domingo, 9 de novembro de 2008

Cândida



«Contarei a história da mulher do feitor»






Cândida.
Raras vezes um nome era tão acertado como este.
Assim se chamava a moça da Covilhã com quem o feitor tinha aprazado casamento.
Já lá iam uns bons pares de anos, era ela ainda uma menina de bibe, quando as famílias dos dois lhes traçaram o futuro, estava ele quase de abalada para as províncias ultramarinas já com a carta de chamada para São Tomé, que lha tinha conseguido o mais notável membro da família dele, o primo padre que estava em missão naquelas terras.
No entender do seu pai, o conversado da sua menina Cândida, tinha primeiro de se fazer à vida e depois que ele tivesse os proventos bastantes para dar uma boa vida à sua "obra de arte", como ele mesmo dizia, então sim! Ele lha entregaria, mesmo que isso lhe custasse não ver mais a sua única filha mulher.


Nem as gotas de suor que lhe escorriam nas faces lhas coravam, por momentos teve de se apoiar no arbusto que ladeava a entrada da roça. O moleque que lhe transportava a ceira que ela a muito custo lhe tinha confiado, porque era preciosa, pois, estava cheia dos seus tesouros (um terço enfiado de pequenas contas de cristal de rocha retiradas das profundezas das Minas da Panasqueira, o missal de coiro preto gravado a letras de ouro já quase todas sumidas do uso que lhe tinha sido dado pela mãe, o lenço de mão de linho branco que ela bordara e outras preciosidades, como a foto da família tirada no fotógrafo mais famoso da Covilhã, “Foto Corrêa”, e as arcadas que teve de tirar das orelhas durante a viagem, porque nem o peso delas aguentara) o moleque, dizia eu, abriu os olhos e esfregou-os, a «patroinha» tinha desaparecido, magia? Não! Quando se encostou ao arbusto a brancura de Cândida confundiu-se com as suas flores, inúmeros ibiscos brancos e os seus olhos verdes pareciam duas folhas enroladas, acabadas de despontar, até o chapéu branco de palhinha, que a madrinha lhe tinha oferecido, porque mulher branca nunca desembarcava sem a sua «capeline», ajudou ao momento de ilusionismo.
Todos correram a ampará-la. Ela sorriu, endireitou-se e justificou a tontura pelo cansaço da viagem, o balanço do barquinho que tinha feito o transbordo do paquete Mouzinho para o ancoradouro da cidade de São Tomé e o calor húmido do astro daquela terra. Desconhecia ainda, o verdadeiro motivo, o pequeno ser que já trazia dentro de si….
Aí também o seu nome condizia, à jovem Cândida, ninguém tinha desvendado os segredos da intimidade de mulher casada, tudo tinha sido feito por instinto e porque devia ser submissa ao seu homem.
No seu entender, também o batuque ritmado de boas-vindas, som que lhe era estranho, fora a causa dos arrepios de emoção que tinha sentido, porque, por instantes lhe tinham lembrado o som dos teares da sua querida terra natal, daí aquela tontura e náusea.

Agora só, no quarto de vestir, onde se tinha recolhido um pouco para se refrescar, antes de assumir o seu papel de mulher do feitor, Cândida, recuava no tempo, ao tempo em que o seu pai conhecera o pai do seu homem.
Era Novembro, pelos Santos, altura em que os rebanhos desciam a Serra e passavam pela Covilhã a caminho dos pastos verdejantes de Idanha para aí passarem o Inverno.
As origens do feitor eram as campinas da Beira.

Cont.

2 comentários:

Anaquariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nux@ disse...

Boa Rosarinho, vai contando ao ritmo do tempo, Novembro é bom mês para contos como este, estou a adorar ;)

Nuxa