que outras. A razão, altiva como sempre, não dava lugar ao coração e este, que até então tinha sido completamente subjugado por ela, achou que estava na hora de se impor e lutar para que a doçura das suas palavras anulasse por completo a frieza das palavras que a razão impunha! Sem conseguir meter ordem nas emoções, pousou a mão sobre o papel, encostou-se e tentou organizar os pensamentos.
Na penumbra da sala, o silêncio era pesado. Sem dar por isso, o dia dera lugar à noite e ela ali, estática, só conseguia pensar nas conversas partilhadas, no desejo que explodia entre uma frase e outra, num passado que não sendo longínquo lhe parecia ter sido há “séculos,” num tempo em que os dias eram quentes e de riso e as noites aguardadas com pressa, com a pressa de quem não podia esperar mais...
Sentiu-se tocada pela magia desse tempo e as palavras começaram a surgir harmoniosamente sem conflitos, numa envolvência perfeita.
E dando forma a uma boca ausente beijaram-na com doçura.
Sorrindo, começou a escrever...
AHA

5 comentários:

ANA MARIA CARIDADE disse...

Quando as palavras não querem sair,quando as letras se recusam a fazer sílabas...não conseguimos dizer o que sentimos.
Adorei este texto.Posso comentá-lo com um poema?


UMA PALAVRA APENAS

Quis resumir
o que senti
o que sinto
o que me fizeste sentir

E escrevi então
o que li no coração:
sinto amizade
senti carinho
senti ternura
senti amor
sinto ...

Mas queria um poema
sereno
pequeno
com poucas palavras
e então...
apaguei os verbos
depois...
comecei a apagar substantivos

E com as palavras na mão
entrei no coração
Para trocá-las por um sinónimo
Foi então
que saíu o poema
que escrevi
para ti
em maiúsculas
com uma palavra apenas:
SAUDADE


parabens!

Anónimo disse...

Menina, a Ana é uma crítica séria. Tenho para mim Solitude que podes publicar, de papel feito.
Também gostei muito e acho que é mais o teu género. Parabens! Queremos mais claro!
Romeiro

Nux@ disse...

Que lindo AHA quando se consegue ainda encontrar as lembranças do que foi fantástico no passado!

Adorei! Para mim o passado não me faz vibrar, por isso procuro faz-lo agora ...

Obrigada, estou atenta e feliz ;)

Anaquariana disse...

E porque gosto da vida, gosto do passado, porque ele é o presente na minha memória.
E depois, há a saudade que se afunda na alma!...

Obrigada a todos pelos comentários.
É bom ter amigos assim que, generosamente nos aquecem a alma.
À Ana, um beijinho especial, pelo comentário e principalmente pelo poema, adorei!

rosario disse...

Ana
Fizeste-me recordar uma afirmação de Michel Foucault no seu livro "As palavras e as coisas" que dizia mais ou menos assim (não terá sido exactamente com estas palavras)
... a literatura não é o que confirma, cada vez mais a escrita aparece como tema de reflexão...