segunda-feira, 29 de setembro de 2008

João de Figueiredo (28/12/1898 - 02/09/1960) cont.


Na continuação do que escrevi ontem... descobri entre os tais papéis castanhos duas folhinhas que me fizeram rir de verdade, e talvez tenha ficado a perceber de quem herdei este meu sentido de humor, esta minha mania de achar graça a coisas que mais ninguém acha.
Para que melhor se entenda, o que vou escrever, preciso de contar que a sociedade covilhanense (cidade de características industriais) do início do século XX, era uma sociedade fechada. Onde a diferença de classes era, não só notória, como assumida, por todos. Operários por um lado e industriais por outro, a convivência entre elas era impensável ( no lindíssimo livro a Lã e a Neve de Ferreira de Castro, que recomendo, está bem retratada esta sociedade covilhanense). Assim sendo, entre os industriais e outros profissionais do sector dos serviços, a convivência entre as famílias era limitada a círculos de amigos e ocorria nas casas dessas famílias. No entanto para os homens (industriais, técnicos da industria, professores, bancários etc. etc.) havia os grémios e clubes, onde era prática corrente as tertúlias temáticas que se prolongavam pelo serão.
Outra caracaterística, e esta justificada pela localização serrana e do interior desta pequena cidade, todos se conheciam pelo nome de família, para além disso, muitos tinham alcunhas, que todos sabiam mas eram apenas ditas à boca pequena.
Espero não estar a maçar com estas explicações, mas temo que sem estas pequenas dicas só sendo da Covilhã, iriam achar graça a estas quadras do meu avô, que, segundo a minha mãe, num desses serões no Clube o meu avô rabiscou e "gozou" de grande os amigos.
I

Fauna Covilhanense
(todos os nomes em maiúsculas, são nomes de familias covilhanenses, muitas delas ainda de hoje)

1. Uma coisa singular
da minha terra natal:
conta dentro dos seus muros
a fauna de Portugal!

2. E, assim, temos a apontar:
RATOS por todos os lados,
BICHOS de vários tamanhos,
Gordos, pequenos, DELGADOS.

3. Há CAMELOS e RAPOSOS
GRILOS, GATOS e LEITÕES
PINTASSILGOS e PARDAIS,
COELHOS, LEBRES, LEÕES!

4. PINTOS, MELROS e CARRIÇAS,
de BARATAS, farturinha;
POMBOS, CARNEIROS e BOGAS,
e BACALHAU e SARDINHA.

5. Há CANÁRIOS sem gaiola,
e ABELHAS sem ter colmeia;
há BORREGOS e LAGARTOS
e LOBOS sem alcateia.

6. E, assim, com toda a razão,
a minha terra natal
é o pátio da bicharia
no jardim de Portugal!

MAS É OU NÃO VERDADE
QUE HÁ, DE TUDO, CÁ NA CIDADE»


Já em 1921, no dia da representação da Revista à Portuguesa «No País da Guedelha" (guedelha é o nome ainda hoje dado, na gíria da industria de lanifício, às mechas de lã ainda por fiar) estreada a 8 de Dezembro no Ginásio Clube da Covilhã da autoria de Mário Quintela, versos de João de Figueiredo e música do Maestro António Rodrigues Gomes, saiu um opúsculo de propaganda ao evento editado por Júlio Carneiro. Nele estão umas quadras da autoria do meu avô, que revelam bem o seu humor e que visavam o próprio editor; o pintor covilhanense Eduardo Malta, e um jornalista que colaborava no Notícias da Covilhã (todos eles amigos do meu avô).
II
«O Carneiro electrizado
Por nada faz algazarra
Porém ninguém o receia
Berra muito mas não marra!»
«A rapidez com que o Malta
Seus esboços executa
Dá-lhe direito ao anúncio:
retratos à la minuta!»
«Faz o amigo Oliveira
Um jornalista de truz
Eu sempre disse, Espremido
Bota azeite, mas não luz!»
João de Figueiredo

2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem Rosário!
Romeiro

Nux@ disse...

Minha querida, adorei ler o teu avô ... a Fauna é do melhor eheheh

«E, assim, com toda a razão,
a minha terra natal
é o pátio da bicharia
no jardim de Portugal!»

AMEI, beijinhos ternos Rosário