Comam brioches
Uma sociedade
que não consegue criar mecanismos de redistribuição da riqueza por forma a que
todos tenham o mínimo para o garante da sua sobrevivência é uma sociedade
injusta e condenável.
Uma sociedade em que uma meia dúzia de indivíduos ou de organizações
concentra a quase totalidade da riqueza, em que a maioria – a classe média –
consegue apenas sobreviver e a pobreza atinge progressivamente camadas
crescentes da população, é uma sociedade condenada ao conflito social,
frequentemente ao conflito social violento.
Esta
é a lição da História.
Todas
as grandes convulsões sociais se desenvolveram num caldo de cultura de
assimetrias sociais muito sublinhadas, perante a insensibilidade mais ou menos
velada do poder político e da classe economicamente dominante. Exemplo disto,
provavelmente romanceado, é Paris a arder em fome e a frase de Maria Antonieta:
se não têm pão - comam brioches!
A
crise económica em que vai paulatinamente mergulhando a Europa pode ser, num
prazo mais curto do que se prevê, a razão de conflitos sociais mais ou menos
violentos mas seguramente mais sérios do que as manifestações de rua a que já
nos habituámos e que, por serem organizadas, serão sempre pacíficas.
A
Maria Antonieta dos nossos dias dirá que os pobres são pobres porque não trabalham,
porque são preguiçosos, que os ordenados de miséria são o resultado de termos
vivido para além das nossas possibilidades e que, quanto aos jovens sem
emprego, ou não têm habilitações – estudem!, ou tendo habilitações – emigrem!,
ou não emigrando que sejam empreendedores, isto é, que tenham ideias brilhantes,
porque a sociedade não tem ideia nenhuma que lhes resolva o problema!
O
mundo moderno possui já a tecnologia necessária para que todos os bens de
consumo possam ser produzidos com um mínimo de mão-de-obra altamente
qualificada. Sem apoio em nenhum estudo conhecido e provavelmente com algum
exagero, poder-se-ia dizer que, a nível global, toda a riqueza poderia já, ou
num prazo mais ou menos curto, ser produzida com intervenção de cerca de dez
por cento da população ativa. Esta é a consequência natural da revolução
industrial e dos avanços atuais da robótica.
Mas
não terá valido a pena todo o desenvolvimento científico e tecnológico da
humanidade para ser trocado por níveis de desemprego crescentes e, pelo que se
percebe, aceites como um mal necessário, apenas útil para integrar numa série
de variáveis económicas que apenas traduzem, para quem as queira entender, a
falência certa e a prazo do sistema.
À
juventude de hoje caberá resolver a quadratura do círculo que é o pleno
emprego, ou melhor: o trabalho como um direito. Resta saber se através de um
novo pacto social conseguido a partir das evidências ou se no fim de um período
de conflitos sociais cuja dimensão ainda se ignora mas que tocará a todos, que
todos estamos no mesmo barco no mundo global.
Romeiro

1 comentário:
Existe um guião escrito que não muda perante nenhum contratempo e as vítimas, aconteça o que acontecer, custe o que custar, serão sempre as mesmas. O povo. Ou seja, todos nós e os trabalhadores, porque qualquer outro destinatário dos sacrifícios contará sempre com a devida protecção do sistema de amiguismo e compadrios e em nenhum momento, custe o que custar, o caminho da austeridade pode ser posto em causa. Nem mesmo quando todos os factos nos mostram a sua insustentabilidade económica, financeira e política.
Portugal transforma-se rapidamente na China da Europa. Não entender isto, é dar argumentos à direita para impor a sua agenda de empobrecimento.
Mas o barco vai ao fundo e, das duas, uma. Ou aprendemos a nadar ou vamos junto!
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