
Domingo, 16 Março 2008 às 07:00
Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto "almoços de trabalho", almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.
O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.
Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por "Menina isto" e "Menina aquilo". Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.
Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um "vizinho" do restaurante — ocasionalmente almoça mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da "patroa", sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.
Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse:
-"Então, escolhe lá o que queres almoçar".
Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção, queria ser visto mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei. O seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.
(Miguel Sousa Tavares)
(Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”)
'Este texto fez-me recuar trinta anos e recordar os almoços com a minha filha, numa tasquinha perto da travessa do Oleiro, onde era a escolinha dela. Digo escolinha porque era mesmo pequenina mas orientada por pessoas de coração Enorme, pessoas para quem o ensino não se limitava aos números.
Lembrei-me dessa tasquinha, onde o cenário era idêntico, com excepção da tristeza, essa não andava por ali. Os clientes eram discretos, habituais e silenciosos mas de cara franca e sorriso fácil. Almoçava-se a comida mas também se almoçava com os outros e eram as gargalhadas a propósito de tudo e de nada, provocadas pela alegria de uma criança que nos aproximava e nos tornava íntimos.
Gostava destes almoços, de comidinha caseira sem grandes pretensões mas preparada com muito carinho pela Dª Adriana que a certa altura saía da cozinha, para nos vir perguntar se a comida estava boa, ou se queríamos mais um bocadinho.
Gostava tanto destes almoços, que inventava mil e uma desculpas para fugir aos almoços de coisa alguma, os ditos almoços de trabalho, ou os almoços com colegas de trabalho, que não sendo a mesma coisa, eram semelhantes, falava-se sempre das mesmas coisas, ou seja, de coisa nenhuma…
Ainda hoje, gosto de restaurantes pequeninos ou tasquinhas, onde a comida me é servida com um sorriso franco e luminoso e me faz recordar…'
5 comentários:
Pois é Ana. E tu fizeste-me lembrar do restaurante do Sr.Coelho, onde tantas vezes ia com o meu pai.... que coisa gira! nunca mais me tinha lembrado disso e hoje quando li o teu texto, recordei com um sorriso até do cheiro da comida bem temperada,feita pela mulher dele (que não me recordo do nome).
É bom lembrar!!
Beijos
Belíssima prosa que nos agarra do princípio ao fim.
Boa Ana,gostei!
Um grande abraço aos três, como tu dizes Rosário, é sempre bom lembrar...
gostei muito do texto de miguel sousa tavares, foi como se me tocasse no coraçao e me fizesse recuar no tempo, adorei...
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