Quando viu que o champanhe me estava a dar para o sentimento lá me foi entretendo e não parou enquanto não me viu com menos sede. Mas estava calor de facto, portanto perdoe-se-lhe porque tinha razão e como já vos disse, aquelas bolhazinhas do champanhe no nariz só nos podem pôr bem-dispostos.
Costas com costas, já sentados, lá nos fomos deixando ir até que o silêncio se fez de um ligeiro marulhar do mar, que convidava a divagar.
A Beatriz andava em História, aluna brilhante, acabou as distinções todas em Coimbra onde muito mais tarde eu viria a viver.
Filha de uma família dada à Igreja, pertencia a uma associação cristã qualquer e dividia o tempo entre a Universidade, o ballet e uma espécie de namoro comigo.
Dela recordo principalmente duas coisas: o olhar verde e determinado e a pergunta que me fazia às vezes "mas afinal o que é que queres tu da vida?". Eu lá ficava pensativo. Ainda não sabia que todos queremos simplesmente ser felizes, embora a gente se esqueça disso. Amiúde!
Na altura, eu usava as habituais "jeans" e, agora que me lembro, sempre camisas azul-claro, intemporais de tão puídas. Consertava-me tudo um ar de menino perdido, que a Ana viria a herdar pouco tempo depois.
Não foi nada sério, parece-me, mas o que é certo é que me lembro daqueles olhos verdes que ainda mal sabiam a mulher. E ficou-me dela um certo sentido de consciência - "o que é que queres tu da vida?".
Deixei de a ver quando foi para Coimbra acabar o curso.
Um dia, já por 76, estava eu em África e reparei, na rua, numas calças em camuflado, botas de tropa a sério, uma metralhadora, e, por cima, um cabelo loiro que não veria água há um tempo. Tudo encimado por uns olhos verdes, determinados, sérios. Era a Beatriz!Estivera na guerrilha desde 73, tinha estado no desfile da independência e eu tinha estado nas bancadas do estádio a assistir.
Retribuiu dois beijos, e seguiu. O que soube dela foi por amigos comuns.
3 comentários:
Pode parecer que esta Beatriz fora incoerente, dado o passado. Não me parece! Os seus olhos verdes e determinados encaixam na perfeição da pergunta "o que é que queres tu da vida". Admirável mulher!
Inquieta sempre alguém que nos pergunte uma coisa assim, que é frontal!
Noutro dia alguém me perguntou: " o que pensas tu da vida ? " e foi de tal forma frontal que me abanou. Nesse dia fez-me andar para trás, rever o passado e antever que o futuro é incerto ... no presente fez-me chorar.
Gostei muito da tua Beatriz, rebelde, giraça e bué inteligente e determinada.
Para ela um beijo, para ti Nelson ... muitos ;)
A Beatriz, não sei se é mãe mas mulher coragem, é com certeza!
Um dia, recusou os limites estabelecidos e partiu!
Com a paixão de viver, sob a forma de disposição para morrer.
Descalçou os sapatinhos de ballet, calçou as botas de tropa, vestiu o camuflado, encheu os bolsos de sonhos e com o olhar cheio de esperança, foi ao encontro de tudo aquilo em que acreditava.
Abraçou uma causa. A luta tomou a forma paralela da consciência que a separava de tudo aquilo que negava e com coragem e a certeza de que não é a vida que dá a medida da grandeza de uma acção mas sim a qualidade do motivo pela qual a vivemos, decidiu-se a pagar o preço máximo que nos é exigido, ou seja, dar, se fosse preciso, a própria vida por um ideal!
A Beatriz, que afinal se chama Olga, era uma mulher que vivia com os pés na terra mas com a cabeça no céu, só assim, conhecendo e amando a realidade se consegue fazê-la crescer e purificá-la. Viver, é confrontarmo-nos com o sermos e o não sermos. Ela soube ser!...
Por tudo isto, merece todo o meu respeito, carinho e admiração.
Por onde andará agora?
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