quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Conto 2 -história na praia


Cheguei pelas duas da tarde. A praia estava praticamente deserta, só uma brisa suave temperava um Julho já no fim. Champanhe, gelo, taças e restante palamenta, estavam à sombra. Abri uma garrafa!
Sou habitualmente desas-trado. Em jantar com algum cerimonial, toalha branca e vinho tinto, eu serei, de certeza, o autor da desgraça. Mas convivo filosoficamente com isso (estou-me nas tintas, portanto). Ainda há bem pouco tempo entornei um jarro (diz-se decantador para parecer bem, mas é um jarro na mesma), com um qualquer néctar dos deuses, na melhor toalha de um amigo.
A única coisa imperdoável foi o sorriso com que brindei a senhora ao lado, a quem não pude explicar que sorria apenas à minha proverbial tendência para o desastre e que saiu da sala entre um arrastar de cadeiras, um vestido a cheirar a trapo com álcool e o habitual espalhafato de pratos, talheres e murmúrios de "dá sorte…".
Como seria de esperar, também desta vez entornei uma parte do champanhe na camisa, mas até foi bom, para além do luxo, (melhor que banho de champanhe só leite de burra), acentuou o ar despreocupado que tinha decidido exibir às minhas amigas e, de resto, o calor se encarregaria de me pôr decente.
Dei por mim a rememorar coisas antigas.
A Ana. Conheci-a na Universidade, teria eu uns vinte mal medidos e ela provavelmente trinta. Eu cheio de virtude (isto quer dizer virgem), ela com uma filha já. Eu aspirante a engenheiro e ela quase médica.
Claro que o primeiro passo foi dela. O entusiasmo foi meu e, dois dias depois de nos conhecermos vivíamos juntos, com toda a naturalidade! Recordo-me que, mais tarde, o meu pai terá dito que não admitia que um filho seu vivesse em estado de mancebia.
Não percebi o que quis dizer mas passei de jovem a homem feito. Escolhi a Ana.
Hoje teria ido ao dicionário, escolhido a Ana e desculpado o pai.
Já não a vejo há anos! Talvez trinta e poucos ou trinta e muitos. Separámo-nos cerca de um ano depois, por qualquer razão, ou por nenhuma razão, não sei bem.
Dizem que não há amor como o primeiro.
Não sei se aquele foi o primeiro, nem sei se foi amor. Sei que, na vida, tenho um antes da Ana e um depois da Ana. Na maneira de estar, na forma como me relaciono com uma mulher, nos valores que tento cultivar, naquilo de que mais gosto em mim.
Em tudo está a Ana, não como um desgosto de amor, não como qualquer coisa que se perdeu. Simplesmente está.
-Desculpa, és o Nelson? Eu sou a Ana.
-A Ana? Arregalo os olhos!
-Desculpa! Estava a pensar noutra Ana. Estava a pensar noutra pessoa disse eu numa atrapalhação. Tenho um grande prazer em estar contigo!
Dei-lhe um abraço, ela sorriu e servi-lhe uma taça de champanhe enquanto procurava acertar o relógio do tempo com o da vida.

3 comentários:

Anaquariana disse...

O amor antigo vive de si mesmo.
Não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera.
O amor antigo tem raízes fundas,
Feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
E por estas suplanta a natureza.
Se em toda a parte o tempo desmorona,
A antigo amor, porém, nunca fenece
Aquilo que foi grande e deslumbrante,
A cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste?
Não!
Ele venceu a dor.
E resplandece no seu canto obscuro,
Tanto mais velho quanto mais amor!...
(Carlos Drummond de Andrade)


Finalmente a história...
Parabéns!
Por ela e pela coragem de a partilhares...

rosario disse...

Dia a dia, à medida que mudam as nossas relações e nós mudamos com elas, provamos que o amor consciente é possível, independentemente do seu curioso e surpreendente conteúdo. Estamos a descobrir que existe um tempo e uma singularidade para cada par individual, que um fim também pode ser um princípio. O processo pode ser angustiante, mas até a angústia pode ser uma dádiva. Recorda-nos a profundidade das nossas emoções, a nossa capacidade de paixão e de perdão, de genorosidade, e a nossa ânsia de amar e ser amados

Nux@ disse...

Será que todos nós não teremos o nosso Antes de ... e Depois de ... qualquer acontecimento? Eu tenho, o antes da «bomba atómica» na minha vida e o depois!

Seria esta a história de que tanto se falou? a do champanhe na praia ... eu não estava, cheguei depois, mas adoro praia e champanhe. Acho que também nessa ocasião eu tenho um Antes e um Depois (AC e DC) eheh ... O antes de beber e o depois ;)