Observas-te ao espelho
Desabitam-se as tuas feições
Sentes-te no fundo fundo onde nenhum braço chega
Acenas aos amigos, como náufrago a barcos indiferentes
Mas sabes bem que eles têm a sua rota e os seus horários
E aí estás tu, barata de costas, a esprenear, sem apoios
Choras para dentro humidades de gruta
Escondes a amargura em nevoeiros secretos
Não importa a indiferença dos outros
Haverá sempre quem goste e não goste de ti
Essencial é que nunca te desprezes
Diz-se que há duzentos milhões de doentes no mundo
Um dia farás parte desse número
É bom que comeces já a pensar que a doença ilumina o mistério do nosso futuro
Recorda-nos que somos daqui mas que não somos para aqui
A doença humilha-nos, situa-nos na verdade que somos e deixa-nos entregues nas mãos de Deus
Porque é que, tendo saúde teremos de ser altivos e opressores, quando iremos acabar como doentes, que pedem piedade e inspiram compaixão?
Porquê tanto egoísmo e orgulho, quando acabaremos entregues a quem caridosamente nos apoie e ajude?
Então, porque não reconhecemos agora e já cada momento de amor e felicidade?
Será essa recordação e vivência o único suporte da vida!
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2 comentários:
Este texto deixa-nos uma marca a ferro e fogo.
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